Com Síndrome de Down, Miguel Lopes, 11 anos, emociona fiéis, aproxima famílias da Igreja e prova que não há limites para o amor de Deus

Dono de um sorriso largo, Miguel Lopes, 11, chega ao altar com passos firmes. Com cuidado, veste a túnica vermelha e a sobrepeliz branca e ocupa seu lugar entre os coroinhas nas missas dominicais, às 10h30, na Paróquia Santa Rosa de Lima, em Piracicaba (SP). “Eu amo ser coroinha e servir no altar”, disse, feliz, à reportagem do O SÃO PAULO.
Filho de Leandro e Tássia Lopes e irmão da Alice, 5, Miguel despertou o interesse em ser coroinha a partir da sugestão da mãe, e vendo outras crianças no altar. Ele fez a catequese inclusiva na Paróquia e recebeu o sacramento da Eucaristia. Devoto de São Miguel Arcanjo, confidencia: “Tenho um terço de São Miguel e rezo a oração do Anjo da Guarda todas as noites”.
“Eu gosto de dançar, de tirar fotos, de brincar com a irmã, de estudar e de ir à missa”, disse o pequeno, que também atua como modelo infantil e deseja ser youtuber quando se tornar adulto.
‘NOSSO MILAGRE’
“Entre o sexto e sétimo mês de gestação, veio o diagnóstico: cardiopatia congênita e agenesia do verme cerebelar, estrutura responsável pelo equilíbrio e, se comprometida, pela síndrome de Down. O médico falou tudo de ruim que poderia acontecer e disse que, se eu quisesse abortar, eu poderia”, relembrou a mãe.
“Miguel nasceu. Operou o coração. Aprendeu a andar com três anos e meio. Recentemente, passou por um cateterismo. Em momento algum a gente perdeu a fé e a esperança. Entregamos tudo nas mãos de Deus. E nosso milagre é inspiração constante”, disse Tássia Lopes, emocionada.
DO CESTO DE OFERTAS A COROINHA
“Primeiro, na missa, eu segurava o cesto das ofertas. A cada oferta eu falava, ‘amém’” recordou Miguel. “Como coroinha, gosto de estar no altar perto do padre e dos colegas”, disse.
“Ele começou ajudando a segurar o cesto das ofertas. Quando abriram as inscrições para os coroinhas, eu expliquei para ele o que significava servir no altar e ele quis participar,” contou Tássia.
Miguel realizou toda a formação com as demais crianças. Participou dos encontros, esteve presente nos ensaios, foi acolhido pelos colegas.
O dia da investidura, em que Miguel recebeu a veste de coroinha, foi marcante para a família. “Foi uma das maiores emoções da nossa vida. Uma prova de que os milagres existem e de que Deus tem um propósito em tudo”, recordou a mãe.
ALEGRIA DE SERVIR
Padre Edivaldo Nascimento, Pároco da Paróquia Santa Rosa de Lima, destacou que conhece a história de Miguel desde quando o menino nasceu: “Acompanho a história da família. Toda vez que olho para o Miguel servindo no altar, eu penso: ‘Que bênção é a fé. Que bênção é acreditar que o milagre existe’. E o milagre acontece quando se unem a fé, a medicina, os cuidados e o amor da família”.
“O Miguel tem uma alegria muito grande em servir no altar. Ele está sempre animado, disposto, quer participar e não apresenta dificuldade de aprender ou estar junto. O mais bonito é ver essa consciência tão pura de estar perto de Jesus”, frisou o Sacerdote.
“A presença dele nos ensina o quanto é importante olhar para o outro naquilo que ele é. Muitas vezes, a gente acha que sabe tudo e acaba tendo dificuldade de simplesmente olhar e escutar. E é justamente isso o mais necessário em um trabalho de acolhida”, destacou.
INSTRUMENTO DE EVANGELIZAÇÃO
Os vídeos de Miguel servindo no altar começaram a circular nas redes sociais e, rapidamente, alcançaram milhares de pessoas. A repercussão revelou algo que a família não esperava: a história do menino estava respondendo a perguntas silenciosas de muitas outras famílias.
“Recebo mensagens de mães dizendo que nunca tinham visto uma criança com síndrome de Down servindo na Igreja. Algumas contam que voltaram para a missa depois de assistir aos vídeos dele”, relatou Tássia.
O testemunho de Miguel tornou-se “um instrumento de evangelização. Não por palavras elaboradas, mas pela linguagem mais antiga da fé: o exemplo vivido”, disse a mãe.
“As pessoas precisam entender que as ‘crianças especiais’ têm capacidade de aprender, rezar, servir, amar e viver a fé como qualquer outra pessoa”, enfatizou Tássia. “Ele entende o que está fazendo e vive isso com muito amor”, prosseguiu. “A Igreja é lugar para todos. O Miguel é um menino que tem síndrome de Down, mas não se resume a ela”, sublinhou.
Por fim, Tássia Lopes assegurou que o exemplo de vida do filho materializa o inexplicável da fé: “Para muitas pessoas, é muito difícil entender como uma criança com deficiência cognitiva consegue entender o que não vê. Mas, quem de nós vê Deus? Ele não é tocável. Muitos se perguntam como o Miguel entende tudo a ser feito, como ele sabe a hora que tem de rezar? Como que ele sabe que depois que comunga, tem de ajoelhar e rezar? Tudo isso é prova de que não há limites, que todo mundo é capaz”.




