Cardeal Scherer: ‘Fratelli tutti é uma síntese amadurecida de todo o ensino social da Igreja’

Cardeal Scherer: ‘Fratelli tutti é uma síntese amadurecida de todo o ensino social da Igreja’

O Arcebispo de São Paulo, Cardeal Odilo Pedro Scherer, participou de mais uma edição do evento Diálogos com a Cidade, na quarta-feira, 25.

Promovido pelo jornal O SÃO PAULO e pela rádio 9 de Julho, o evento foi transmitido pelas plataformas digitais e teve como tema a encíclica Fratelli tutti, do Papa Francisco, sobre.  

Na live, mediada pelo jornalista Filipe Domingues, Dom Odilo interagiu com convidados e internautas sobre a temática da fraternidade e a amizade social à luz da Doutrina Social da Igreja.

O Cardeal explicou que o documento publicado em outubro certamente já estava sendo pensado pelo Pontífice. Porém, o contexto da pandemia foi um novo estímulo para a sua publicação. O Arcebispo destacou, ainda, que a temática desse documento está presente desde o início do pontificado de Francisco.

Encíclica social

“A Fratelli tutti é uma encíclica social, na qual o Papa aborda a sua visão em continuidade com o ensino social da Igreja, dos seus predecessores, sobre as questões sociais, econômicas e que repercutem mais amplamente na vida da sociedade, como, por exemplo, a questão das migrações, da pobreza, do desiquilíbrio ambiental. Naturalmente, a pandemia trouxe um conjunto de novos elementos e experiencia da humanidade que só confirmaram aquilo que já estavam em gestação nas palavras do Papa Francisco, na impostação de seu pontificado”, disse Dom Odilo.

O Purpurado afirmou, portanto, que não o surpreendeu que o Santo Padre escrevesse uma carta sobre a fraternidade, mas chamou sua atenção o fato de Francisco incluir no documento o tema da amizade social, por meio da qual, o Pontífice indica o caminho para a humanidade resolver seus problemas.

Nesse sentido, Dom Odilo observou que se une a essa temática o conceito de “casa comum”, tratado na encíclica anterior, Laudato si’(2015), que também se inspira em São Francisco de Assis. “A fraternidade, da solidariedade, da corresponsabilidade, estão muito presentes no pontificado do Papa Francisco”, acrescentou o Purpurado, sublinhando que considera a Fratelii tutticomo “uma síntese amadurecida de todo o ensino social da Igreja”.

Bom samaritano

O primeiro convidado a dialogar com o Arcebispo foi o Padre Gianpietro Carraro, fundador da Missão Belém, que lhe perguntou sobre o que o Papa propõe nessa encíclica em relação aos pobres e aos migrantes.

Destacando o segundo capítulo da encíclica, recorda a parábola do bom samaritano, com ênfase para a figura daqueles que passam pelo caminho e não se sensibilizam com aquele que pede por socorro na estrada. Contudo, um estranho, o samaritano, passa e se importa, inclina-se sobre o homem caído e o socorre. “Ele faz a sua parte, interessa-se pelo irmão, não fica indiferente diante da dor”, frisou Dom Odilo.

O Arcebispo completou que, em síntese, toda a Fratelli tutti é um convite a tomar a atitude do samaritano, com “olhos abertos, coração sensível”. Referindo-se à realidade específica da pobreza na cidade de São Paulo, o Cardeal enfatizou que essa é uma questão política que deve ser tratada politicamente. Ele relatou que, nas ocasiões em que conversou com os candidatos à prefeitura, ele sempre questionou sobre suas posições a respeito desse tema.

“A pobreza precisa ser vista no conjunto mais amplo, deve ser resolvida mediante a busca de um consenso social, político, para que sejam dados os devidos encaminhamentos… A cidade e o país têm meios para fazer isso. É só haver um querer político e a orientação dos recursos para dar possibilidade para que as pessoas tenham trabalho, moradia, uma vida digna”, frisou o Cardeal.

Busca da verdade

Gabriel de Vitto, estudante de Filosofia e agente da Pastoral Universitária da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), perguntou a dom Odilo como estabelecer o diálogo no ambiente universitário, muitas vezes, marcados pelo relativismo e pelas ideologias.

Dom Odilo observou que a sociedade vive um acirramento ideológico ou polarização, no qual nem sempre há uma efetiva busca da verdade, mas, ao contrário, busca-se a eliminação daquele que pensa diferente.

Esse princípio, destacou o Arcebispo, se baseia a lógica de que o progresso é obtido por meio da violência, enquanto o cristianismo ensina que a força que move a humanidade é o amor, a solidariedade. “Nos debates de ideias não deve haver vencedores e vencido, mas a vitória da verdade, mas luz sobre a questão tratada, em que todos ganham de alguma forma”, completou.

Nesse sentido, Dom Odilo recomentou que o tema a encíclica seja levado para o ambiente acadêmico, por meio de estudos e reflexões que permitam que seu conteúdo seja aprofundado.

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Cultura da amabilidade

Ziza Fernandes, cantora, professora e idealizadora da Oficina Viva Produções, destacou o número 224 da encíclica, no qual o papa afirma que “a amabilidade é uma libertação da crueldade que às vezes penetra nas relações humanas, da ansiedade que não nos deixa pensar nos outros”, e perguntou como a Igreja pode fomentar a cultura amabilidade.

Na resposta, o Cardeal propôs uma reflexão sobre a arte na atualidade que, muitas vezes, também está pela violência, chegando à exploração do grotesco. “Arte deveria ser o cultivo do que é belo, bom e verdadeiro”, disse, salientando que mesmo quando expressa o drama e a dor, é possível levar em conta esses aspectos. Em seguida, o Arcebispo motivou os artistas cristãos a promoverem a arte que gere fraternidade.

‘Política melhor’

O último convidado a interagir com o Arcebispo foi o professor Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP, perguntou sobre como os cristãos podem contribuir efetivamente com uma “política melhor”, como propõe o Papa na encíclica.

Dom Odilo afirmou que é importante reconhecer que não é possível esperar que a política seja completamente “limpa” para que os cristãos possam entrar.

 “A política é o campo de todos, onde devemos desfazer a ideia de que só encontraremos pessoas que pensam como nós, que tenham as nossas convicções… Na política está presente a pluralidade, a diversidade de pensamentos e convicções não só religiosas, mas filosóficas, ideológicas, econômicas. Além dos mais variados interesses que se traduzem, de alguma forma, na representação e na gestão”.

O Cardeal acrescentou que uma política pode ser melhor na medida em que boas pessoas ingressam nesse campo. Para isso, um papel importante da Igreja é a formação de pessoas idôneas para a atuação política, mesmo que não seja partidária ou por meio de cargos públicos. “Existem formas de exercícios da política no interno das nossas comunidades, nas escolas, no convívio no bairro, inclusive, no condomínio. Todos são espaços de vida política”, completou.

Vencer o individualismo

Na conclusão da transmissão, Dom Odilo ressaltou que um aspecto que perpassa a nova encíclica é a fraternidade e amizade social como superação do individualismo.

“O Papa propõe para nós uma grande conversão cultural por meio da solidariedade, da fraternidade, da amizade, do cuidado. Suas palavras são expressamente importantes para o nosso tempo, uma luz não só para os católicos, mas nós devemos toma-las em primeiro lugar”.    

Assista à íntegra do Diálogos com a cidade sobre a Fratelli tutti:

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