O encontro que aproximou a Igreja e o movimento olímpico

Em 1905, São Pio X e o Barão Pierre de Coubertin reuniram-se no Vaticano e abriram caminhos para a difusão de bons valores a partir do esporte

Adiada de 2020 para este mês em razão da pandemia de COVID-19, a 32a edição dos Jogos Olímpicos de Verão terá início no dia 23, em Tóquio, no Japão, com a presença de aproximadamente 11 mil atletas e a atenção de bilhões de pessoas em todo o mundo.

Na era moderna, os Jogos Olímpicos aconteceram pela primeira vez em 1896, em Atenas, na Grécia. Naquela edição, bem como nas duas seguintes – Paris 1900 e Saint Louis 1904 –, o evento não teve grande destaque internacional. Seu idealizador, o Barão Pierre de Coubertin, estava preocupado com as dificuldades que já se anunciavam para a realização da Olimpíada em 1908, em Roma, na Itália.

O prefeito à época, Ernesto Nathan, não vislumbrava grandes vantagens à cidade em sediar o evento, e, na sociedade italiana, havia muita incerteza sobre os reais benefícios do esporte, uma vez que estava atrelado à prática de apostas, algumas modalidades como o futebol e o rúgbi eram consideradas violentas e havia os que enxergavam o esporte como um instrumento de alienação das pessoas diante dos problemas sociais.

O Barão e o Papa

Ciente dessas resistências, o francês Pierre de Coubertin encontrou-se com São Pio X em 1905, no Vaticano. Os detalhes dessa visita estão no artigo “O Encontro do Barão de Coubertin com o Papa São Pio X: momento-chave para a relação da Igreja com o olimpismo”, publicado por Narayana Astra van Amstel, doutorando na Faculdade de Sociologia na Universidade Federal do Paraná (UFPR), em coautoria com seu professor orientador, Wanderley Marchi Junior, pós-doutor em Sociologia do Esporte.

Amstel recorda que o encontro foi facilitado pelo fato de o Cardeal Giuseppe Melchiorre Sarto (São Pio X) – cujo pontificado ocorreu entre 1903 e 1914 – ter sido praticante e apreciador dos esportes, o que o levou a promover competições de remo entre os gondoleiros do Patriarcado de Veneza, do qual esteve à frente de 1893 até se tornar Papa.

“O Barão relata que conseguiu amplo apoio do Papa que mostrou um total interesse em sediar o evento, que seria algo internacionalista e que também ajudaria na promoção da paz, que foi sempre uma preocupação da Igreja. Havia o desejo do Barão de que os católicos também participassem. Naquele tempo, o esporte moderno era controlado na maioria dos casos por instituições secularizadas. Muitos maçons estavam à frente de federações e eles tinham atritos com os católicos. A maioria das federações proibia a menção a santos nos nomes dos clubes, nas indumentárias e nas bandeiras. O encontro foi um sucesso, pois o Papa não só abençoou os Jogos como também incentivou que os católicos participassem deles”, detalha Amstel ao O SÃO PAULO.

Como ratificação de seu apoio aos Jogos Olímpicos, São Pio X promoveu, em 1906, um festival de ginástica no Vaticano, com a participação de 400 atletas de 33 clubes. “Um espetáculo muito sintomático, que foi registrado em fotografias e que tem sempre um grande sucesso no conjunto das nossas projeções documentais olímpicas”, manifestou o Barão, ao recordar o episódio em um dos congressos sobre o movimento olímpico.

foto: Vatican Media

Maior proximidade

A erupção de um vulcão no Monte Vesúvio, na região de Nápoles, em 1906, causou grande impacto na sociedade italiana e fez com que Roma desistisse de sediar a Olímpiada que aconteceria em 1908, e que acabou sendo transferida para a cidade inglesa de Londres. Esse imprevisto, porém, não destruiu as pontes do diálogo permanente iniciado entre a Igreja e o movimento olímpico em 1905.

“Quando o Barão Pierre de Coubertin apresentou ao Papa a proposta do olimpismo, com uma nova forma de trabalhar o esporte, sob uma ótica do fair play, dos atletas como promotores de virtudes e do esporte como elemento forte para a educação e a ética, a Igreja observou nisso uma oportunidade-chave para o uso do esporte como ferramenta educacional para a preparação da juventude e um estilo de vida para os adultos”, ressaltou Amstel à reportagem.

No artigo, o pesquisador lista ainda outros bons frutos daquele encontro, como o de ter mostrado que o esporte é uma “manifestação humanista, de todas as nações, crenças e independente de preferências políticas e pessoais”; de reforçar que “atletas católicos poderiam confraternizar internacionalmente nas competições olímpicas, sem medo de serem perseguidos pelo COI [Comitê Olímpico Internacional], algo bem diferente do que vinha ocorrendo nas competições regidas pelas federações italianas anticlericais”; além de se contrapor tanto às visões socialistas de que o esporte era uma atividade alienante quanto a posições nacionalistas, uma vez que o esporte promove a convivência pacífica entre as nações e o respeito mútuo entre os povos.

COI

Valores convergentes

A construção de um mundo melhor a partir do esporte a serviço da humanidade é uma das bases do olimpismo. Nele se ressalta um estilo de vida baseado na alegria do esforço, no valor educacional do bom exemplo e no respeito pelos princípios éticos universais. Entre seus valores principais estão a amizade (que envolve o espírito de equipe e a solidariedade), a excelência (com cada pessoa dando o seu melhor para superar desafios) e o respeito (pelo adversário e pelas regras).

Desde o século XX, os papas têm se manifestado sobre a perspectiva cristã do esporte, vendo neste uma ferramenta para a valorização da pessoa humana e a construção do bem comum, com a difusão de valores como a amizade, diálogo, igualdade, respeito, solidariedade. Essa perspectiva da Igreja para o esporte é detalhada no documento “Dar o melhor de si”, publicado em junho de 2018 pelo Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida.

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