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Cessar-fogo é desrespeitado e conflito continua em Nagorno-Karabakh

Comunidade armênia no Brasil afirma que governo do Azerbaijão tem atacado zonas desmilitarizadas e disseminado fake news

Cessar-fogo é desrespeitado e conflito continua em Nagorno-Karabakh
Catedral armênia de Stepanakert, em Nagorno-Karabakh, foi atingida por ataques do Azerbaijão (foto: Davit Ghahramanyan/Ministério dos Negócios Estrangeiros da Armênia)

A população de Nagorno-Karabakh, na região do Cáucaso, localizada entre a Europa Oriental e a Ásia, vive dias de tensão desde 27 de setembro, em razão da retomada do conflito entre o Azerbaijão e a Armênia naquele território, cuja maioria da população é de armênios cristãos, mas a área pertence ao Azerbaijão, conforme definição geográfica feita pelo governo da extinta União Soviética (URSS) na década de 1920.

Na sexta-feira, 9, em um acordo mediado pelo governo russo, os governos da Armênia e do Azerbaijão assinaram um cessar-fogo, que entrou em vigor no sábado, 10, às 12h (no horário local). Horas depois, porém, novas explosões foram sentidas na cidade de Stepanakert, a capital de Nagorno-Karabakh. Desde o dia 27, já foram registradas cerca de 600 mortes, destas ao menos 67 de civis azeris e armênios, números que podem ser maiores, já que o Azerbaijão não tem dado informações sobre os mortos de suas tropas.

Origens do conflito

Os armênios habitam Nagorno-Karabakh há mais de 5 mil anos e, desde o final da década de 1980, buscam a independência da República de Artsakh, o nome original da localidade. Desde então, Armênia e Azerbaijão, ex-repúblicas soviéticas, duelam pelo território. Em 1994, um cessar-fogo foi acordado entre os países, com mediação dos Estados Unidos, França e Rússia. Os conflitos nunca acabaram por completo, porém não tinham sido retomados ao estágio atual.

“Os armênios já estavam nessas terras antes da constituição e expansão do Império Turco Otomano (1299 a 1923), permanecendo fiéis ao Cristianismo durante os mais de 600 anos de dominação islâmica, e lá continuaram a viver, resistindo heroicamente às primeiras investidas violentas do Império Turco Otomano (1894 a 1896)”, explicou ao O SÃO PAULO Elie Chadarevian, membro do Conselho Administrativo da Paróquia Armênia Católica São Gregório Iluminador, do Exarcado Apostólico Armênio para a América Latina.

“Essas perseguições acentuaram-se significativamente durante os quatro anos de duração da Primeira Grande Guerra (1914 a 1918), culminando com a morte de expressiva parte da elite cultural armênia (que tem no dia 24 de abril de 1915 sua data-marco) e perseguição genocida à sua população em todas as províncias do império até 1922, quando a Armênia passou a integrar a URSS”, prosseguiu, destacando que é justa a reivindicação de autonomia dos armênios em Artsakh.

Preocupação

O Conselho Administrativo da Paróquia Armênia Católica São Gregório Iluminador e outras instituições armênias no Brasil publicaram, em setembro, uma carta de repúdio aos ataques do Azerbaijão à República da Armênia e Artsakh.

“A comunidade armênia do Brasil, formada por mais de 100 mil brasileiros de descendência armênia, condena o uso da violência e agressões promovidas pelo governo do Azerbaijão e convida a todos que se unam na divulgação dos graves fatos, agravados ainda mais em um momento em que as atenções do mundo inteiro estão voltadas ao combate à ameaça do coronavírus. Ataques à Armênia e Artsakh, especialmente de um país aliado à Turquia, trazem à memória os trágicos eventos ocorridos no início do século passado, quando mais de 1,5 milhão de armênios foram assassinados no genocídio promovido pelo governo turco-otomano”, consta em um dos trechos da nota.

Chadarevian lembrou, ainda, que o Azerbaijão tem mentido à comunidade internacional ao negar que recebe o apoio da Turquia e ao dizer que as terras de Artsakh não são armênias, que os armênios iniciaram as agressões e que se recusam a negociações.

Ainda na nota, a comunidade armênia no Brasil lembra que “a distorção dos fatos e o incentivo ao conflito por parte do Azerbaijão tem levado a episódios de violência, inclusive em outras partes do mundo, com escolas armênias e descendentes de armênios sofrendo agressões na Rússia, Ucrânia, Alemanha e Estados Unidos”. Também é lembrada a ameaça do governo azeri de bombardear a usina nuclear de Medzamor, na Armênia.

Chadarevian recordou que o Azerbaijão tem feito o bombardeio em áreas residenciais e inclusive a Catedral armênia de Stepanakert, construída no século XIX, já foi atingida. Ele aponta, ainda, que o governo azeri também parece não se preocupar com a própria população, já que nas áreas militarizadas da fronteira daquele país não houve a retirada dos civis. “De forma bem diferente, o governo de Artsakh evacuou grande parte de sua população civil das áreas de conflito, procurando minimizar as consequências para civis. Infelizmente, porém, houve ataque azeri em regiões desmilitarizadas”, comentou.  

Em oração pela paz

Em 27 de setembro, o Papa Francisco se reuniu no Vaticano com o Patriarca Karekin II, líder da Igreja Apostólica Armênia, e, naquele mesmo dia, no Angelus, o Pontífice rezou pela paz no Cáucaso e exortou que as partes em conflito “façam gestos concretos de boa vontade e fraternidade que possam levar à solução dos problemas, não por meio do uso da força e das armas, mas pelo diálogo e negociações”.

No começo deste mês, patriarcas e líderes das Igrejas em Jerusalém expressaram o desejo de que lideranças internacionais atuem para acabar com a violência em Nagorno-Karabakh: “Mais uma vez, pessoas inocentes são as principais vítimas e muitos homens, mulheres e crianças estão desalojados por causa dos horrores da guerra”, escreveram em declaração conjunta.

A todas as dioceses católicas do Brasil, Elie Chadarevian pede que “incluam em suas intenções nas missas diárias a paz no mundo, mormente na região do Cáucaso, onde a Armênia, primeira nação a adotar o Cristianismo como religião de Estado, sofre graves e reiteradas ameaças violentas”. Ele deseja, ainda, que as pessoas busquem se informar sobre a verdade dos acontecimentos na região.

(Com informações de G1, UOL, AS Syria News e Vatican News)

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