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A Divina Misericórdia e a permanente renovação eclesial

A Oitava da Páscoa se encerra no domingo da Festa da Divina Misericórdia, hoje indissociável do culto litúrgico da “Divina Misericórdia”, que explicita o centro da economia da salvação. A tensão pascal, missionária e escatológica aparece no Evangelho deste domingo (cf. Jo 20,19-31): “‘Como o Pai me enviou, eu também vos envio’. Dito isso, soprou sobre eles e falou: ‘Recebei o Espírito Santo’” (vv. 21-22). “No Cenáculo, com o sopro do Espírito, começa a nova Criação: nasce um Povo de discípulos missionários […]; a missão é anunciar o Reino de Deus, oferecendo a cada pessoa, sem excluir ninguém, a misericórdia e o amor do Pai” (Documento Final do Sínodo da sinodalidade, 140). Deus quer comunicar Sua glória pelas missões divinas na Trindade Santa. Esta economia é Seu “desígnio” de benevolência, desígnio eterno de misericórdia, em Cristo (Ef 1,9), mistério a ser celebrado e exaltado na solenidade do Domingo na oitava pascal. Nesse sentido, é a Festa da Divina Misericórdia

Esta memória litúrgica é um grande impulso para a sempre necessária renovação da Igreja. Sua milenar Coleta invoca “Ó Deus de eterna misericórdia(assim a Igreja responde no Salmo: “Eterna é a sua misericórdia”; 118/117,1), e suplica “aumentai a graça que destes” na festa anual da Páscoa pelos sacramentos da iniciação cristã, ou seja, “o Batismo que os lavou, o Espírito que os regenerou e o sangue que os redimiu” (Batismo, Confirmação e Eucaristia). É a oitava batismal, cujo conteúdo batismal e mistagógico de antiga tradição é testemunhado pela eucologia do Missal Romano – por “Batismo” se entendia o grande sacramento da iniciação composto de três ritos. 

No mesmo Evangelho (vv. 22-23), encontra-se o fundamento do sacramento da Penitência, quando o Ressuscitado “soprou sobre eles e disse: ‘Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem os retiverdes, eles lhes serão retidos’”. O Ritual da Penitência (cf. n.2) procura estabelecer o nexo entre Penitência e Batismo-Eucaristia: a vitória sobre o pecado aparece primeiro no Batismo, por isso a Igreja professa sua fé “em um só Batismo para a remissão dos pecados”; no sacrifício da missa, o corpo de Cristo é entregue por nós e o sangue, derramado para a remissão dos pecados. Além disso, Jesus Cristo concedeu o poder de perdoar os pecados, instituindo o sacramento da Penitência, em que a condescendência de Deus resplandece de modo especial quando, pelo próprio Deus onipotente, são perdoados os pecados. 

Na liturgia do Domingo da Misericórdia, dois temas se ligam à Ressurreição: 1) a onipotência da misericórdia divina; e 2) a remissão dos pecados ou o perdão que salva na modalidade da “justificação”, um dos efeitos do Batismo. De fato, o proprium do Domingo da Misericórdia é a mística da misericórdia associada ao mistério da Páscoa, quando Cristo se apresenta vitorioso sobre o pecado e a morte. A Coleta do 26º Domingo aponta tal relação: “Ó Deus, que mostrais vosso poder sobretudo no perdão e na misericórdia”. Por isso, “a justificação é a obra mais excelente do amor de Deus […] Santo Agostinho pensa que ‘a justificação do ímpio é uma obra maior do que a criação dos céus e da terra’ […], por testemunhar uma misericórdia maior” (Catecismo da Igreja Católica, 1994). O “oitavo dia” dá início à nova criação: no dia da Ressurreição de Cristo, transparece de modo especial a vinculação interna do mistério pascal com o mistério da “Divina Misericórdia” na economia sacramental.

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