Dogmas marianos confirmam a ação de Deus na vida de Nossa Senhora

Ícone da Mãe de Deus (Theotókos)

Mãe de Deus, Virgem Imaculada, Assunta ao Céu são mais que invocações dirigidas a Nossa Senhora: expressam verdades de fé proclamadas pela Igreja e celebradas pelo povo de Deus ao longo dos séculos. Trata-se dos dogmas marianos.

O termo dogma provém da língua grega dógma, que significa “opinião”, “decisão” ou “ensinamento”. Na tradição católica, trata-se de uma doutrina por meio da qual a Igreja propõe, de maneira definitiva, uma verdade de fé revelada por Deus, contida na Sagrada Escritura e na Tradição Apostólica. São quatro os dogmas relacionados a Nossa Senhora. Veja a seguir:

MÃE DE DEUS

O mais antigo dos dogmas marianos tem sua origem relacionada à discussão sobre as duas naturezas de Cristo, especialmente no combate à heresia de Nestório, Patriarca de Constantinopla (380- 451), que acreditava que, embora Jesus possuísse as naturezas humana e divina, essas não constituíam uma única pessoa, mas duas, que se relacionavam entre si por um certo vínculo. Por isso, ele defendia que Maria era a Mãe de Jesus humano, mas não do divino. Essa concepção, portanto, negava o mistério da encarnação do Verbo e, consequentemente, a redenção da humanidade em Cristo.

Em 22 de junho de 431, o Concílio de Éfeso definiu explicitamente que Maria é Mãe de Deus (Theotókos, em grego), ao afirmar a unidade da pessoa de Cristo nas duas naturezas, plenamente Deus e homem. Assim, Maria é Mãe de Jesus Cristo, o Deus encarnado na humanidade, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

São João Damasceno (675-749) explicava esse dogma da seguinte forma: “Nós dizemos que Deus nasceu de Maria, não no sentido de que a divindade do Verbo dependia de Maria, mas no sentido de que o Verbo, o qual, antes do tempo, nasceu do Pai, é eterno como o Pai e o Espírito Santo; na plenitude dos tempos, viveu no seu seio, para nossa salvação e, sem mudança, tornou-se carne e nasceu dela. A Virgem não gerou simplesmente um homem, mas um verdadeiro Deus, Deus não sem carne, mas feito carne”.

As raízes bíblicas da maternidade divina estão, por exemplo, em Isaías: “Portanto, o mesmo Senhor vos dará um sinal: eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e será o seu nome Emanuel, Deus conosco” (Is 7,14); “O Santo que há de nascer de ti será chamado Filho de Deus”, diz o anjo a Maria (Lc 1,35). Isabel, cheia do Espírito Santo, saudou Maria dizendo: “De onde me vem a honra que a Mãe do meu Senhor venha me visitar?” (Lc 1,43); “Mas, chegando a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei” (Gl 4,4).

VIRGINDADE PERPÉTUA

Este dogma afirma a virgindade de Maria antes, durante e depois do parto, assim como sua concepção milagrosa. Os cristãos dos primeiros séculos já proclamaram essa convicção de fé mediante a palavra grega aeiparthenos (sempre virgem), que qualificava de modo particular a Mãe de Jesus.

O primeiro Concílio a confirmar essa verdade de fé foi o de Latrão, em 649. O II Concílio de Constantinopla (553) afirmou que o Verbo de Deus, “tendo-se encarnado na santa gloriosa Mãe de Deus e sempre Virgem Maria, nasceu dela”. Esta doutrina foi confirmada, ainda, pelos concílios Lateranense IV (1215) e de Lião (1274).

Na Sagrada Escritura, encontram-se algumas referências que fundamentam a concepção virginal: “A virgem conceberá e dará à luz a um filho” (Is 7,14); “O anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma virgem, o nome da virgem era Maria” (Lc 1,26); “Como será isso, pois não conheço homem algum? […] O Espírito Santo virá sobre ti e a virtude do Altíssimo te cobrirá com sua sombra” (Lc 1,34-36); “José… não temas receber Maria, porque o concebido nela é obra do Espírito Santo” (Mt 1,20)

O Catecismo da Igreja Católica enfatiza que “o sentido deste acontecimento só é acessível à fé, que o vê no nexo que liga os mistérios entre si, no conjunto dos mistérios de Cristo, da Encarnação até a Páscoa” (§ 498). Logo, tal verdade de fé encontra fundamento no mistério de Jesus, que, sendo Deus, manteve Virgem aquela que o gerou e da qual nasceu.

“Seria ofensivo à perfeição de Cristo, que pela natureza divina é o Filho unigênito e absolutamente perfeito do Pai (cf. Jo 1,14; Hb 7,28), e convinha, assim, que fosse também Filho unigênito da Mãe, como seu fruto perfeitíssimo”, afirmou Santo Tomás de Aquino.

“Jesus é o filho único de Maria. Mas a maternidade espiritual de Maria se estende a todos os homens que Ele veio salvar: ‘Ela deu à luz um Filho que Deus estabeleceu como ‘primogênito de muitos irmãos’ (Rm 8,29), isto é, dos fiéis para cuja geração e educação ela coopera com amor de mãe”, completa o Catecismo (§ 501).

Imagem da Imaculada Conceição da Virgem Maria

IMACULADA CONCEIÇÃO

O terceiro dogma mariano foi proclamado pelo Papa Pio IX, em 1854. O Pontífice declarou a doutrina que ensina ter sido Nossa Senhora imune de toda mancha de pecado original, no primeiro instante de sua conceição (concepção), por singular graça e privilégio de Deus Onipotente, em vista dos méritos de Cristo Jesus, Salvador do gênero humano.

A santidade e pureza da Mãe de Deus é celebrada pelos cristãos tanto no Oriente quanto no Ocidente, desde os primeiros séculos. Escritos cristãos do século II relacionam Maria como a nova Eva, ao lado de Jesus, o novo Adão, na luta contra o mal. No século IV, Santo Efrém (306-373) propunha que só Jesus Cristo e Maria de Nazaré são limpos e puros de toda a mancha do pecado.

A festa litúrgica de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, em 8 de dezembro, já era celebrada no século VIII, propagada especialmente pelos franciscanos. Um deles, o teólogo Duns Scott (1266-1308), argumentou historicamente em favor desse mistério de fé sobre Maria.

A fé da Igreja nessa doutrina também se apoia em fundamentos bíblicos, que, mesmo de maneira implícita, ajudam a confirmá-la. Um dos exemplos é quando Maria é chamada de “cheia de graça” (cf. Lc 1,28), de modo que, uma vez plena da graça divina, não pode haver em sua alma lugar para o pecado. Também o evangelista Lucas usa a expressão “conceberás em teu seio”, no anúncio do anjo a Nossa Senhora, sublinhando que seu ventre é o lugar onde Deus habitou por primeiro ao se encarnar, fazendo dela a verdadeira “tenda do Senhor”, assim como o “santo dos santos” no templo de Jerusalém.

ASSUNÇÃO

Proclamado em 1º de novembro de 1950, pelo Papa Pio XII, o quarto dogma mariano afirma que, após terminar o curso terreno de sua vida, Maria foi assunta, isto é, levada de corpo e alma à glória celeste. Significa que a Mãe de Deus está viva e glorificada de forma plena no céu, prefigurando a promessa de Deus para a Igreja.

A fé na Assunção de Nossa Senhora remonta ao século IV. Santo Efrém afirmava que o corpo virginal de Maria não sofreu corrupção depois da morte. Já Santo Epifânio dizia que o fim dela foi prodigioso e que ela possuía o Reino dos Céus ainda com a carne.

Proclamação do dogma da Assunção de Nossa Senhora, por Pio XII, em 1950 (reprodução da internet)

Os cristãos do século VI celebravam em Jerusalém a festa da Dormição ou Trânsito de Nossa Senhora, em 15 de agosto. Essa compreensão se propagou ao longo dos séculos, sendo consolidada pelas Igrejas orientais desde o século X.

Por ocasião do Concílio Vaticano I, em 1870, cerca de 200 bispos pediram ao Papa Pio IX a definição dogmática da assunção de Maria. O assunto, porém, não chegou a ser aprofundado, visto que o Concílio terminou antes do tempo previsto. No século XX, os pedidos para o reconhecimento desse dogma continuaram. Em 1946, o Papa Pio XII fez uma consulta aos bispos do mundo inteiro a respeito do tema, com um posicionamento quase unânime.

São muitas as referências das Sagradas Escrituras nas quais os santos padres, teólogos e bispos se apoiam para afirmar que Maria foi assunta ao céu (cf. Gn 3,15; Ex 20,12; Is 60,3; Sl 132,8; Ct 3,6; Lc 1,28; Ap 12).

Referindo-se a esse dogma, a constituição Lumen gentium, do Concílio Vaticano II, diz que a Mãe de Jesus, tal como está nos céus já glorificada de corpo e alma, “é a imagem e o começo da Igreja como deverá ser consumada no tempo futuro”.

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