COP26: 197 países assinam novo pacto contra mudança climática

Conferência do clima de Glasgow, na Escócia, não foi ousada, mas apresentou avanços no combate ao aquecimento global

Pexels Pixabay

Um grau e meio. Praticamente é isso o que separa o mundo de um colapso climático. Essa marca, que já se tornou simbólica, vem de um estudo de 2018 do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), estimando os desastres que o mundo verá caso as temperaturas subam mais do que 1,5°C além dos níveis pré-industriais, isto é, das temperaturas registradas na metade do século XIX.

O aquecimento global acima de 1,5°C provocaria uma elevação irreversível do nível dos oceanos, pelo derretimento de geleiras, que seria acompanhado do desaparecimento de algumas ilhas do Pacífico. Também haveria um número sem precedentes de pessoas forçadas a migrar por tragédias naturais. Zonas hoje habitáveis e agricultáveis se tornariam desérticas. A vida da fauna e da flora nos oceanos seria desafiada. Na terra, muitas espécies seriam extintas.

Um acordo assinado por 197 países, inclusive o Brasil, na conferência do clima de Glasgow, na Escócia, concluiu que ainda é possível avançar nos esforços para manter o mundo abaixo dessa dramática meta de 1,5°C. Entretanto, mais precisa ser feito na redução do uso de combustíveis fósseis, especialmente o carbono produzido na queima de óleo e gás.

Realizada entre 31 de outubro e 12 de novembro, a Conferência das Nações Unidas sobre a Mudança Climática (COP26) terminou com o chamado “Pacto de Glasgow”.

Entre as decisões nesse acordo – que não foi tão ousado quanto o esperado por ambientalistas e cientistas do clima – está o compromisso de ter metas mais incisivas na redução de emissões de carbono no ano que vem.

Cada país deverá rever a sua própria proposta de quanto vai cortar até 2030 para que, todos juntos, façam com que o mundo consiga zerar as emissões de carbono (na prática, isso significa que as emissões não podem crescer e que, quando forem necessárias, sejam totalmente compensadas por medidas de controle, como o reflorestamento, por exemplo).

Alguns passos após Paris

A COP26 foi compreendida como uma retomada da pauta ambiental após quase dois anos de atenção global quase exclusiva à pandemia de COVID-19.

Além disso, muitos detalhes do famoso Acordo de Paris, resultado da conferência de 2015, precisavam ser acertados na cúpula deste ano; e foram. Entre eles, a regulamentação do “mercado de carbono”, em que países que emitem menos podem gerar créditos e vendê-los a países que emitem mais.

Entretanto, a expectativa dos organizadores era de um passo ainda maior. Entre os objetivos declarados antes da conferência estavam convencer os países a “acelerar a eliminação do carbono [como fonte de energia]; reduzir o desmatamento; ampliar a transição para veículos elétricos; encorajar o investimento em energias renováveis”.

Cada país membro das Nações Unidas apresenta suas próprias metas, que são voluntárias. São chamadas de “Contribuições Nacionalmente Determinadas” (NDCs, na sigla em inglês). Em Paris, os países apresentaram suas metas, mas elas eram claramente insuficientes para que fiquemos abaixo de 1,5°C.

Metas adiadas

Por isso, seria preciso acirrar as metas. Paris previa uma revisão das metas em 2025. Os organizadores da COP26 queriam a revisão agora.

“Pede-se ao países para apresentar metas ambiciosas de redução de emissões até 2030, que se alinhem com a proposta de zerar emissões até a metade do século”, dizia o presidente da conferência, Alok Sharma. Essa revisão, porém, ficou para o ano que vem.

Nas últimas horas do evento, o Pacto que previa “eliminação” do carbono foi barrado pela Índia, que afirmou já estar fazendo o seu máximo. Isso causou grande frustração entre membros de outros países como Estados Unidos, França e Reino Unido.

Representantes do Pacífico disseram que o adiamento configurou um “fracasso monumental” da COP26, deixando-os em risco de extinção. Mas viram como positivo ter sido mantido o objetivo de ficar abaixo de 1,5°C. O primeiro-ministro das Ilhas Fiji, Frank Bainimarama, tuitou: “A meta de 1,5°C sai de Glasgow abatida, machucada, mas viva”.

Ainda assim, entre os avanços do acordo de Glasgow está a exigência aos países desenvolvidos, que são os maiores responsáveis pela mudança climática, de financiar a transição energética dos países em desenvolvimento rumo a energias limpas.

Também foi declarada, formalmente, a necessidade de cortar as emissões de gases causadores do efeito estufa em 45% até 2030. Como definiu a revista britânica The Economist, a COP26 “não foi um triunfo; mas também não foi um desastre”.

Santa Sé elogia compromisso com 1,5°C, mas pede mais ação

A delegação da Santa Sé apresentou, na Conferência das Nações Unidas sobre a Mudança Climática (COP26), a constante preocupação do Papa Francisco com o cuidado da “casa comum” e pediu mais ação.

Em comunicado publicado na quinta-feira, 11, a Santa Sé afirmou que o compromisso dos países de “limitar o aumento das temperaturas médias globais a 1,5°C dos níveis pré-industriais e de oferecer os recursos financeiros necessários para que isso seja feito é promissor e, de fato, essencial para a sobrevivência das comunidades mais vulneráveis”.

Reafirmou, porém, que é preciso lembrar “o rosto humano da crise climática, seu impacto sobre os mais pobres e aqueles que pouco fizeram para provocá-la”.

Não há tempo a perder

Países ricos precisam liderar as iniciativas de combate ao aquecimento global, diz o texto. “Embora seja preciso fazer mais, é importante ser proativos na busca de formas eficientes para implementar as promessas feitas”, consta no comunicado.

Entre os desafios estão a mitigação do aquecimento, a adaptação das estruturas e o financiamento da transição energética. A declaração da Santa Sé menciona, ainda, a carta do Papa aos católicos da Escócia, onde foi realizada a conferência, na qual diz: “O tempo está acabando; esta ocasião [da COP 26] não pode ser desperdiçada”.

O comunicado cita a encíclica ‘Laudato si’, do Papa Francisco, e pede que haja solidariedade ecológica entre os países pobres e ricos e o perdão da dívida dos pobres para que possam progredir com maior autonomia.

Embora publicada antes do encerramento da conferência, a nota da delegação da Santa Sé acrescenta que as decisões dos países-membros da COP26 deveriam ser orientadas por uma “responsabilidade pelas gerações presentes e futuras, assim como pelo cuidado da nossa casa comum”, e pede que as decisões “atendam ao clamor da Terra e dos pobres”.

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