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O que dizem os profetas em tempos de barafunda política, social e sanitária?

Dizem que é o tempo da ira de Deus. O que é, porém, a ira de Deus? Os exegetas nos explicam que a compreensão de quem é Deus e, sobretudo, de como Deus age, evoluiu ao longo da história do povo hebreu – depois, com a sua encarnação, por meio da qual se conheceu sua compaixão e misericórdia –, assim como continuou a evoluir ao longo da história do Cristianismo e da Igreja; pois a relação de amizade de Deus com o ser humano é dinâmica e Deus respeita, ajuda e reforça a liberdade humana. Um exemplo disso é justamente a compreensão do que é a ira de Deus. Deus, que é totalmente bom, só pode fazer o bem e nunca traz sofrimento para o ser humano (nem para Cristo!).

Deus nunca gosta que os seres humanos sofram, pois Ele é nosso aliado, como disse o Frei Raniero Cantalamessa, na cerimônia do Tríduo Pascal com o Papa Francisco. O sofrimento, a doença, a morte e todo e qualquer mal são sempre insuflados pelo pai da mentira, como aconteceu com Judas. Então, no entanto, e a ira de Deus? O castigo de Deus? Os profetas nos explicam que a ira ou o castigo de Deus acontecem quando Deus se afasta por um momento do ser humano (pois Ele está sempre nos salvando, carregando e dando vida), deixando-o chafurdar-se no próprio mal, fruto da partnership que este fez, desde Adão, com o demônio. Os profetas explicam que este afastamento de Deus acontece, primeiramente, por iniciativa do ser humano. Somos sempre nós que nos afastamos de Deus e nunca Ele de nós. Ele apenas espera, respeita a liberdade humana e busca de “todas as formas e com muita criatividade” retomar o relacionamento, como fez com Davi, com Pedro, com Paulo. Por que Deus permite e respeita esse afastamento e suas consequências nefastas? Por um motivo pedagógico e purificador. Por isso, o sofrimento para quem ama e busca a Deus é também um caminho de santificação. Onde abunda o pecado, superabunda a graça. Deus não tem medo das ações do Maligno e sabe usar de forma perfeita o mal que este gera, transformando-o em bem ainda maior (como diz o canto do “Exsultet”, na Vigília Pascal: “Felix Culpa”).

Os profetas nos ensinam que são três os pecados do povo que geram a ira de Deus e seu afastamento: o abuso despótico do poder político por parte daqueles que governam em causa própria e não amam nem cuidam do povo, com fins de enriquecimento próprio ou mera avidez de poder; desprezo pelos pobres por meio da enganação e exploração destes e da elaboração de normas e leis injustas, que garantem o bem-estar dos ricos, mas subtraem o direito dos pobres e reduzem a vida destes a condições tão precárias que os induzem a roubar para sobreviver; e a hipocrisia no culto que acontece quando a prática da religião se desvincula da vida: falo em nome de Deus, realizo certas práticas religiosas e cultuais, mas que são apenas externas, de pura fachada, para tranquilizar a consciência (e que posso usar até para me promover), mas não empenham a vida, vivo uma vida paralela… Amós diz ao povo de Israel em nome de Deus (5,21-24): “Eu odeio, detesto as suas festas religiosas; não tolero as suas reuniões solenes. […] Parem com o barulho das suas canções religiosas. […] Em vez disso, quero que haja tanta justiça quanto as águas de uma enchente e que a honestidade seja como um rio que não para de correr”. Deus mostra a Ezequiel exilado na Babilônia que Ele tinha se afastado do templo de Jerusalém por causa das abominações que os sacerdotes realizavam ali dentro (cf. Ez, 8). O que melhor descreve o momento atual? Os profetas, todavia, são também aqueles que pedem a Deus para não desistir do povo, como fez Moisés várias vezes no deserto. Isaías, capítulo 1º, versículos 18 e 19, diz: “Venham, vamos refletir juntos, diz o Senhor. Embora os seus pecados sejam vermelhos como escarlate, eles se tornarão brancos como a neve; embora sejam rubros como púrpura, como a lã se tornarão. Se vocês estiverem dispostos a obedecer, comerão os melhores frutos desta terra”. Cada cristão é chamado por Deus para ser profeta e interceder pelo povo que se desviou do caminho. Que cada um de nós viva essa responsabilidade porque o tempo urge!

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