Há quase 40 anos, a Paróquia Senhor Bom Jesus dos Passos oferece jantar a pessoas em situação de rua

Localizada no cruzamento da Avenida Rebouças com a Rua Henrique Schaumann, em Pinheiros, comunidade paroquial tem assegurado a alimentação dos mais afetados economicamente pela pandemia e também dos entregadores de aplicativo

Ira Romão

Toda sexta-feira e sábado, por volta das 18h30, o “Rango do Bom Jesus” é servido na Paróquia Senhor Bom Jesus dos Passos, na Praça Portugal, em Pinheiros.

O projeto conta com doações e com o comprometimento de voluntários que preparam e entregam uma marmita e um kit contendo suco, sobremesa e pão.

Até o início de 2020, eram servidas em média 130 refeições por noite às pessoas em situação de rua. Com a pandemia, esse número tem aumentado cada vez mais. Hoje, são oferecidas cerca de 300 marmitas por noite também aos que moram em ocupações localizadas nas imediações e entregadores de aplicativos.

Idealizado por leigos e pelo Padre Vitor Bertoli, Pároco da comunidade paroquial desde sua instalação, o “Rango” teve início em 1983. A ideia inicial era alimentar garotos que trabalhavam como flanelinhas e engraxates no entorno da comunidade. Naquela época, havia muitos restaurantes e bares que movimentavam a região no período noturno.

“Esses meninos geralmente vinham na sexta-feira e só retornavam para suas casas no domingo. Eles ficavam nas ruas para trabalhar à noite e permaneciam muito tempo sem comer”, conta Maria Aparecida Melges, uma das coordenadoras do projeto. “Um café passou a ser servido para eles, durante as noites, na Paróquia. Já no início da ação, porém, as pessoas em situação de rua começaram a vir também. Ficou claro que apenas o lanche não era suficiente e, assim, refeições passaram a ser servidas.”

Entre a fé e a solidariedade

Ira Romão

Com o passar dos anos, os flanelinhas e engraxates foram desaparecendo, mas a ação caritativa continuou atendendo adultos em situação mais vulnerável.

“Antes da pandemia, eles tinham o costume de chegar por volta das 15h30. A equipe de voluntários servia um café da tarde, em seguida havia uma catequese adulta e, depois da missa das 17h30, servíamos o jantar no salão paroquial”, narra Maria.

Com a pandemia, as refeições passaram a ser distribuídas em descartáveis no portão da igreja. Os encontros de catequese também foram suspensos e a missa passou a ser acompanhada na praça por meio de caixas de som, enquanto o Pároco, Padre Vitor, aos 93 anos, reza sozinho dentro da Igreja.

Ira Romão

“Antes de servirmos a refeição, eles escutam o Terço e depois o Padre Vitor sai para fazer uma oração com todos”, explica a coordenadora. “Muitos comem aqui mesmo na praça.”

Para Ana Maria de Oliveira, outra coordenadora da ação, muitas pessoas que hoje têm sido beneficiadas pelo “Rango”, como os entregadores de aplicativos, chegaram ao projeto pelos impactos da pandemia e pelo fato de a distribuição estar sendo realizada na entrada da Paróquia, o que “chama a atenção” de quem passa.

Ela também pontua que muitas pessoas têm se sensibilizado com a causa e contribuído para mantê-la. “Ao longo da pandemia, tivemos o privilégio de não faltar doações”, enfatiza Ana.

Padre Vitor também frisa que, com o passar dos anos, cada vez mais “houve a necessidade” da ação, mas também, sempre “houve doação”, lembrando que o projeto vive de colaboração e que nunca havia tido a necessidade de fazer tanta distribuição de pratos como tem acontecido do ano passado para cá.

“Também nunca tínhamos recebido tantas doações como agora, graças a Deus”, afirma Padre Vitor, acrescentando que diante da situação pandêmica, em que “os trabalhos religiosos [da comunidade] encolheram e houve o aumento desse trabalho caritativo”, o “Rango do Bom Jesus” está em evidência.

“Hoje, aqui, significa a atividade mais importante da Paróquia, social e religiosa. Agora, religiosa no sentido de que eles sabem que é uma ação da Igreja. As doações vêm para a igreja e eles têm consciência de que é um trabalho de Igreja”, salienta Padre Vitor.

Beneficiados pelo ‘Rango’

Ira Romão

O entregador de aplicativo Nathan Estéfano, 26, há um ano vai até a igreja retirar uma marmita. Ele descobriu a iniciativa por meio de outros trabalhadores. “Nos ajudamos bastante, com informações e, sempre quando temos alguma comida, dividimos, quando estamos juntos”, diz.

Para Estéfano, a ação da Senhor Bom Jesus dos Passos o ajuda a poupar dinheiro a cada mês. “Gastar com comida, ainda mais nessas regiões em que os valores são bem diferentes dos bairros, seria complicado.”

Ele também destaca a organização e atenção dos voluntários. “Todos são bons, nos tratam com educação e têm os cuidados [com a pandemia]. Uma mulher passa na fila com álcool gel e, ainda, entrega máscara para quem não tem”, discorre.

Ira Romão

Outro entregador beneficiado pela ação é Danilo de Assis, 24. Ele mora no Jardim Ângela, na zona Sul, e há cinco meses entrega comida na região de Pinheiros. Descobriu o “Rango” logo no começo do trabalho quando passou em frente à igreja. “Mesmo trazendo marmita [de casa], às vezes, você fica com fome. Pedalar gasta muita energia. Isso aqui salva muito”, enfatiza o entregador.

O jovem também evidencia o trabalho dos voluntários. “Ajudei a descer umas cestas [no salão] e os vi preparando [as refeições] com o maior foco e determinação. O legal é que fazem isso para quem eles nem conhecem.”

Há seis meses, Ilda da Luz, 56, está desempregada. Moradora da região, ela participa das missas e tem enfrentado a “fila do jantar”.

“Sou do Piauí, cresci na roça. Sempre rezava com minha família com a mesa posta”, recorda Ilda. “Venho aqui porque além da comida ser boa, quentinha, há muito carinho. A ‘terapia’ aqui é boa, somos acolhidos por todos.”

Celso Aparecido Macedo, 53, está em situação de rua há seis anos e há quatro frequenta a Paróquia. Ele ressalta que em meio à pandemia a Igreja Católica não os abandonou. “É muito gostoso, principalmente a oração, que nos fortalece. Nos sentimos felizes porque estamos na casa de Deus.”

Daniel Marcos da Silva, 55, há um mês vive em um albergue. Ele faz questão de ir à Paróquia e enaltece a ação do Padre Vitor. “Ele não está matando a fome dessas pessoas com comida, mas, sim, matando a fome de amor, de carência e de uma necessidade humana. Esse é o detalhe. Não venho aqui por acaso”, assegura.

História

Ira Romão

A Paróquia Senhor do Bom Jesus dos Passos foi construída na primeira metade do século XX.  Era uma capela da Irmandade do Bom Jesus dos Passos. Em 8 de setembro de 1985, foi constituída como Paróquia desmembrada dos territórios das Paróquias São Paulo da Cruz (Calvário), Nossa Senhora do Monte Serrate, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e Nossa Senhora do Brasil.

O Pároco da comunidade desde sua fundação é o Padre Vitor Bertoli, que antes era Capelão da Irmandade. No ano passado, Padre Vitor recebeu a Medalha São Paulo Apóstolo, concedida pela Arquidiocese de São Paulo, na categoria “ação caritativa e promoção humana”.

CONHEÇA A INICIATIVA

Telefone: (11) 3085-9740

Notícias relacionadas

Comentários

  1. Padre Victor e sua equipe maravilhosa merecem todo nosso reconhecimento e agradecimento. Ainda Não participo do trabalho voluntário, mas frequento a Igreja sempre que possível. Como diz um dos assistidos “ não só de alimento material vive o homem, mas também do alimento espiritual”. Parabéns a toda a equipe e as pessoas que doam para que este trabalho continuem.

  2. A Paroquia Senhor Bom Jesus dos Passos é uma casa para todos nós. O trabalho feito pela comunidade de voluntários a tantos anos sob a coordenação do Pe Vitor, da Maria Melges e Ana Maria é maravilhoso e se distingue pela imensa humanidade que existe nesta constância. É muito importante para a população saber que pode contar com esse espaço de conforto e alimentação do corpo e da alma. Convido a todos que queiram fazer parte dessa história e te r essa experiência transformadora de ser voluntario a procurar a Igreja. É uma alegria indescritível.

  3. Sou paroquiana e tive o privilégio de poder fazer esse trabalho voluntário e adimito sinto mta falta e dou os parabéns a essa equipe e principalmente só padre Vitor

  4. Sou paroquiana e tenho acompanhado com muita admiração este trabalho fantástico, feito com todo amor e empenho por padre Vitor e os voluntários da Paróquia, que se distingue como comunidade unida e atuante em nossa diocese. Espero poder ajuda-los cada vez mais.

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Compartilhe!

Últimas Notícias

Assine nossa Newsletter