No 9° ano de seu pontificado, Francisco insiste: é preciso abrir-se às dores do outro e curar as feridas

No 9° ano de seu pontificado, Francisco insiste: é preciso abrir-se às dores do outro e curar as feridas
Francisco recebe o anel do pescador na missa inaugural de seu pontificado, em março de 2013 (Vatican Media)

Nove anos atrás, quando se sentou pela primeira vez na cátedra de Pedro, o Papa Francisco já mostrava a que vinha. “Quando o homem falha na responsabi- lidade de cuidar, quando não cuida da Criação e dos irmãos, então encontra espaço para a destruição e o coração fica árido”, declarou na missa do início do ministério, em 19 de março de 2013.

Hoje, ele continua a insistir: é preciso abrir-se para as dores do outro e curar as feridas. Durante o Angelus do domingo, 13, falando sobre a atual guerra na Ucrânia, recentemente invadida pelas forças militares da Rússia, ele disse: “Com dor no coração, uno-me à voz daquela gente comum, que implora o fim da guerra. Em nome de Deus, se escute o grito de quem sofre e se coloque fim aos bombardeamentos e ataques”.

A semana do nono aniversário de pontificado do Papa argentino, Jorge Mario Bergoglio, foi marcada por refle- xões sobre os fatos atuais, especialmente a guerra na Ucrânia, repleta de mensa- gens sobre as quais ele tem refletido nes- tes anos.

SINAIS DE DESTRUIÇÃO

Na sua missa de inauguração em 2013, o Papa Francisco já alertava para o risco de que a humanidade continu- asse deixando “sinais de destruição e de morte”. Na segunda-feira, 14, nove anos depois de sua eleição, ele voltou a mani- festar tristeza. “Parece-me que substan- cialmente o mundo tenha continuado e continue sendo governado por critérios obsoletos”, afirmou, em audiência a pe- quenos e médios empresários.

Chamando a guerra de “um ver- dadeiro massacre”, o Papa manifestou nesta semana profunda dor pelo bom- bardeamento de um hospital pediátrico e maternidade em Mariupol, que matou mulheres e crianças no dia 9. Nenhuma estratégia justifica tanto sangue, comen- tou. Ele reza pelos refugiados e por to- dos aqueles que os acolhem. Em outras ocasiões recentes, recordou as muitas situações de violência, como na Síria, na Etiópia e no Iêmen.

No encontro com empreendedores, ele exortou: o sistema político e econômico, guiado pelos que estão no poder, deve deixar espaço para a “interioridade humana”, ser orientado “pelo bem, pelo belo e pelo verdadeiro”. Isso quer dizer “animar-se”, disse. Assim, a globalização “deve ser governada” e a economia, voltada ao bem comum. Mais do que isso, ela deve estar “a serviço da vida, da vida humana e da vida da Criação, nossa casa comum, e não a serviço da ‘não vida’ ou da morte, como frequentemente ocorre”, completou.

Somente o “cuidado” desinteressa- do – como São José, celebrado em 19 de março, manifestou em relação a Jesus e a Maria –, somado a uma visão integral do ser humano podem nos colocar num caminho de vida plena, defende o Papa Francisco.

Naquela missa de 2013, ele já apontava: “O ódio, a inveja, o orgulho, sujam a vida”, dizia. “Cuidar quer dizer vigiar sobre nossos sentimentos, sobre nosso coração, porque é exatamente dali que saem as intenções boas e ruins: aquelas que constroem e aquelas que destroem. Não devemos temer a bondade, nem menos a ternura”, declarou à época.

A ORAÇÃO COMO RESPOSTA

Com três encíclicas e quatro exortações apostólicas publicadas, além de 35 viagens passando por 51 países nestes nove anos, o Papa Francisco toca em pontos essenciais para aproximar o mundo do que considera ser o projeto de Deus. Ele prega um processo de crescimento individual e coletivo na fé, por meio do constante discernimento, orientado pelo Espírito Santo, e por uma atenção particular às pessoas que se encontram em situações de maior dificuldade.

“Ouvir o grito dos que sofrem” e o cuidado que lhes compete estão presentes em todos os níveis de seu pontificado, das estruturas de governo à pastoral e à espiritualidade. Há nove anos, Francisco se apresentou como Bispo de Roma e, portanto, Papa, como alguém que iria “cuidar” da Igreja e do povo de Deus.

Parte essencial desse processo, em sua experiência, é a oração. Em uma pregação no sábado, 12, durante missa celebrada com a comunidade dos jesuítas em Roma, o Pontífice recordou que a oração é “uma missão ativa, uma intercessão contínua”.

Na visão do Papa Francisco, “rezar é levar o palpitar dos acontecimentos até Deus, para que seu olhar se escancare sobre a história”. Esta Quaresma, recordou o Santo Padre no Angelus do domingo, 13, é oportunidade para “estar mais acordados, atentos, participativos, não perder ocasiões preciosas”, e deixar de lado a “sonolência interior”. Se para alguns a oração é “distância do mundo”, para ele a oração é “mudar o mundo”.

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