Família Arns: lar fecundo de vocações para a Igreja

Desde cedo Dom Paulo teve contato com padres e missionários que seus pais acolhiam durante passagem pela cidade

Dom Paulo (a direita) e família /Arquivo pessoal

Dom Paulo Evaristo Arns (1921-2016), filho de colonos, cresceu em meio à natureza, no solo fecundo de uma família profundamente religiosa e alicerçada na fé. Ele é o quinto dos 13 filhos do casal Helena e Gabriel Arns, imigrantes alemães.

Seus irmãos foram Olivia, Otilia, Laura, Hilda, Paulo, Ida, Felippe, Max José, Bertoldo, Heriberto, Oswaldo, João Crisóstomo e Zilda, além de Maria Maag e João Maag, adotivos. Dois deles se tornaram padres da Ordem dos Frades Menores (OFM) e quatro religiosas na Congregação das Irmãs Escolares de Nossa Senhora (IENS).

RAÍZES DA FÉ

O ambiente familiar era muito favorável ao despertar vocacional. Tanto seus avós paternos quanto maternos eram imigrantes alemães. Sua mãe, Helena, era muito religiosa, cultivava nos filhos o amor a todas as pessoas e o respeito para com idosos e crianças. Todas as noites, ela reunia os filhos para o momento de oração.

Seu pai, agricultor de poucas palavras, era o mediador da colônia, sereno e justo. “De meu pai, devo dizer que era um homem de uma correção incontestável em todas as situações da vida”, escreveu Dom Paulo.

Helena e Gabriel educaram os filhos na simplicidade do lar, com amor, solidariedade, partilha, paz, justiça e comunhão, seja nos tempos de fartura, seja em tempos de dor e pobreza.

Na pequena colônia, os pais acolhiam em sua residência os padres e missionários que estavam de passagem pela cidade de Forquilhinha (SC). Eles vinham uma vez por ano para os sacramentos: casamentos, batizados e primeiras Comunhões.

Felipe Arns, avô de Dom Paulo, foi o responsável pela chegada à cidade da Congregação das Irmãs Escolares de Nossa Senhora, em 1935, comunidade em que suas netas ofertaram suas vidas a Deus.

DESPERTAR PARA A VOCAÇÃO

Aos 12 anos, o Cardeal Arns foi para a ordem seráfica no Seminário São Luiz de Tolosa, em Rio Negro (PR). Na fraternidade, seus irmãos, João Crisóstomo e Osvaldo, o precederam. Os primos Ervino e Armino foram para os padres dehonianos; e Eurico para os franciscanos.

Entre as meninas, Olivia, Laura e Hilda tornaram-se freiras na Congregação das Irmãs Escolares de Nossa Senhora, na qual assumiram o nome religioso: Irmã Maria Gabriela, Irmã Maria Helena e Irmã Teresinha.

A prima, Erna Arns, e a irmã adotiva Maria Maag (Irmã Anita) também se consagraram na mesma congregação. Zilda Arns, morta em 2010, é mundialmente reconhecida por seu trabalho e atuação na Pastoral da Criança.

PADRE: FILHO DE COLONOS

Paulo Evaristo Arns foi ordenado padre em 30 de novembro de 1945, em Petrópolis (RJ), onde por dez anos exer- ceu seu ministério, dando assistência à população carente da cidade. Ao recordar do seu pai e do despertar vocacional, Dom Paulo afirmava: “Hoje, quando os doutorados e outros títulos in- comodam em vez de empolgar, lembro-me de que tenho um, guardado como uma espécie de juramento a meu pai: sou padre, mas tirado dentre o povo. Um fi- lho dos colonos Helena e Gabriel Arns”.

Foi nomeado por São Paulo VI como Bispo Auxiliar de São Paulo, em 1966; depois, Arcebispo Metropolitano, entre 1970 e 1998. O mesmo Papa o tornou cardeal da Igreja em 1973. Em 1998, aos 77 anos, tornou-se Arcebispo Emérito, fixando residência com as Irmãs Fran- ciscanas da Ação Pastoral, em Taboão da Serra (SP). Faleceu em 14 de dezembro de 2016, aos 95 anos.

VOCAÇÕES PARA A IGREJA

Nelson Arns Neumann, doutor em Saúde e coordenador Nacional e Internacional da Pastoral da Criança, é filho da doutora Zilda Arns e sobrinho de Dom Paulo. Em entrevista ao O SÃO PAULO, ele conta que a família Arns é fecunda para a Igreja em vocações.

“Seis membros consagrados na vida religiosa e cada qual com um testemunho de vida e doação que, sem dúvida, gerou esperança e transformação na vida de muitas pessoas”, disse. O médico recordou ainda que a atuação da Igreja na região era muito forte na dimensão formativa, tanto intelectual quanto humana.

“Essa base formativa norteou os valores e a vocação, tanto do Cardeal Arns, do Frei João Crisóstomo, e das tias-irmãs: Maria Helena, Maria Gabriela e Hilda. Elas tinham nas veias a luta na construção de igualdade e valorização dos direitos humanos”, pontuou o sobrinho.

PODER TRANSFORMADOR DA EDUCAÇÃO

Irmã Veroni Teresinha de Medeiros, coordenadora de Pastoral no Colégio Nossa Senhora das Dores, da Congregação das Irmãs Escolares de Nossa Senhora, conviveu com as freiras Arns.

“Elas eram felizes na vocação, imbuídas de uma profunda espiritualidade, de fé inabalável”, disse, recordando ainda que as irmãs de Dom Paulo eram mulheres ousadas na Educação e que sempre atuaram em cargos de coordenação na congregação como superioras provinciais e ou diretoras de escola.

“Elas acreditavam que a Educação é capaz de transformar”, disse, pontuando que a Irmã Hilda, já idosa, reside na comunidade em Forquilhinha. As demais já faleceram.

LEGADO DOS CONSAGRADOS

A família sempre foi unida e de muita fé. Na rotina corrida de todos os irmãos, os momentos de comunhão e encontros eram únicos; de partilha e fraternidade.

“Dom Paulo sempre expressou para nós, sua família, e para o mundo o orgulho de ser frade franciscano. Todos os anos, nas férias, celebrava a missa para a família, contava suas lutas em favor dos vulneráveis e frente aos acontecimentos da Igreja e da sociedade”, disse Nelson Arns.

“Lembro-me de duas frases que o tio Dom Paulo falava, segurando firme no braço, a cada despedida: ‘Coragem! Não tenha medo’ e ‘de esperança em esperança’, frases motivadoras para o Cardeal e de esperança para nós, sua família”, disse. “As tias religiosas sempre foram muito dóceis e atuantes na Edu- cação”, finalizou.

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