Logo do Jornal O São Paulo Logo do Jornal O São Paulo

Pena de morte volta ao centro da discussão nos Estados Unidos

Pena de morte volta ao centro da discussão nos Estados Unidos - Jornal O São Paulo
Mohamed Nohassi/Unsplash

As duas tentativas frustradas de execução de Christa Pike, no Tennessee, nos Estados Uni­dos, somada à tentativa igualmente fracassa­da, ocorrida em maio, de outro condenado no mesmo estado, reacendeu o debate norte-ame­ricano sobre a pena de morte, justamente no ponto em que as questões de justiça, dignidade humana e misericórdia se tornam mais difíceis de separar.

Diante das circunstâncias, bispos católicos do Tennessee fizeram um apelo incomum: o gover­nador Bill Lee deveria poupar a vida de Christa e impedir outra tentativa de executar sua sentença de morte.

Christa, 50, foi condenada pelo assassinato de Colleen Slemmer, então com 19 anos, em 1995. Ela sobreviveu a duas doses da injeção letal e foi levada ao hospital. O episódio fez o governador suspender as execuções no estado pelo restante de 2026 e a ordenar uma revisão independente.

O argumento dos bispos parte da premissa de que o Estado pode e deve responsabilizar as pesso­as por atos de violência grave sem necessariamen­te tirar outra vida. “A responsabilização, contudo, não precisa exigir outra morte”, escreveram eles em um apelo, datado do dia 1º.

Essa distinção é central para a posição católica sobre a pena capital. A Igreja não nega a realidade do mal, nem a oposição à execução significa que os condenados por assassinato devam escapar da pu­nição ou que a sociedade deva abandonar sua res­ponsabilidade de proteger as potenciais vítimas. A questão é se o Estado pode atingir esses objetivos Os bispos fundamentaram seu apelo na com­preensão cristã da dignidade humana: todo ser humano carrega a imagem de Deus, e mesmo uma pessoa culpada de um crime grave não perde, por isso, essa dignidade ou a possibilidade de ar­rependimento e redenção. Eles instaram o gover­nador a comutar a pena de Christa para uma puni­ção que protegesse o público e, ao mesmo tempo, preservasse sua vida.

Pena de morte volta ao centro da discussão nos Estados Unidos - Jornal O São Paulo
Arquivo Congresso dos Estados Unidos

Na semana passada, em uma publicação nas redes sociais em alusão ao Dia Mundial contra a Pena de Morte, Leão XIV afirmou: “O bem co­mum pode ser salvaguardado e as exigências da justiça podem ser atendidas sem recorrer à pena capital: sistemas eficazes de detenção foram de­senvolvidos para proteger os cidadãos, sem, ao mesmo tempo, privar completamente os culpados da possibilidade de redenção.”

O posicionamento do Pontífice dá continuidade à direção estabelecida pelo Papa Francisco, que em 2018 revisou o Catecismo da Igreja Católica sobre a pena capital. O texto revisado afirma que, embora a pena de morte tenha sido outrora considerada um meio aceitável de defender o bem comum em certas circunstâncias, os desenvolvimentos na socieda­de e nos sistemas prisionais alteraram essa avalia­ção. A detenção moderna pode proteger a popula­ção sem eliminar permanentemente a possibilidade de redenção do infrator. O Catecismo afirma, por­tanto, que “a pena de morte é inadmissível porque atenta contra a inviolabilidade e a dignidade da pessoa” e diz que a Igreja trabalha pela sua abolição em todo o mundo.

Fontes: Zenit News, The Tablet e Catecismo da Igreja Católica

Deixe um comentário