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Da prensa móvel aos algoritmos: quando pensar vira um desafio

A cada nova revolução tecnológica, a humanidade amplia sua capacidade de produzir, armazenar e compartilhar informações. Foi assim quando Gutenberg desenvolveu a prensa móvel; mais tarde com o rádio e a televisão, depois com a internet e, agora, com as redes sociais e a inteligência artificial. Em comum, todas essas transformações alteraram profundamente a comunicação. O aspecto menos discutido talvez seja a forma como também modificam nossa relação com a realidade.

Costuma-se dizer que nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento; afinal, nunca foi tão simples encontrar uma informação, acompanhar um acontecimento em tempo real ou estabelecer contato com pessoas em qualquer parte do mundo. Ao mesmo tempo, jamais estivemos tão expostos a uma quantidade tão grande de imagens, opiniões, interpretações e conteúdos produzidos em ritmo acelerado. O desafio deixou de ser apenas obter informação: passou a ser compreendê-la. Procurei desenvolver essa reflexão, em uma perspectiva interdisciplinar, no livro De Gutenberg a Zuckerberg: A Jornada das Imagens e a Transformação da Comunicação – Liberdade ou Ilusão?

Hoje, convivemos com uma sucessão praticamente ininterrupta de vídeos curtos, notificações, manchetes, comentários e conteúdos personalizados por algoritmos, responsáveis por selecionar boa parte do que aparece diante de nossos olhos. Em poucos minutos, percorremos centenas de informações, mas dificilmente conseguimos refletir sobre elas na mesma velocidade com que são consumidas. A sensação de estar sempre informado pode esconder um paradoxo: saber um pouco sobre tudo nem sempre significa compreender algo em profundidade.

A pandemia de COVID-19 tornou essa realidade mais evidente. Enquanto informações confiáveis circulavam em velocidade inédita, notícias falsas também encontravam terreno fértil, alimentando dúvidas, insegurança e desinformação. O problema não estava apenas na existência das fake news, mas na dificuldade coletiva de distinguir o resultado de uma investigação séria daquilo produzido para manipular percepções.

A chegada da inteligência artificial amplia ainda mais esse debate. Hoje, é possível resumir livros, elaborar textos, produzir imagens, criar vídeos e reproduzir vozes com poucos comandos. São ferramentas capazes de oferecer benefícios inegáveis e dificilmente deixarão de fazer parte do cotidiano. O risco não está na tecnologia, mas na possibilidade de abrir mão, pouco a pouco, daquilo que nenhuma máquina consegue substituir plenamente: o exercício da interpretação crítica.

Não se trata de defender um retorno ao passado nem de enxergar a tecnologia como inimiga. Seria um equívoco ignorar os avanços proporcionados por ela. O verdadeiro desafio consiste em impedir que a velocidade substitua a reflexão e que a abundância de conteúdos nos faça acreditar na falsa equivalência entre informação e conhecimento.

Talvez a grande questão do nosso tempo não seja descobrir até onde a inteligência artificial poderá chegar, mas avaliar nossa disposição para exercer aquilo que sempre distinguiu o ser humano: a capacidade de pensar criticamente sobre o que vê, lê e compartilha. Trata-se de um debate que ultrapassa o universo da comunicação e ajuda a compreender por qual motivo a história dos meios comunicacionais continua oferecendo respostas importantes para interpretar os desafios do presente.

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