Cardeal Scherer: ‘Se perdermos ou dermos pouca importância à paróquia, teremos uma Igreja abstrata’

Em entrevista, Arcebispo Metropolitano falou das motivações que levaram a redigir, em 2011, a carta pastoral “Paróquia, torna-te que tu és”; e ressalta a permanente necessidade de conversão missionária da comunidade paroquial

Cardeal Scherer, na apresentação da carta pastoral, em fevereiro de 2011 (foto: Luciney Martins/O SÃO PAULO

Passados dez anos da publicação da 1a carta pastoral de sua autoria, Paróquia, torna-te o que tu és, o Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo Metropolitano de São Paulo, afirma, em entrevista ao O SÃO PAULO, que passos têm sido dados para a revitalização missionária das paróquias na Arquidiocese.

No entanto, ele aponta que este objetivo, ressaltado no texto, não será plenamente alcançado em curto prazo. “As mudanças na Igreja são lentas e, geralmente, são percebidas somente num espaço maior de tempo. Certamente, alguma coisa já está se movendo, na medida em que vamos tomando consciência de que não podemos nos preocupar apenas em ‘manter’ a Igreja, fazendo uma pastoral de conservação”.

O Arcebispo Metropolitano comenta, ainda, sobre as motivações que teve para redigir a carta, exorta que se suscitem as muitas expressões da vida comunitária nas paróquias, fala da necessidade de haver mudanças na cultura pastoral e ressalta que é preciso formar as pessoas para que participem de maneira responsável da missão da Igreja. A seguir, leia a íntegra da entrevista.

O SÃO PAULO – Quais foram as motivações do senhor para redigir a carta pastoral “Paróquia, torna-te o que tu és”?

Cardeal Odilo Pedro Scherer – A paróquia é a estrutura institucional mais concreta da Igreja, formada de pessoas concretas e organizações perceptíveis e inseridas nas realidades locais e culturalmente definidas. A paróquia é a face mais visível e próxima da grande Igreja. Por isso, penso que seja importante valorizar a paróquia e redescobrir seus valores e possibilidades nos tempos atuais, com mudanças culturais e sociais profundas em relação ao passado. Ao escrever a carta pastoral, pensei na valorização da paróquia diante dos desafios atuais da evangelização e da pastoral. Se perdermos ou dermos pouca importância à paróquia, teremos uma Igreja abstrata, que pode se tornar apenas um conjunto de ideias e doutrinas, deixando de ser uma comunidade de pessoas concretas e de discípulos missionários de Jesus Cristo inseridos na história, vivendo a fé, a esperança e a caridade.

O centro das reflexões apresentadas na carta é a revitalização missionária da paróquia. Passados dez anos da publicação, o senhor percebe avanços em direção a esta revitalização nas paróquias da Arquidiocese?

A revitalização missionária é um aspecto importante da carta, que decorre da redescoberta da identidade da paróquia, como expressão viva e concreta da Igreja e como realidade onde se faz a experiência da vida eclesial de maneira próxima e concreta. A dimensão missionária é parte da identidade da Igreja. Não creio que esse objetivo já tenha sido alcançado em tão pouco tempo. As mudanças na Igreja são lentas e, geralmente, são percebidas somente num espaço maior de tempo. Certamente, alguma coisa já está se movendo, na medida em que vamos tomando consciência de que não podemos nos preocupar apenas em “manter” a Igreja, fazendo uma pastoral de conservação. É preciso perseverar por mais tempo no esforço de “conversão pastoral e missionária”, para que as paróquias se tornem verdadeiras comunidades missionárias.

Na carta, o senhor apresenta a paróquia como “comunidade de comunidades”. Percebê-la sob essa perspectiva traz quais implicações para a ação pastoral e missionária da paróquia?

Nossas paróquias têm, geralmente, uma população muito numerosa, e isso dificulta uma verdadeira vida comunitária. É preciso suscitar muitas expressões de vida comunitária dentro das paróquias, nas quais as pessoas possam expressar melhor a vida fraterna, sua pertença à Igreja e sua participação ativa na vida e na missão dela. Nas paróquias podem existir muitas comunidades menores, como as associações de fiéis, os movimentos, as novas comunidades, os diversos grupos de serviço e voluntariado, as pastorais e as comunidades de base. Todas essas expressões de vida comunitária se reúnem, finalmente, em torno da Palavra de Deus e da celebração da Eucaristia. As muitas expressões comunitárias da Igreja manifestam a riqueza e o dinamismo suscitados pelo Evangelho. As próprias famílias cristãs precisam ser revalorizadas como comunidades de vida cristã, nas quais se vive o que é próprio da família, mas como expressão de vida eclesial e participação na missão da Igreja.

Há preocupações apresentadas na carta que ainda permanecem atuais em relação à vida e missão da paróquia?

No meu entender, todas as preocupações em relação à paróquia manifestadas na Carta Pastoral são atuais e permanecem como desafios a serem enfrentados com coragem, lucidez e perseverança.

Uma paróquia que seja comunidade missionária e formadora de discípulos, como descrito na carta pastoral, tem quais características?

Por sua natureza e missão, a paróquia deve ser formadora de cristãos conscientes do dom recebido no Batismo, maduros na fé, preparados para produzir os frutos da vida cristã, capazes de se envolver na vida e na missão da Igreja. Nossas paróquias, para serem mais missionárias, precisam formar as pessoas para ir além do “consumo” dos bens oferecidos pela Igreja e participar de maneira corresponsável da missão da Igreja.

No texto, o senhor afirma que, antes de renovar estruturas, é preciso que cada paróquia pense em renovar mentalidades e posturas. Como fazê-lo para que se desenvolva uma nova “cultura pastoral”, como é mencionado na carta?

Na carta pastoral, orienta-se que é necessário trabalhar para desenvolver nova mentalidade e cultura nas pessoas e comunidades. Isso requer passar de uma pastoral de conservação para uma pastoral missionária, com muita motivação, metodologia adequada e perseverança. As mudanças de estruturas até poderiam ser feitas por decreto, mas não produziriam efeito algum, se não houver mudanças na cultura pastoral. Mudar as cabeças e corações requer compreensão, motivação, vontade e adesão consciente. E isso só pode ser feito passo a passo, contando com o esforço humano e com a graça de Deus. É o Espírito Santo que, em última análise, consegue converter os corações e dar vida nova à Igreja.

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