Reina em nós, Senhor!

A Solenidade de Cristo Rei do Universo, que a Igreja nos convida a celebrar no encerramento de cada ano litúrgico, é uma devoção pensada especialmente para o mundo moderno. De fato, a Igreja nos propõe meditar sobre o Reinado de Cristo justamente como resposta a vários sintomas de desarmonia nas sociedades de nossos dias, com a vida pública envolvida pela densa neblina dos ódios e ressentimentos mútuos: na arena internacional, a sempre presente ameaça de novas guerras, capazes de ser mais terríveis e destrutivas que todas as precedentes  (n. 11); no interior dos países, a guerra entre as classes, que, como um câncer, carcome as forças vitais do tecido social, as rixas partidárias (...) e o desejo do poder e da proteção de interesses particulares (n. 12); nas famílias, a santidade do laço matrimonial esquecida, com um grande aumento de liberdade em matérias morais e filhos alienados de seus pais, e irmãos lutando com irmãos; na vida dos próprios indivíduos, uma inquietação mórbida e um espírito geral de insubordinação, que se recusa a estar à altura de suas responsabilidades, e na juventude, a destruição da pureza com a crescente imodéstia no vestir e no conversar, e com a participação em danças infames (n. 13). A civilização cristã foi gravemente ferida, a tal ponto em que a sociedade humana, longe de experimentar o progresso de que se costumam gloriar os homens, parece regredir à ferocidade dos bárbaros (n. 15). Estas linhas foram escritas já há um século, na encíclica Ubi Arcano – e no entanto elas se encaixam como uma luva para os dias que correm...

Esse quadro poderia nos fazer sucumbir perante a tentação de desânimo, ou de acusações mútuas – e contudo nossa fé nos ensina que se Deus, em seu infinito Amor e Sabedoria, nos chamou à existência hoje, no século XXI, isso significa que é aqui e agora que somos convidados a responder generosamente aos convites que Ele nos faz – a carregarmos no coração o fogo do amor de Cristo, e a incendiarmos com ele todos os caminhos da terra.

Na Santa Missa de Cristo Rei do ano passado, o Papa Francisco comentava sobre a leitura da profecia de Daniel, que viu o Senhor vindo no meio das nuvens, durante a noite (cf. Dn 7,13): “Deus vem durante a noite, por entre as nuvens muitas vezes tenebrosas que se acumulam sobre a nossa vida”. O Santo Padre convidava os jovens a “ter olhos lúcidos mesmo no meio das trevas, [e] não cessar de procurar a luz no meio das trevas que muitas vezes trazemos no coração e vemos ao nosso redor. Levantar o olhar da terra, na direção do alto, não para fugirmos, mas para vencermos a tentação de permanecer deitados nos pavimentos dos nossos medos. Este é o perigo: que nos dominem os nossos medos. Não fiquemos fechados nos nossos pensamentos a chorar a nossa sorte. Levanta o olhar, levanta-te: este é o convite”.

Por mais confusão, por mais rixas e crises que vejamos à nossa volta, empenhemo-nos, então, em fazer de Cristo o Rei de nossos corações – e teremos dado o primeiro passo, muito real e concreto, para “consertar” o mundo. Santa Teresa de Calcutá, quando interrogada por um jornalista sobre qual seria a primeira coisa que ela reformaria na Igreja, se tivesse a autoridade, deu uma resposta que bem serve para nós: “Eu reformaria... a mim mesma!”.

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