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Ousar quebrar o vaso de alabastro

Ousar quebrar o vaso de alabastro - Jornal O São Paulo
 Arte: Sergio Ricciuto Conte

 Era a casa de um tal Simão, e uma mulher – que a tradição chama de pecadora – entra silenciosa. Traz consigo um pequeno vaso de alabastro com perfume precioso. Sem pedir licença, ela o quebra e derrama todo o óleo sobre a cabeça e os pés de Jesus. A casa se enche de fragrância. Os convidados se escandalizam. Alguns reclamam o desperdício. Mas Jesus a defende: “Ela fez uma boa obra para comigo” (Mc 14,6).

Para mim, ter um coração desarmado e desarmante é fazer essa “boa obra para Jesus”: reconhecer-me apaixonado a ponto de quebrar meu próprio jarro de perfume, minha essência. Nada guardar ou medir pelo “útil” ou “produtivo”. Um coração desarmado é aquele de que já não precisa de defesas, de justificativas, de máscaras. Ele se expõe, se derrama, arrisca e tem os olhos arregalados! E, ao se derramar, desarma o outro – porque o perfume do amor gratuito desmonta rigidez, juízo ou muro.

Como, porém, conseguir este coração? Não por esforço moral ou técnica psicológica. É no chão da rotina que o alabastro pode ser quebrado. Consegue-se amando as pequenas e concretas pessoas que a vida coloca ao nosso lado. E, no meu caso, acredito que é um exercício ou convite diário.

Desde que uma tia idosa (93 anos) veio morar conosco, assumi a rotina de fazer para ela o café da manhã. Nem sempre faço com atenção, carinho ou amor, por vezes sinto que o vaso tem a parede dura como granito. Outras, no entanto, violento minha indiferença ou indisposição e ofereço o meu melhor: pequena fissura, eflúvios do perfume sentidos no ar. Reconheço que há pequenas rachaduras quando olho para minha esposa e filhos e aceito seus limites – quando não exijo deles o desempenho que planejo ou gostaria, acolho suas lentidões e teimosias.

Sou psicólogo da educação e professor universitário, e cada aluno que encontro traz uma história única, às vezes de cansaço, desânimo ou medo. Amar o destino deles – como são, não como gostaria que fossem – é suportar suas dificuldades e bloqueios – não devolver julgamento, mas devolver presença, vendo que, por trás de cada limite, há uma pessoa sedenta de ser reconhecida.

Na dimensão comunitária, rezo e agradeço todos os dias por minha comunidade, surpreso ao ver tantas “mulheres” ousando quebrar seus vasos e perfumando meus próprios limites. O desconsertar ao ver que um coração apaixonado contagia. Estudo e medito com os meus amigos, porque sei que o coração desarmado não se constrói sozinho, precisa do exercício comunitário do perdão, da escuta e da partilha.

Por fim, a resposta é simples, mas contraintuitiva: o coração desarmado e desarmante se conquista na humilhação voluntária de servir. Não há atalho, requer quebrar o vaso e deixar que o perfume – que é o amor de Cristo em mim – se espalhe, mesmo que cheire a despropósito aos olhos do mundo. Porque, para o amor, nunca é desperdício, é eternidade.

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