A reabilitação cultural, simbólica e literária do Padre José de Anchieta constituiu a principal obra dos jesuítas no século XX. E, juntamente com sua canonização, a reconciliação histórica da Companhia de Jesus com o Brasil. É sua biografia que nos permite compreender que seu labor apostólico não se reduziu a ser mero catequista. Enquanto a Igreja propunha um esquema repetitivo de perguntas e respostas, os jesuítas foram capazes de nomear seu itinerário doutrinal com o substantivo que melhor lhe define:“Diálogo da Fé”.

Ao estudar a arte alegórica anchietana é necessário considerar seus objetivos catequéticos, os elementos utilizados e seus destinatários diretos e indiretos. A complexidade que algumas personagens vão adquirindo confere grande autonomia a essas representações, não permitindo que sejam instrumentos totalmente sob o controle do missionário ou reduzidos a uma estratégia programada.
Maria, a tradição tupi e os Autos de Anchieta. Como estabelecido pelo programa dramático neolatino, no teatro anchietano não há personagens femininos, mas sim performatividade feminina aplicada a sua dramaturgia: a Eva, as velhas, Santa Isabel, Santa Úrsula, Maria Tupansy etc. Muitas das suas composições poéticas seguiam o estilo de canções populares ou melodias indígenas, como paródias convertidas ao divino. Essas canções reforçavam o caráter festivo e lúdico das apresentações.
No Auto Pregação Universal (1561), encontramos duas alegorias da Virgem Maria. No primeiro ato, em paralelo à antiga Eva, uma mulher chora o roubo do casaco do moleiro (Adão) e, no último ato, uma mulher costura uma nova roupa (Maria, Nova Eva) para o neto do moleiro (Jesus Cristo, Novo Adão). Essas figuras não possuem fala, mas são apenas citadas na fala de oradores ou no coro. No Auto de Guarapari(1585), a Virgem Maria passa a ser o o tema do espetáculo, ao inaugurar a igreja da missão. Novamente, a personagem desfila silenciosa, como objeto do discurso e dos diálogos e como tema do coro festivo cantado pelas crianças.
Contudo, no Auto Quando levaram uma imagem a Reritiba (1590), constatamos um acréscimo. A estrutura cênica adotada por Anchieta é a Saudação Lacrimosa. Nesse rito, as mulheres do principal da aldeia exercem função particular, pois recebem as visitas entre lágrimas, quando lamentam as dificuldades que elas enfrentaram até chegar ali, e, no final, oferecem um alimento para fortalecer a visita. É esse esquema que confere a essa figura feminina uma performance particular. Mesmo que a imagem desfile na aldeia silenciada, há muitos elementos na dramática anchietana que fortalecem seu protagonismo cênico.
No Auto da Assunção, nome popular do espetáculo Quando levaram uma imagem à aldeia de Reritiba, algo incomum acontece, superando as produções anteriores. A única autoridade do espetáculo é Maria Tupansy. Nos cinco atos que compõem o espetáculo, é a aldeia que reage à presença da Virgem Maria, cantando suas glórias, celebrando sua força, pedindo sua proteção e prometendo-lhe conversão.
Parece ousado conceber uma personagem principal sem fala ou ação direta em cena, mas, no contexto indígena, o papel ordenador do feminino pode ser compreendido como um protagonismo moral e estruturador da aldeia. O primeiro grupo que entrou em choque com o programa jesuíta nas aldeias foi o partido das velhas, isto é, as mulheres dos principais, que detinham o saber da arte do cauim, dos banquetes antropofágicos, a uxorilocalidade (costume segundo o qual, após o matrimônio, os cônjuges vão morar na casa da mulher, não do marido). Em muitos casos, os missionários mencionam a necessidade de buscar uma boa relação com as “velhas” pois, onde isso não era possível, nenhum indígena ia à catequese. Pelo contrário, quando se contava com sua benevolência, as velhas se encarregavam de punir e disciplinar aqueles que chegassem atrasados. Na correspondência do Padre José de Anchieta, elas aparecem como benfeitoras e promotoras da catequese. De fato, a criação que a Companhia de Jesus propunha aos indígenas nas aldeias precisava contar com o papel ordenador das mulheres.

Maria Tupansy: a Virgem no centro da catequese tupi. No Auto da Assunção, fica evidente que a aldeia atribuía à imagem de Maria o papel de mulher do principal (velha), pois Cristo era o soberano da aldeia. Quase cem anos antes da ocupação espanhola da ilha de Tenerife, terra natal de Anchieta, a evangelização dos nativos guanches foi inaugurada pelo aparecimento de uma imagem da Virgem Maria. A descrição do festim que José de Anchieta prepara no Auto da Assunção remete ao relato da descoberta da Virgem de Candelária de Tenerife. Uma Virgem morena, possivelmente a imagem que serviu de base para a apresentação de Maria na aldeia de Reritiba.
No rito da Saudação lagrimosa, quando uma visita chega à aldeia, ela é conduzida à casa do principal. Um cortejo de mulheres (velhas) recebe a visita em um grande pranto, lamentando as dificuldades que a visita passou até chegar naquele local. Depois, conta-se a história do lugar, pergunta-se o que a visita veio fazer e os principais pedem algo ao visitante em favor da aldeia. Por fim, as velhas voltam, trazendo uma comida para fortalecer a visita.
Neste Auto, a imagem é recepcionada no porto, com um coro de crianças tupi. Enquanto a imagem é descida do barco, canta um coro o dia feliz da Assunção de Maria. Conforme o rito, era a aldeia quem receberia a imagem com lágrimas, mas, segundo o coro, é a Virgem que chora. Esse particular produz uma inversão cênica que coloca a Virgem no papel de Velha. Portanto, nesta construção, a aldeia é da Senhora e os indígenas reunidos ao festim os seus hóspedes. Todos os outros atos correspondem à aldeia que diz o que faz a Virgem: expulsa os demônios, símbolo das doenças e vícios; recebe a dança dos indígenas já catequizados e dos chegados naquele dia, bem como o diálogo e pedido dos principais em favor da aldeia. Por fim, se apresenta o nome de Maria Tupansy, Mãe de Deus, e a oferta da amizade do seu Filho.
A beleza do espetáculo não deixa dúvida do singular ofício que José de Anchieta confere à Virgem Maria, a partir do papel ordenador do feminino nas aldeias tupis. Diferente do Auto de Guarapari, os padres não são citados como autoridades no espetáculo, fazendo de Maria Tupansy a única figura responsável pela catequese. Essa que a aldeia toda aclama em festa, como “a mais linda do povo tupi”, revelando sua cor, pertencimento aos povos originários e identificação com o Brasil.
Um presente para todos nós. A figura de Maria Tupansy não se deixa reduzir como recurso da catequese. Quando o auto é concluído, a própria imagem da Virgem e seu significado moral, simbólico e espiritual não está mais sob o controle do missionário. Das peças teatrais do Padre José de Anchieta, essa é a única que sabemos ser repetida anualmente, tanto que recebeu uma adaptação ampliando o número dos caciques oradores de três para oito líderes (1595). Aqui, Anchieta nos dá é seu maior presente ao Brasil, sua obra-prima em mariologia, a Maria Tupansy.
Que possamos acolher esse presente, como faziam os indígenas do Brasil, com lágrimas de alegria. E, para não ser ingratos, como escreveu Anchieta, “gravando o nome dela na mente”, possamos “invocá-lo continuamente”. Que “Maria Tupansy, que derrota o anhangá (Diabo), nosso inimigo e seu terror, companheira de lutas, nos ensine a virtude em nossa rota”. “Amemos todos Santa Maria, guardando sua lei nos corações, que ela nos desvie do mal e tentações, esmagando anhangá em nossa vida”.


