O que é o Domingo da Misericórdia?

Sergio Ricciuto Conte

“É uma memória [litúrgica]!” – esta afirmação do saudoso Padre Ramón Pulido Santiago, na igreja da Consolação, sempre me impressionou, e suscita a pergunta: qual o elemento específico do culto litúrgico da Divina Misericórdia no 2º Domingo da Páscoa? Na sua instituição, prescreveu-se o uso dos textos litúrgicos do Missal Romano e da Liturgia das Horas, apenas acrescentando ao nome a expressão “ou da Divina Misericórdia” (o novo Missal de 2002 optou por um subtítulo: Domingo da Divina Misericórdia); contudo, na atualidade, atendendo aos desejos do povo de Deus, o Domingo que encerra a oitava da Páscoa está ordenado à exaltação da Divina Misericórdia revelada ao máximo no mistério pascal (cf. decreto Misericors et miserator, 2000). Esta dimensão do único mistério de Cristo é primordial e deve ser celebrada e vivida no “memorial” litúrgico. 

A liturgia desse domingo “constitui o espaço natural em que se expressa a acolhida da misericórdia do Redentor do homem” (Diretório sobre a piedade popular e a liturgia, 154). Há uma tensão profético-missionária representada pela recepção da fé na onipotência da misericórdia divina no centro mesmo da fé e da liturgia cristã, ou seja, no prolongamento do Domingo da Ressurreição, assim associando a mística e o mistério da divina misericórdia ao mistério pascal, mais forte que o pecado e a morte, com repercussões na própria teologia do domingo, “o dia que o Senhor fez”, porque “eterna é a sua misericórdia!” (Sl 118/117). 

Essa dinâmica, que envolve a progressiva autocompreensão que a Igreja tem de si mesma, sobretudo mediante a celebração do mistério de Cristo, se regula pelo axioma “lex orandi – lex credendi”: a liturgia é um “lugar teológico”, enquanto fonte em que se vive e alcança a fé autêntica e genuína da Igreja, visto que a liturgia contém e proclama o querigma, o qual, na sua formulação trinitária atual, é essencialmente a proclamação da “misericórdia infinita do Pai” (Evangelii gaudium, 164); por isso, o Diretório para a Catequese (2020), ao reconhecer o primado do querigma na nova evangelização, adotou uma “catequese querigmática”, em que prevalece o anúncio “sob o sinal da misericórdia” (nº 51).

Diante desses princípios – dentre os quais se inclui o “desenvolvimento orgânico da liturgia” (cf. Sacrosanctum concilium, 23) –, sempre orientados pela Palavra de Deus, é que se deve compreender o novo sentido do Domingo da Páscoa, relacionado “organicamente” com o significado a ele conferido pela Tradição, conforme atesta a carta do Papa emérito Bento XVI, no Centenário de nascimento de São João Paulo II: “Uma data tão antiga e cheia de conteúdo como a do domingo in albis não deveria se sobrecarregar com novas ideias. […] o Papa fez uma proposta mantendo o histórico domingo in albis, mas incorporando a Divina Misericórdia em sua mensagem original” (04/05/2020). Desta providencial combinação brotará, certamente, a esperada renovação da catequese mistagógica na oitava batismal.

Este é o tempo favorável do qual o Domingo da Misericórdia é o “sinal” eminente de um desígnio divino, relativo a conteúdo e compreensão novos, com vastas potencialidades pastorais a serem desenvolvidas pela Igreja sinodal e discernente, cabendo, para isso, uma hermenêutica que se valha da tríade do tempo, do culto e da cultura da misericórdia. Seja a intuição do Padre Ramón, a que fiz alusão no início, constante inspiração para a investigação cada vez mais profunda, com vistas à justa glorificação da Misericórdia onipotente.

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