Por que o ser humano precisa de Deus?

A experiência religiosa é inevitável para o ser humano. Diz a poetisa Adélia Prado em “Solte os Cachorros” (Rio de Janeiro: Record, 2006): “Eu acho que o homem é religioso como é bípede. Tem Deus no começo e no fim. No meio fica a gente esperneando. Se espernear de acordo, isto é, com sinceridade, esbarra Nele, não tem conversa”. 

Se formos sinceros, não é difícil observar que mesmo um ateu não se livra de um “deus”, de um absoluto, a quem afirma e venera com devoção. Essa experiência religiosa pode estar expressa em tantas formas, ao se jogar incondicionalmente nas coisas do mundo, no trabalho, numa causa política, nos prazeres da vida, num relacionamento afetivo etc. Mas pode, também, sem que ele o saiba, jogar-se numa busca de Algo que é mais (que já é sinal de uma presença, ainda que aparentemente ausente), mais belo, mais verdadeiro, e que carrega uma promessa total de bem. É com a sua ausência que esse Algo revela sua “presença”. Hannah Arendt diz que não é possível separar o ser humano da experiência religiosa, pois mesmo o ateísmo do ponto de vista gnoseológico é uma experiência que pertence à esfera da experiência religiosa. 

O que seria essa experiência religiosa inevitável? O desejo de algo que nos transcende, que está além de nós, embora nos pertença. Os antigos filósofos gregos diziam que o ser humano é um ângulo aberto, não um ser completo em si mesmo, mas um vir-a-ser. Giorgio Bonaccorso, em “Celebrare la Salvezza” (“Celebrar a Salvação”, Pádua: Ed. Messagero, 2003), diz que “a existência humana está suspensa entre o real e o imaginário, a posse e o desejo, a conquista e a esperança, o passado e o futuro, a decisão e a dúvida; nunca pertence a um único lado, nem pode ser planejada de acordo com um modelo que elimine completa- mente sua ambiguidade”. 

Para viver e não morrer no desespero, o ser humano precisa ter sempre à mão a possibilidade de abrir uma janela no horizonte que está fora e além de sua vida cotidiana, em que possa ver um transcendente, isto é, algo que seja bom, belo e verdadeiro e que está sempre além dele mesmo. Ninguém acorda de manhã e diz: hoje, tudo que eu quero mesmo é sofrer e ver coisas ruins. Se isso fosse verdade, a depressão não existiria. Dostoiévski diz, com toda a razão, em “Os Demônios” (São Paulo: Editora 34, 2018): 

“Minha imortalidade é indispensável porque Deus certamente não vai querer cometer uma injustiça e extinguir completamente o fogo do amor para com ele, aceso em meu coração. E o que é mais precioso do que o amor? O amor é superior à existência, é a coroa da existência, e como é possível que a existência não esteja sujeita a ele? Se comecei a amá-lo e me regozijei em meu amor, como é possível que ele apague a mim e minha alegria e nos transforme em nada? Se Deus existe, então eu também sou imortal! [...]. Toda a lei da existência humana reside apenas no fato de que o homem sempre pode se curvar diante do infinitamente grande. Se os homens fossem privados do infinitamente grande, não poderiam mais viver e morreriam em desespero. O infinito e o imenso são tão indispensáveis ao homem quanto este pequeno planeta em que ele habita”. 

Ana Lydia Sawaya é monja beneditina camaldolense do Mosteiro da Encarnação, Mogi das Cruzes (SP). Foi professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com doutorado em Nutrição na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e pesquisadora visitante do Massachusetts Institute of Tecnology (MIT). 

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