A temática cristã nas obras dos artistas da Semana de 22

Centenário do evento que marcou o movimento modernista é comemorado neste mês

A temática cristã nas obras dos artistas da Semana de 22
Ressurreição de Lázaro /Anita Malfatti – Museu de Arte Sacra

Há 100 anos, acontecia em São Paulo a Semana de Arte Moderna, manifestação artístico-cultural que teve como palco o Teatro Municipal. Realizada entre os dias 13 e 17 de fevereiro, a Semana de 22, como também é conhecida, foi um divisor de águas na cultura brasileira.

Organizado por um grupo de intelectuais e artistas de diversas áreas – pintores, escultores, arquitetos, músicos e escritores –, o movimento que se espalhou pelo Brasil defendia um novo ponto de vista estético para todos os campos das Artes. Almejava, ainda, o compromisso com a independência cultural do País e a valorização da identidade da Arte brasileira.

Inspirados nas vanguardas europeias, os artistas envolvidos no movimento se uniram para expor suas produções ao grande público. Foram apresentações de dança, música, recital de poesias, palestras e exposição com cerca de 100 obras, pinturas e esculturas.

A estudiosa em artes visuais Karin Philippov, pós-doutoranda na Universidade Estadual Paulista (Unesp), em entrevista ao jornal O SÃO PAULO, contou que no mesmo período da Semana de 22 acontecia na cidade uma série de eventos relacionados à arte nos espaços das igrejas. “Temos acervos eclesiásticos belíssimos em São Paulo de autoria desses artistas modernos. Assim como ocorreu na Europa, quando artistas da época inseriram obras modernas dentro de ambientes que já existiam.”

Na primeira fase do Modernismo brasileiro, que corresponde de 1922 a 1930, os principais nomes são Anita Malfatti, Candido Portinari, Di Cavalcanti, Mário de Andrade, Heitor Villa-Lobos, Menotti Del Picchia, Victor Brecheret, Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral.

Destacamos, a seguir, a arte religiosa de alguns desses modernistas de 22 e de sucessores do movimento.

Anita Malfatti (1889-1964)

Pintora e desenhista paulista, Anita Catarina Malfatti é uma das mais relevantes artistas brasileiras, fundamental na introdução do modernismo no País. Para alguns estudiosos, ela é a “mãe do Modernismo brasileiro”.

A pós-doutoranda Karin avalia como “belíssima” a produção de arte religiosa de Anita. “Em 2009, o Museu de Arte Sacra de São Paulo (MAS/SP) organizou uma exposição sobre a produção religiosa de Anita Malfatti, que são obras dificílimas de serem vistas porque estão, em ampla maioria, em coleções particulares.”

“A Ressurreição de Lázaro”, de 1928, é uma das obras sacras de grande destaque da pintora. A tela, que pertence ao MAS, tem como referência um dos milagres de Jesus, relatado no Evangelho segundo João 11,1-46.

Com mais de dois metros de altura, a obra foi realizada para o Pensionato Artístico do Estado de São Paulo, que possibilitou os estudos da artista plástica na Europa entre 1923 e 1928.

“A pintura tem cunho autobiográfico. É a própria Anita ressurgindo de um momento difícil [pessoal e artístico] que ela estava passando na Europa”, descreve Karin.

Victor Brecheret (1894-1955)

Escultor ítalo-brasileiro, Victor Brecheret, nascido Vittorio Brecheret, chegou a São Paulo aos 6 anos de idade. É um dos precursores do Modernismo na escultura brasileira. Muitas de suas obras estão expostas em locais públicos, principalmente, na capital paulista, como o “Monumento às Bandeiras” localizado no Parque do Ibirapuera.

No segmento sacro, destaca-se a “Via Crucis”, de 1946. A obra, que conta a história da crucificação de Cristo, é um conjunto de 14 estações em terracota, esculpida para a capela do Hospital das Clínicas.

A temática cristã nas obras dos artistas da Semana de 22
Via Cricis /Victor BrecheretMuseu de Arte Sacra

“Na década de 1980, a Secretaria Estadual da Cultura fez um acordo com o Hospital das Clínicas e com a família do artista para fundir uma réplica do conjunto e, assim, a original seguir para o Museu de Arte Sacra de São Paulo”, conta a museóloga da instituição, Beatriz Cruz.

“Por alguma razão, que não sabemos qual é, a cópia foi colocada na capela do Hospital, onde está até hoje, e o original foi para a Pinacoteca do Estado, onde ficou cerca de 20 anos”, relata Beatriz. “Quando venceu o comodato, não houve mais interesse da Pinacoteca em permanecer com essas obras, e elas vieram para o MAS, no fim de 2020.”

Candido Portinari (1903-1962)

Nascido em Brodowski, interior de São Paulo, o pintor Candido Portinari é um dos principais nomes do Modernismo brasileiro. Ele se tornou conhecido por mudar de técnica ao longo dos anos, mas manter a temática de retratar o homem brasileiro e as questões sociais e históricas do País.

Mesmo sendo ateu, Portinari produziu cenas religiosas em larga escala. “Portinari é tributário da geração e do pensamento de época [da Semana de 22]. Dizem que ele é o artista ateu mais católico que existe”, comenta Karin.

O maior acervo sacro de Portinari, entre pinturas e afrescos, está exposto no Santuário Bom Jesus da Cana Verde, no centro da cidade de Batatais (SP), onde, inclusive, ele foi batizado. São painéis do início da década de 1950 que retratam a via-sacra e cenas da vida de Jesus. O destaque é o altar-mor que Portinari pintou com o Senhor Bom Jesus da Cana Verde.

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Capela da Nona /Candido PortinariMuseu de Arte Sacra

Em 1941, Portinari fez pinturas murais em têmpera nas paredes da “Capela da Nonna”, que ele mandou construir para sua avó, que estava doente, poder rezar.

“A capelinha foi construída no terreno da casa deles, em Brodowski, e decorada por Portinari com santos de devoção da avó, usando como modelos os próprios familiares e amigos”, relata Karin. 

São também destaques as obras de Portinari encontradas na região de Pampulha, em Belo Horizonte (MG), como a “Via Sacra”, formada por 14 painéis, na Igreja de São Francisco de Assis, juntamente com um painel de São Francisco, em azulejaria pintada. A Igreja da Pampulha, como é conhecida, foi projetada por Oscar Niemeyer em 1943 e, na época, gerou polêmica devido ao modernismo empregado. Os jardins são de autoria do paisagista Burle Marx.

“No painel, conseguimos ver ainda mais o traço de Portinari, a característica da pintura dele, que é o homem tão parecido com a gente, São Francisco humanizado”, comenta a historiadora e professora, pós-doutoranda em História da Arte pela Unesp, Danielle Pereira.   

Mário de Andrade (1893-1945)

O escritor e poeta paulista Mário de Andrade, ao lado de outros artistas, foi um dos idealizadores da Semana de Arte Moderna. O livro “Paulicéia Desvairada”, com a coleção de poemas, é um marco de 1922.

A historiadora Danielle pontua que Mário de Andrade e os amigos modernistas tiveram grande importância para a preservação da arte sacra brasileira ao trabalhar junto ao processo de formação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), antigo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN).

“Eles viajaram para cidades históricas mineiras e, percebendo o patrimônio que tínhamos, começaram esse processo de preservação do patrimônio, olhando para a identidade do Brasil”, narra Danielle. “Em São Paulo, Mário olha também para nossas igrejas coloniais e se empenha para que elas se tornassem patrimônio.”

O modernista também se dedicou aos estudos sobre a vida e obra do Frei Jesuíno de Monte Carmelo, considerado o mais importante representante da arte colonial brasileira. No início da década de 1940, Mário de Andrade indicou a existência de uma pintura invisível de Monte Carmelo na Igreja do Carmo (Igreja da Venerável Ordem Terceira), situada no centro de São Paulo.

“Ele percebeu que a pintura do forro da igreja não fazia parte da pictórica de Jesuíno. Como resultado, a igreja foi tombada com uma pintura invisível, tornando possível trazer por meio do restauro a pintura do frei”, explica a historiadora.

Alfredo Volpi (1896-1988)

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Capela Cristo Operario /Alfredo Volpi

O pintor italiano Alfredo Volpi chegou a São Paulo com apenas 1 ano de idade. É considerado pela crítica como um dos artistas mais importantes da segunda fase do Modernismo no Brasil, que se estendeu de 1930 a 1945. Integrou o Grupo de Santa Helena, formado por diferentes artistas, na maioria italianos, que se reuniam para pintar no Palacete Santa Helena, na Praça da Sé, centro da capital paulista.

Volpi é famoso pela série de bandeirinhas de festa junina, mas também se destaca por suas paisagens, temas populares e religiosos.  

Os grandes murais pintados, no início da década de 1950, na Capela Cristo Operário, no bairro Alto do Ipiranga, em São Paulo, é um dos grupos mais significativos de sua obra na temática cristã.

“A pintura mural do Cristo Operário, de braços abertos, fica no altar-mor da igreja”, sinaliza a historiadora Danielle. “Do lado direito, está a representação da Sagrada Família; e, do lado esquerdo, Santo Antônio pregando aos peixes. É a coisa mais encantadora do mundo esse conjunto.”

Aldo Bonadei (1906-1974)

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Santo Onofre /Aldo Bonadei

Pintor e designer paulista, Aldo Bonadei, autodidata nas Artes, foi influenciado pela Semana de 22 e participou do Grupo Santa Helena.

Na temática sacra, se sobressai a pintura de “Santo Onofre”, de 1933. A pesquisadora Karin conta que após a morte do artista, sua irmã, Inês Bonadei, doou, em 1975, o quadro ao Museu de Arte Sacra de São Paulo.  

Fulvio Pennacchi (1905-1992)

Pintor e ceramista italiano, Fulvio Pennacchi chegou ao Brasil em 1929, após estudar pintura mural nas cidades de Florença, Pisa e Lucca, na Itália. Fixou residência em São Paulo e foi do Grupo Santa Helena.

Na década de 1940, Pennacchi assinou todo o conjunto de afrescos da Paróquia Nossa Senhora da Paz, no bairro da Liberdade, em São Paulo e os vitrais da Igreja da Pampulha (MG). No MAS, há uma cena de natividade em cerâmica vitrificada de sua autoria.

Samson Flexor (1907-1971)

O pintor romeno Samson Flexor desembarcou no Brasil no fim da década de 1940. Reconhecido como pioneiro da tendência abstrata no Brasil, ele tem forte produção na temática religiosa.

Ele é autor da iconografia da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no Jardim Paulistano, em São Paulo, de 1958.

Cláudio Pastro (1948-2016)

Nascido na cidade de São Paulo, Cláudio Pastro é o artista sacro brasileiro contemporâneo de maior referência e um dos mais respeitados no mundo.

Dedicado à arte sacra desde 1975, Cristo Pantocrator é o principal tema e marca do seu trabalho. Pastro utilizou diferentes técnicas – pinturas, vitrais, azulejos, metais e esculturas – para produzir mais de 350 obras no Brasil e no exterior, como na Argentina, Bélgica, Alemanha, Espanha, entre outros países.

“Pastro é um artista sacro que se influenciou por diferentes artistas da Semana de 22. A maior referência dele é Victor Brecheret”, diz a professora Wilma Steagall De Tommaso, doutora em Ciências da Religião.

Wilma, que também atua como coordenadora do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia (Labô) da PUC-SP, afirma que a obra de Pastro reflete a renovação religiosa e litúrgica do Concílio Vaticano II.

“O Concílio Vaticano II tem duas propostas fundantes. O Ad fonts, que é ‘vamos ver como faziam e viviam os primeiros cristãos’ e ‘vamos fazer um aggiornamento’ (atualização)”, explica Wilma, acrescentando que “a Igreja nunca é nostálgica, ela vai pra frente”.

A professora sinaliza que Pastro foi pioneiro no Brasil desse movimento em que a arte sacra é produzida em concordância ao Concílio. “Ele recriou o Cristo glorioso com uma nova linguagem no contexto latino-americano. Seus Pantocrators, por seus traços simples, sutis e elegantes, são facilmente reconhecidos”, relata Wilma, em artigo à revista Ciberteologia (edição 54).

Na trajetória artística, o trabalho de maior destaque é a obra, iniciada na década de 1990, no Santuário Nacional de Aparecida, com a criação de painéis e vitrais e a concepção do espaço litúrgico.

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