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A fé que inspira versos

‘A literatura tem sua origem nas mais remotas tradições narrativas, todas elas – nas mais diferentes latitudes do mundo antigo, vinculadas ao transcendente, ao divino’

A fé que inspira versos
(crédito: Pixabay)

Poetas, em todo o mundo e em diferentes épocas, sempre tiveram a fé como um tema recorrente em suas obras. Para alguns, a questão religiosa foi o motivo que os levou a escrever. É o caso de Dante Alighieri, poeta italiano do século XI. Considerado o primeiro e maior poeta de língua italiana, é dele a Divina Comédia, obra que relata uma viagem por meio do Inferno, Purgatório, e Paraíso.

Poetas brasileiros, modernos e contemporâneos, como Haroldo de Campos, Adélia Prado, Manuel Bandeira, Casimiro de Abreu ou Cora Coralina também escreveram muitos poemas que versam sobre o mistério da fé.

Para Roseli Hirasike, 54, graduada em Letras e Direito e Mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP, pensar literatura e fé é preciso ir “além de um conjunto de obras escritas em prosa ou verso, de valor estético e cultural em um lugar e num tempo, para falar dos caminhos da fé que se expressam nas literaturas do mundo todo, eu antes preciso dizer que vejo a literatura como expressão da alma humana”.

Em entrevista ao O SÃO PAULO, Roseli, que atualmente é doutoranda na PUC-SP, falou ainda que obras de literatura ajudam a construir uma tradição. “A fé está muito presente na Literatura. Desde Homero, Dante e clássicos até a literatura periférica do Sacolinha (escritor paulistano da periferia). E sem ser clichê, mas já sendo, a fé que move montanhas, montanhas de signos, significados, sentidos e encontros. A Literatura?  Sim, é um encontro com o mistério da fé”, disse.

A pesquisadora tem se dedicado ao estudo do poeta Haroldo de Campos, mas especificamente sobre o poema “A máquina do mundo repensada”. Para ela, “a apreciação deste poema conduz o leitor por um fio que o liga ao passado, à busca da redenção pelos grandes feitos, lembrando Os Lusíadas de Camões; a redenção após a morte por meio da fé, cantada na Divina Comédia de Dante; ou pela contínua busca do mistério, como nos lembra o poema ‘A Máquina do mundo de Carlos Drummond’”.

Paulo César Carneiro Lopes, 54, mestre e doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo, recordou ainda, de Manuel Bandeira, que é um dos poetas brasileiros que mais vezes usa citações bíblicas em seus textos: “A dimensão cristã faz parte da nossa cultura e a literatura, mais especificamente, tem sua origem nas mais remotas tradições narrativas, todas elas – nas mais diferentes latitudes do mundo antigo, vinculadas ao transcendente, ao divino”.

(Adélia Prado)

Uma vez, da janela, vi um homem
que estava prestes a morrer,
comendo banana amassada.
A linha do seu queixo era já de fronteiras,
mas ele não sabia, ou sabia?
Como posso saber?
Comia, achando gostoso,
me oferecendo corriqueiro, todavia
inopinado perguntou
— ou perguntou comum como das outras vezes? —
Como será a ressurreição da carne?
É como nós já sabemos, eu lhe disse,
tudo como é aqui, mas sem as ruindades.
Que mistério profundo!, ele falou
e falou mais, graças a Deus,
pousando o prato.

HUMILDADE

(Cora Coralina)

Senhor, fazei com que eu aceite

minha pobreza tal como sempre foi.

Que não sinta o que não tenho.

Não lamente o que podia ter

e se perdeu por caminhos errados

e nunca mais voltou.

Dai, Senhor, que minha humildade

seja como a chuva desejada

caindo mansa,

longa noite escura

numa terra sedenta

e num telhado velho.

Que eu possa agradecer a Vós,

minha cama estreita,

minhas coisinhas pobres,

minha casa de chão,

pedras e tábuas remontadas.

E ter sempre um feixe de lenha

debaixo do meu fogão de taipa,

e acender, eu mesma,

o fogo alegre da minha casa

na manhã de um novo dia que começa

SAGRAÇÃO DOS OSSOS

(Bruno Tolentino)

Considerai estes ossos

— tíbios, inúteis, apócrifos —

que sob a lápide dormem

sem prédica que os conforte.

Considerai: é o que sobra

de quem lhes serviu de invólucro

e agora já não se move

entre as tábuas do sarcófago.

Dormem sem túnica ou toga

e, quando muito, um lençol

lhes cobre as partes mais nobres

(as outras quedam-se à mostra,

não dos que estão aqui fora,

mas dos ácidos que os roem

ou do lodo que lhes molha

até a polpa esponjosa).

De quem foram tais despojos

tão nulos e sem memória,

tão sinistros quanto inglórios

em seu mutismo hiperbólico?

Onde andaram? Em que solo

deitaram sêmen e prole?

Foram químicos, astrólogos,

remendões, físicos, biólogos?

Ou nada foram? Que importa

não haja um só microscópio

lhes cevado a magra forma

ou a mais ínfima nódoa?

Existiram. Esse é o tópico

que aqui, afinal, se aborda.

E eis o faço porque, ao toque

de meus dedos em seus bordos,

tais ossos como que imploram

a mim que os chore e os recorde,

que jamais os deixe à corda

da solidão que os enforca,

nem à sanha do antropólogo

que os vê, não como o espólio

do que foi amor ou ódio,

lascívia, miséria e glória,

mas como a lívida prova

de que o sonho foi-se embora

e dele só resta a escória

numa urna museológica.

E, então, me pergunto, a sós:

por que desdenhar o outrora

se nele é que ecoa a voz

do que, no futuro, aflora?

Não bastaria uma rótula

para atestar esse cogito,

ergo sum, aqui e agora,

alheio a qualquer prosódia

ou língua em que se desdobre

essa falácia que aposta

no fundo abismo sem orlas

entre o que vive e o que morre?

Baixa uma névoa viscosa

sobre as pálpebras da aurora.

E ali, de pé, sob a estola

de um macabro sacerdote,

sagro estes ossos que, póstumos,

recusam-se à própria sorte,

como a dizer-me nos olhos:

a vida é maior que a morte.

EU VI UMA ROSA

(Manuel Bandeira)

Eu vi uma rosa

– Uma rosa branca –

Sozinha no galho.

No galho? Sozinha

No jardim, na rua

Sozinha no mundo.

Em torno, no entanto,

Ao sol de meio-dia,

Toda a natureza

Em formas e cores

E sons esplendia.

Tudo isso era excesso.

A graça essencial,

Mistério inefável

– Sobrenatural –

Da vida e do mundo,

Estava ali na rosa

Sozinha no galho.

Sozinha no tempo.

Tão pura e modesta,

Tão perto do chão

Tão longe na glória

Da mística altura,

Dir-se-ia que ouvisse

Do arcanjo invisível

As palavras santas

De outra Anunciação.

DIVINA COMÉDIA (Trecho do Canto I – Paraíso)

(Dante Alighieri)

À GLÓRIA de quem tudo, aos seus acenos,

Move, o mundo penetra e resplandece,

3 Em umas partes mais em outras menos.

No céu onde sua luz mais aparece,

Portentos vi que referir, tornando,

6 Não sabe ou pode quem à terra desce;

Pois, ao excelso desejo se acercando,

A mente humana se aprofunda tanto

9 Que a memória se esvai, lembrar tentando.

Os tesouros, porém, do reino santo,

Que arrecadar-me pôde o entendimento,

12 Serão matéria agora de meu canto.

Faz-me neste final cometimento,

Bom Febo, do teu estro eleito vaso,

15 Que tenha ao louro amado valimento.

Fora-me assaz um cimo do Parnaso;

Daquele e do outro necessito agora

18 Para vencer na liça a que me emprazo.

Cala em meu peito, alenta o que te exora!

Sê como quando a Marsias arrancado

21 Hás do corpo a bainha protetora!

Se, divinal virtude, eu for entrado

Tanto de ti, que a sombra represente

24 Do reino que em minha alma está gravado,

Ao teu querido lenho eu, diligente,

Irei, por ter a c’roa merecida

27 De ti e deste assunto preminente.

Tão rara vez é, Padre, igual colhida

Quando triunfa César ou poeta

30 (Culpa e vergonha do querer nascida)

Que à Délfica Deidade a predileta

Fronde excitar devera alta alegria,

33 Se um coração por tê-la se inquieta.

Grande incêndio em centelha principia;

Voz, após mim, talvez, mais eloqüente

36 Mais graça em Cirra alcance e mais valia!

DEUS

(Casimiro de Abreu)

Eu me lembro! Eu me lembro! – Era pequeno

E brincava na praia; o mar bramia

E erguendo o dorso altivo, sacudia

A branca escuma para o céu sereno

E eu disse a minha mãe nesse momento:

“Que dura orquestra! Que furor insano!

“Que pode haver maior que o oceano,

“Ou que seja mais forte do que o vento?!”

Minha mãe a sorrir olhou pr’os céus

E respondeu: – Um Ser que nós não vemos

“É maior do que o mar que nós tememos,

“Mais forte que o tufão! Meu filho, é – Deus!”

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