‘Servos inúteis’

Hoje facilmente nos iludimos pelo desejo de sermos “protagonistas”. Valorizam-se pessoas “independentes”, que vivem “por conta própria”. Aos jovens, incute-se a pretensão de serem “originais”; de trilharem o seu próprio caminho e de romperem com os padrões. Criou-se uma moral falsa que identifica o bem e a felicidade com a originalidade e a independência. 

Para uma cabeça formatada desse modo, são chocantes e incompreensíveis as palavras do Senhor: “Quando tiverdes feito tudo o que vos mandaram, dizei: ‘Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer’” (Lc 17,10). A verdade é que somos “servos”, dependentes de Alguém maior do que nós; e somos “inúteis”, dispensáveis, facilmente substituíveis. O verdadeiro Protagonista, que faz as coisas acontecerem, é Deus. Somos, quando muito, colaboradores (cf. 1Cor 3,9). Somente Ele pode dizer “sem Mim, nada podeis fazer” (Jo 15,5). 

Diante do bem praticado, ninguém pode se vangloriar. É preciso levantar as mãos e agradecer Àquele que é a Fonte de todo o bem: “Não a nós, Senhor, não a nós; mas ao vosso Nome seja a glória!”. Deus é quem nos capacita, inspira e sustenta na prática do bem e, se ainda não praticamos mais coisas boas, é porque não correspondemos a todas as graças que Ele nos dá. Se o fizéssemos, seríamos já santos. 

Particularmente no que se refere à fé, é preciso reconhecer humildemente que, como bons “servos”, nada mais temos a fazer do que preservar com fidelidade aquilo que recebemos do Senhor: “Guarda o precioso depósito, com a ajuda do Espírito Santo que habita em nós” (2Tm 1,14). Com “fortaleza, amor e sobriedade” (2Tm 1,7), aprendemos a praticar a fé católica nos diferentes lugares e momentos da vida. Porém, isso não significa “inventar” uma nova religião, “refundar” a Igreja a cada geração ou viver a “minha fé” subjetiva... Nosso trabalho é apenas receber e transmitir o tesouro deixado pelos Apóstolos: “Usa um compêndio das palavras sadias que de mim ouviste em matéria de fé e de amor em Cristo Jesus” (2Tm 1,13). 

A ideia de querer ser sempre “original” é por si só pueril, e chega a ser ridícula e mundana quando invade os corações dos homens de Deus. Afinal, somos “servos inúteis”, não protagonistas de revoluções ou gênios com a missão de reinventar a roda. A Escritura nos pede apenas que imitemos Jesus e os Santos que nos precederam: “Lembrai-vos de vos- sos dirigentes, que vos pregaram a Palavra de Deus; considerando o fim de sua vida, imitai-lhes a fé. Jesus Cristo é o mesmo, ontem hoje e sempre” (Hb 13,7-8). 

Às vezes, ouve-se que a Igreja precisaria sobretudo “mudar”! “Mudar” a disciplina, a organização, a moral, “mudar”, “mudar”... Teria que ser mais “original”, “dar protagonismo” a este ou àquele grupo (e não a Cristo!) etc. Nessas vozes não há sabedoria. Não ecoa o Espírito de Jesus. Ignoram que somos “ser- vos dos mistérios de Deus”. E o que se requer dos servos não é que sejam “originais” ou que “protagonizem” algo, mas, sim, “que sejam fiéis” (1Cor 4,2). 

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