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‘FRATELLI TUTTI’: reconhecer o outro e repensar as relações entre pessoas e povos

Em nova encíclica social, Papa Francisco defende ampla revisão dos valores que inspiram a vida no mundo globalizado

‘FRATELLI TUTTI’: reconhecer o outro e repensar as relações entre pessoas e povos
Papa Francisco assina nova Encíclica sobre o altar do túmulo de São Francisco, em Assis (Foto Vatican Media)

Inspirado nas palavras de São Francisco de Assis, o Papa Francisco defende que um mundo mais justo e fraterno só pode ser construído se repensarmos nossas relações, tanto as pessoais quanto o convívio entre nações. Devemos lembrar que sem o outro não somos nada: “O amor rompe correntes que nos isolam e nos separam, construindo pontes”, diz o Sumo Pontífice em sua terceira encíclica, Fratelli Tutti (Todos irmãos), publicada neste domingo, 4.

O documento de oito capítulos é uma abrangente análise das relações humanas. Definido pelo Papa mesmo como “encíclica social”, o texto reúne pensamentos já expostos em outras ocasiões, os organiza, mas também desenvolve alguns elementos novos, em sintonia com a tradição da Igreja. 

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O texto tem como pano de fundo a crise atual, a pandemia de COVID-19, mas ela aparece apenas como contexto histórico, escancarando problemas já existentes, como a desigualdade entre nações, a indiferença com os mais pobres, as guerras, o drama dos migrantes, e os calorosos confrontos das redes sociais, por exemplo.

O remédio contra o egoísmo e o individualismo são a fraternidade e a “amizade social”, uma forma de amor a ser vivida não só em palavras, mas, também, em fatos, no dia dia. Para tanto, é preciso reconhecer que “estamos todos no mesmo barco”, que a Terra “é nossa casa comum”, e que somente resolvendo os problemas dos outros teremos os nossos próprios simplificados.

Como é típico do Papa Francisco, em Fratelli Tutti, os pobres e “descartados” assumem grande protagonismo. Além do Santo de Assis ser diretriz, o Papa afirma que a “prepotência dos mais fortes” precisa dar lugar a sociedades mais conscientes das “características e processos próprios” vividos na base.

A seguir, O SÃO PAULO reúne algumas chaves de leitura para um primeiro contato com a encíclica, que, apesar de crítica, também faz um audacioso “convite à esperança”.

Menos muros, mais pontes

Citando o poeta e compositor brasileiro Vinícius de Moraes, o Papa Francisco afirma: “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida” (n. 215). Promover a chamada “cultura do encontro” é um objetivo claro da encíclica, pois “como povo, nos apaixona tentar nos encontrar, buscar pontos de contato, construir pontes, projetar algo que inclua a todos”.

Esse “estilo de vida” a que todos somos chamados vem sendo desafiado por uma lógica oposta: a da “cultura do descarte”. Ela é feita da tentação de levantar muros, “no coração, muros na terra, para evitar o encontro com outras culturas, com outras pessoas”. (n. 27)

Também compõem essa mentalidade “descartável” a falsa noção de que uma boa vida se define em “consumir sem limites” e “cuidar de si mesmos”. Alimentam essa cultura mecanismos políticos que buscam “semear o desânimo e despertar uma desconfiança constante [em relação aos outros], mesmo que disfarçada por detrás da defesa de alguns valores”. (n. 15 e 17)

As redes sociais, a quem o Papa dedica duras críticas, dão a “ilusão” de que há verdadeira comunicação digital entre as pessoas e povos. Na verdade, ali “o respeito ao outro se despedaça e, desse modo, ao mesmo tempo que apago, ignoro e mantenho afastado, posso despudoradamente invadir sua vida até o extremo” (n.42), apontando, inclusive, para os que se dizem cristãos, mas ajudam a difundir “movimentos digitais de ódio e destruição”.

Vítimas do descarte

Assim, “partes da humanidade parecem sacrificáveis em benefício de uma seleção que favorece a um setor humano digno de viver sem limites” (n.18). Como exemplo de vítimas, Francisco menciona os pobres, os deficientes, os que “ainda não são úteis” (os não nascidos) e os “que já não servem” (os idosos).

Nesse sentido, ele diz que as mulheres sempre sofrem mais, especialmente como “vítimas da violência e de abusos”, também quando afastadas dos filhos e privadas da infância (n. 227 e 261).

Em diversas partes do documento, o Papa também cita o histórico – e há muito inaceitável – problema do racismo. “É um vírus que muda facilmente e em vez de desaparecer se dissimula, mas não para de reaparecer.” (n.20) Em suma, os direitos humanos ainda não são universais.

Os muros, inclusive físicos, procuram afastar os diferentes. Francisco propõe maior colaboração para ajudar os países de origem dos migrantes – combatendo a fome e a guerra, por exemplo –, mas, também, para acolher com dignidade os que migram. “Nunca se dirá que eles não são humanos, mas, na prática, com as decisões e o modo de tratá-los, se expressa que são considerados menos valiosos, menos importantes, menos humanos.” (n.39)

‘FRATELLI TUTTI’: reconhecer o outro e repensar as relações entre pessoas e povos
(Foto Vatican Media)

O perdão na solução de conflitos

Uma das partes mais originais do documento é o capítulo 7, em que o Papa Francisco propõe “percursos para um novo encontro”. Ele apresenta a misericórdia e o perdão, ou esforços de reconciliação, como resposta para conflitos sociais e globais. “O perdão não implica o esquecimento”, pondera, mas o perdão ajuda a impedir que a mesma “força destruidora” domine a pessoa ofendida e, portanto, evita a vingança.

“O perdão é precisamente o que permite buscar a justiça sem cair no círculo vicioso da vingança nem na injustiça do esquecimento” (n.252), afirma. “A verdadeira reconciliação não escapa do conflito, mas alcança-se dentro do conflito, superando-o por meio do diálogo e de negociações transparentes, sinceras e pacientes.” (n. 244).

O individualismo e a percepção de autossuficiência também afetam as relações entre as nações, e não só entre indivíduos. O Papa Francisco propõe uma nova lógica nas relações internacionais, que coloque o ser humano, e não os territórios e propriedades, em primeiro lugar.

Ele também questiona que até hoje países pobres tenham dívidas tão altas com os ricos, o que lhes impede de evoluir (n. 120 e 126). Para regular essas relações, a Organização das Nações Unidas (ONU) precisa ser reformada, favorecendo os mais fracos.

‘Guerra justa’ e pena de morte

O Papa Francisco encerra qualquer dúvida remanescente sobre o conceito de “guerra justa” – que tentaria justificar a guerra como meio legítimo – e afirma que “toda guerra deixa o mundo pior do que o encontrou”. (n. 260 e 261)

Fazendo memória de tragédias humanas do passado – ele cita o Holocausto (Shoah), os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki e as perseguições e massacres étnicos –, diz que sempre fará maior bem à humanidade encontrar caminhos de perdão e fraternidade.

Também recupera a evolução do ensinamento da Igreja sobre a pena de morte, citando São João Paulo II, e oficializa em sua encíclica a certeza de que não há espaço na doutrina para essa forma capital de punição, pois os sistemas penais têm diversos meios mais humanos e eficazes. Francisco também chama a prisão perpétua de “pena de morte oculta”.

“Todos os cristãos e pessoas de boa vontade são chamados, portanto, a lutar não só pela abolição da pena de morte, legal ou ilegal, e em todas as suas formas, como também com o fim de melhorar as condições carcerárias, em respeito à dignidade humana das pessoas privadas de liberdade.” (n.268)

O papel das religiões

Se São Francisco é a primeira inspiração para o documento porque “semeou paz por todas as partes”, também o é pela famosa reunião com o sultão Malik-el-Kamil, no Egito, com quem estabeleceu diálogo amigável, em 1219.

Em paralelo, o Papa Francisco recorda sua amizade com o Grande Imã de Al-Azhar, Ahmad, Al-Tayyeb, com quem assinou o “Documento sobre a Fraternidade Humana”, em 2019. Muitas das linhas de Fratelli tutti são traçadas por esse outro texto. A encíclica, conforme o próprio Papa, “não pretende resumir a doutrina sobre o amor fraterno, mas deter-se sobre sua dimensão universal, em sua abertura a todos”. (n.6)

É justamente por crerem em uma “verdade transcendente” orientadora das relações que as religiões devem ser admitidas no debate público sobre questões coletivas. “Deve haver lugar para a reflexão que provém de um fundo religioso que recolhe séculos de experiência e sabedoria” (n.275), justifica o Papa Francisco.

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