Em 22 de agosto, a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) completou 80 anos de fundação, com um legado inafastável na história brasileira e a perspectiva dos enfrentamentos que a realidade contemporânea impõe.
Além da produção acadêmica e da pesquisa em suas inúmeras faculdades e centros de referência, a PUC-SP constituiu um legado especial na resistência à ditadura militar e às tentativas de agressão ao Estado de direito. De igual forma, na luta pelo respeito aos direitos humanos e pela promoção do direito ao desenvolvimento, tornou-se espaço de reflexão na busca do diálogo e da militância pela paz: verda-deira Casa da Cidadania em São Paulo.
Esse agir histórico é com propósito transformador: decorre da própria natureza institucional da PUC-SP como au-têntica universidade comunitária. Mantida pela Fundação São Paulo – pessoa jurídica de fins não econômicos, de vocação filantrópica e confessional, vinculada à Mitra Arquidiocesana de São Paulo –, a Universidade assume, em sua própria missão institucional, o compromisso com a liberdade de investigação, de ensino e de manifestação do pensamento, sempre em vista da realização de sua função social. É esse caráter comunitário – plural, permeável às demandas da sociedade civil e orientado ao interesse público, no espírito que viria a inspirar, décadas mais tarde, o marco legal das instituições comunitárias de educação superior (Lei nº 12.881/2013) – que explica por que a PUC-SP pôde, em momentos de exceção institucional, oferecer-se como abrigo à livre circulação de ideias, quando as próprias estruturas do Estado falharam nesse papel.
A Universidade Católica tem, no presente, o desafio de construir e difundir o conhecimento do futuro, em face da revolução tecnológica, das mudanças climáticas, da ameaça demográfica e dos atentados à democracia.
Nesse contexto, os impactos do uso da inteligência artificial constituem um vasto campo para o exercício da responsabilidade universitária. Promover o engajamento de estudantes e professores, pesquisadores e cientistas poderá fazer a diferença em escala civilizacional, zelando sempre pelo respeito à sua dignidade profissional.
Celebrar 80 anos de história é, por isso, também um exercício de projeção. A melhor forma de honrar, ainda mais, esse relevante legado é romper barreiras – físicas e simbólicas – que ainda distanciam a Universidade da sociedade que a constituiu e a legitima: abrir-se ao diálogo permanente com o poder público, com as organizações da sociedade civil e os movimentos sociais, com as periferias e com as novas gerações, investindo nos seus territórios e colocando a produção acadêmica a serviço das urgências do tempo presente – verdadeira transição –, sem abrir mão do rigor científico nem do compromisso ético-humanista. Se, no passado, a PUC-SP foi Casa da Cidadania por resistir, no futuro continuará sendo por antecipar: por transformar seus limites em pontes e sua tradição em bússola para os desafios apontados.
*Rubens Naves é advogado – turma de 1966 da Faculdade de Direito da PUC-SP e ex-professor do Departamento de Teoria Geral do Direito;
**Guilherme Amorim Campos da Silva é advogado – turma de 1994, Mestre (2002) e Doutor (2010) pela Faculdade de Direito da PUC-SP