As lições de Tóquio válidas para muitos ciclos olímpicos

Rebeca Andrade conduz a bandeira brasileira na cerimônia de encerramento (fotos: COI)

“Mais rápido, mais alto, mais forte”. Nos Jogos em Tóquio, o lema olímpico ganhou um acréscimo: “Mais rápido, mais alto, mais forte – juntos”. De fato, a 32a edição do megaevento esportivo, encerrada no domingo, 8, deixará para a história não só as medalhas e os recordes conquistados pelos esportistas, mas também grandes exemplos de solidariedade e união para superar as adversidades.

Os valores olímpicos da excelência, do respeito às regras e aos adversários e da amizade ganharam, em muitos momentos, mais destaque do que os resultados das disputas, indicando, assim, que bons ideais podem ser alcançados pelo esporte, como mencionou em 31 de maio o Papa Francisco ao encontrar-se com uma delegação da Federação Italiana de Basquete: “o esporte é um remédio para o individualismo de nossas sociedades, que muitas vezes gera um eu isolado e triste, tornando-nos incapazes de ‘jogar em equipe’ e cultivar uma paixão por algum bom ideal. Assim, por meio do vosso esforço esportivo, vós [atletas] recordais o valor da fraternidade, que também está no coração do Evangelho”.

Nos Jogos de Tóquio três destes momentos foram especiais e são recordados a seguir.

‘Podemos ter dois ouros?’

A pergunta foi feita pelo catari Mutaz Essa Barshim, 30, na final do salto em altura masculino, no dia 1o, quando ele e o italiano Gianmarco Tamberi, 29, tinham alcançado a mesma marca: 2 metros e 37 centímetros. Teriam, então, a opção de saltar uma altura maior para decidir o ouro olímpico, mas preferiram dividir o alto pódio.

Aquela não foi a primeira vez que dividiriam algo. Em 2016, Tamberi se lesionou gravemente e não pode participar dos Jogos no Rio de Janeiro. Após meses de recuperação, voltou a competir, mas seus resultados estavam abaixo do esperado. Em 2017, em uma disputa em Paris, na França, estava desolado com a sequência de desempenhos ruins. Ao perceber o desânimo de Tamberi, Barshim o procurou para conversar e incentivou o italiano a não desistir de seus sonhos e acreditar que voltaria a ter bons resultados, algo que voltaria a acontecer ainda naquele ano.

“Ele é um dos meus melhores amigos, não só na pista, mas também fora dela. Trabalhamos juntos. É um sonho que se torna realidade [conquistar a medalha de ouro]. Esse é o verdadeiro espírito esportivo e estamos aqui para transmitir esta mensagem”, disse Barshim, após festejar o ouro ao lado de Tamberi. “Depois das minhas lesões, só queria voltar. Agora, tenho este ouro, o que é incrível”, festejou o italiano, dando a volta olímpica ao lado de Barshim.

‘Estamos fazendo do esporte um lugar melhor’

Kieran Woolley (de amarelo) cumprimenta o medalhista de bronze no skate park, o norte-americano Cory Juneau

Era a terceira e última das apresentações do australiano Kieran Woolley na final do skate park nos Jogos de Tóquio. Era preciso arriscar nas manobras para conseguir um lugar no pódio. Ele tentou, mas logo no começo da volta se desequilibrou do skate e caiu. Seu semblante era de decepção, mas não houve tempo para a tristeza: quase que simultaneamente, os outros sete finalistas correram para abraçá-lo e tomando-o pelos braços, ergueram-no como se faz com os campeões.

Woolley terminou em 5a lugar na final vencida por seu compatriota, Keegan Palmer, e que teve como medalhista de prata o brasileiro Pedro Barros, 26.

“Hoje não é um dia mágico só porque tenho uma medalha no pescoço. É mágico porque fui capaz, junto com meus amigos, de escrever história. Estamos fazendo do esporte um lugar melhor, um mundo melhor. É disso que se trata. O skate é uma comunidade, é um estilo de vida. Vai muito além de um esporte”, disse o brasileiro em entrevista, reforçando o que pôde ser visto durante toda as provas dessa modalidade em Tóquio: a alegria dos jovens competidores pelos acertos das manobras de cada um deles e o mútuo consolo quando algo não dava certo. “Isso é o skateboard. Você cai, levanta e na próxima chega com a cabeça erguida. Sempre procurando o melhor”, declarou Barros em entrevista após a conquista da medalha.

‘Obrigado a todos pelo amor e apoio sem fim’

Após a conquista de cinco medalhas nos Jogos Rio 2016, quatro destas de ouro, a norte-americana Simone Biles, 24, chegou a Tóquio como favorita ao pódio em seis provas da ginástica artística. Entretanto, os erros em fundamentos simples na classificatória da disputa por equipes, a primeira que atuou, deixavam transparecer que algo não estava bem.

Horas depois de as norte-americanas conquistarem a prata nesta prova, um comunicado da equipe de ginástica daquele país surpreendeu o mundo: “Após avaliação médica adicional, Simone Biles retirou-se da competição individual geral final. Apoiamos de todo o coração a decisão de Simone e aplaudimos sua bravura em priorizar seu bem-estar. Sua coragem mostra, mais uma vez, por que ela é um modelo para tantos”.

Nos dias seguintes, Simone acompanhou as disputas das arquibancadas, torcendo por suas compatriotas e por atletas de outros países, como a brasileira Rebeca Andrade, que conquistou o ouro na prova de saltos e a prata no individual geral.

Após dias de intensas conversas com a equipe de psicólogos e técnicos da seleção norte-americana de ginástica, Simone Biles sentia-se em condições mínimas para voltar a competir. Restava a ela uma prova: a da trave de equilíbrio. Quando concluiu sua apresentação, o reduzido público na Ariake Gymnastic Centre a aplaudiu de pé e com as notas obtidas, a ginasta conseguiu sua sétima medalha olímpica, desta vez de bronze. “Eu sempre vou valorizar essa experiência olímpica única. Obrigado a todos pelo amor e apoio sem fim. Eu sou muito grata. Deixar Tóquio com mais duas medalhas olímpicas para adicionar à minha coleção não é tão ruim”, postou em suas redes sociais.

“Eu não sei como eu estou me sentindo agora. Eu só preciso voltar para casa e trabalhar em mim mesma, me sentir ok com tudo o que está acontecendo. Eu treinei a minha vida toda, estava pronta, mas algo aconteceu fora do meu controle. No fim do dia, porém, a minha saúde importa mais do que qualquer medalha”, declarou ao se despedir dos Jogos.

CAMPANHA HISTÓRICA

Nos Jogos de Tóquio, o Brasil alcançou sua melhor campanha na história dos Jogos, com o recorde de 21 medalhas, sendo 7 de ouro, 6 de prata e 8 de bronze, ficando, assim, na 12a posição na classificação geral entre as nações participantes.

OURO
Ítalo Ferreira – Surfe
Rebeca Andrade – Ginástica Artística
Martine Grael e Kahena Kunze – Vela
Ana Marcela Cunha – Maratonas Aquáticas
Isaquias Queiroz – Canoagem velocidade
Hebert Conceição – Boxe
Futebol masculino
 
PRATA
Kelvin Hoefler – Skate Street
Rayssa Leal – Skate Street
Pedro Barros – Skate Park
Rebeca Andrade – Ginástica Artística
Beatriz Ferreira – Boxe
Vôlei feminino
 
BRONZE
Fernando Scheffer – Natação
Bruno Fratus – Natação
Laura Pigossi e Luisa Stefani – Tênis
Thiago Braz – Atletismo
Alison dos Santos – Atletismo
Abner Teixeira – Boxe
Mayra Aguiar – Judô
Daniel Cargnin – Judô

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