Reflexões éticas sobre o aprimoramento humano por meio de tecnologias

A perspectiva do aprimoramento humano por meio de tecnologias vem atraindo considerável atenção de estudiosos, da mídia e dos formuladores de políticas, mas nem sempre considerando as questões éticas, religiosas e morais de tais intervenções e as implicações práticas sociais decorrentes de uma cultura de aprimoramento humano por meio de tecnologias.

Tais aprimoramentos no corpo humano podem incluir modificações cerebrais para aumentar a capacidade de memória ou raciocínio (com o uso dos intensificadores cognitivos); alterações na bioquímica para aumentar a resiliência ao ambiente; ou a criação de novas capacidades físicas. Estudiosos alertam que esta nova era do transumanismo possa levar a biologia a ser tratada como algo a ser manipulado à vontade, dependendo dos interesses do estilo de vida e não das reais necessidades de saúde.

No entanto, permanecem sem respostas questões éticas, morais e religiosas complexas: até que ponto a sociedade está preparada para aceitar esses tipos de tecnologias, e quais problemas éticos elas criam, quando se busca desafiar os limites impostos pela natureza para criar uma nova categoria de seres humanos ‘evoluídos’.

As questões éticas das tecnologias de aprimoramento humano não estão apenas relacionadas à liberdade individual, mas também precisam considerar o impacto sobre os outros e a sociedade como um todo. Por exemplo: uma das preocupações é como elas seriam financiadas – e sustentando essa preocupação estão questões sobre equidade e justiça. Em um mundo no qual os sistemas nacionais de saúde lutam para atender as populações, a perspectiva de usar fundos nacionais para “aperfeiçoar” algumas pessoas por meio de tecnologias é potencialmente contrária ao princípio da solidariedade social e ao bem comum.

Alguns cientistas argumentam que tornar melhor a saúde e o desempenho das pessoas garantirá que as gerações futuras sejam mais resistentes a doenças – e, a longo prazo, aliviaria o fardo social do sistema de saúde. Com base nisso, argumentam que uma sociedade não pode deixar de “melhorar” a humanidade.

Não obstante, a Federação Internacional de Médicos Católicos, já em 2013, em Madri, na Espanha, no Congresso Internacional sobre Ciência e Vida, registrou preocupação com o crescente poder que o desenvolvimento tecnológico vem conferindo a indivíduos e instituições que, sem respeito pela vida humana, pretendem determinar o futuro da humanidade. Assim, a Federação emitiu a Declaração de Madri sobre Ciência e Vida, proclamando a urgência de proteger a ciência da aspiração do poder que pretende controlar a vida dos outros. Recorda que o respeito incondicional por cada vida humana, independentemente de sua condição e estágio de desenvolvimento, é a premissa básica de todo progresso. Na ciência, como na política ou no exercício de qualquer profissão, devem ser dadas as garantias e proteções necessárias para que a sua função não seja usurpada por interesses econômicos ou desígnios manipuladores que muitas vezes têm como marca distintiva o desrespeito pela vida indefesa, não autônoma ou não planejada. Parece que esquecemos que somos muito mais que um conjunto de determinações genéticas. Parece que nossa ciência carece de alma. Nesse sentido, será desejável estimular a reflexão e fomentar o diálogo dentro da academia para promover o amor desinteressado pelo conhecimento e pela sabedoria, que é, em última instância, amor ao ser humano.

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João Lucas Lopes
João Lucas Lopes
24 dias atrás

Pertinente e urgente reflexão acerca dos limites éticos da medicina e da tecnologia. Sim, parece que nossa ciência hj carece de alma!

Mônica Maroja
Mônica Maroja
24 dias atrás

Excelente reflexão sobre questões éticas para um debate entre ciência e religião.

Pedro Barros
Pedro Barros
23 dias atrás

O que me cativa nas reflexões do Sr. Rodrigo Gastalho é a sua capacidade de enfrentar temas tão polêmicos, primando seu raciocínio técnico às verdades elementares da humanidade, quais sejam: fé, esperança e amor. Ótimo texto!

JBerbara
JBerbara
22 dias atrás

Mas a ciência busca controlar os acontecimentos e traz para sí, o bastão de dona da verdade. Estamos perdendo o controle de quem e o que somos. O preço será alto.

Francis Pontes
Francis Pontes
22 dias atrás

Excelente reflexão sobre a urgência de uma normatização para inibir interesse escusos.

Justino Carvalho
Justino Carvalho
21 dias atrás

Estamos vendo a arte antecipar a vida real como nos filmes Robocop e Blade Runner