Missão Belém: 15 anos sendo família para quem não tem família

Missão Belém: 15 anos sendo família para quem não tem família
Luciney Martins/O SÃO PAULO

Reviver o mistério de Belém: “Jesus que nasce pobre no meio dos pobres, numa mísera gruta, acolhido com carinho por Maria e José”. Foi com esse objetivo que, em 2005, surgiu, em um pequeno barraco de madeira, na comunidade Nelson Cruz, no bairro do Belenzinho, na zona Leste de São Paulo, a Missão Belém, por iniciativa do Padre Gianpietro Carraro e da Irmã Cacilda da Silva Leste.

Nesses 15 anos, mais de 80 mil pessoas foram acolhidas e grande parte se deve aos próprios ex-irmãos de rua restaurados e que se tornaram missionários. Hoje, a missão abriga 700 doentes e 1,3 mil irmãos de rua. No total, são 2,2 mil pessoas acolhidas em 180 casas, tudo isso feito de forma gratuita e voluntária.

RESTAURAR VIDAS

“Nós só temos a oferecer uma amizade e um abraço sem medo, e isso os órgãos públicos não podem dar. Iniciamos um diálogo familiar, lemos um trecho bíblico e fazemos uma oração. As pessoas, muitas vezes, se sentem tocadas, seja pelo relacionamento humano, seja pela própria oração, e assim escolhem sair da Cracolândia e vir conosco”, disse Padre Gianpietro Carraro ao O SÃO PAULO.

O Sacerdote reforçou que essa caminhada de restauração das drogas e do álcool é proposta durante seis meses. Após vivenciar a experiência em uma das casas, são convidados a refletir se desejam retornar à sua família ou ao convívio social; cerca de 53% desejam permanecer e ajudar na acolhida dos irmãos e no cuidado dos doentes.

“Deus nos ajuda a entrar na situação deles, sentar no chão da calçada e descer onde eles estão; nesse olhar, começa esse relacionamento, e isso é algo muito inspirado por Deus. É um ir ao encontro. Eles falam que muitas pessoas levam marmitas, mas não permanecem; nós ficamos”, disse à reportagem a Irmã Cacilda.

TRANSMITIR O AMOR E O CUIDADO

Missão Belém: 15 anos sendo família para quem não tem família
Luciney Martins/O SÃO PAULO

 A pandemia do novo coronavírus está sendo uma grande preocupação para as casas de acolhida, pois a maior parte dos irmãos é idosa. Por isso, foram tomadas medidas rígidas de isolamento, controle de visitas e de higiene.

Sobretudo neste período de pandemia, foram recebidas muitas doações de máscaras, álcool em gel, além dos alimentos e verduras que chegam diariamente por meio de pessoas, instituições ou paróquias.

“Insistimos muito no fato de que a Missão Belém é uma obra de evangelização e não de assistência social, queremos transmitir o amor de Deus e fazer sentido às pessoas. E esse amor também é comida, roupa, cuidados médicos etc.”, completou o Padre Gianpietro.

UM LOCAL DE ACOLHIDA

O Edifício Nazaré, localizado na Praça da Sé, desde 2018 acolhe o projeto “Vida Nova”, que diariamente, por períodos de três dias, recebe pessoas que desejam deixar as ruas ou a dependência química por meio do projeto da Missão Belém.

Diego da Silva Pereira, 22, chegou do Maranhão com 18 anos para trabalhar em São Paulo como padeiro, mas começou a se envolver com álcool e drogas. O jovem perdeu o emprego, alguns amigos o acolheram em suas casas, mas o vício o levou até a Cracolândia.

Foi quando Pereira, em busca de comida, chegou ao Edifício Nazaré. A intenção era ficar apenas três dias, mas a acolhida e o cuidado dos missionários o impressionaram. Ele foi enviado ao Sítio São Miguel Arcanjo, em Jarinu (SP), e foi ali que, ao participar dos momentos de oração e cuidar dos doentes, fez uma grande restauração.

“Não consigo me imaginar sem cuidar dos idosos. Meu serviço era sempre pesado e agora cuido de vidas, algo que nunca passou pela minha cabeça. Deus está me capacitando para ter essa responsabilidade, e nisso estou muito feliz; a missão é uma família que eu nunca tive”, disse Pereira. Hoje ele é responsável pelos medicamentos na Casa Guadalupe.

 O CUIDADO COM OS IDOSOS

Missão Belém: 15 anos sendo família para quem não tem família
Luciney Martins/O SÃO PAULO

A Casa Guadalupe, no bairro do Belenzinho, acolhe atualmente 96 moradores, 64 deles enfermos, sendo a grande maioria idosos. Cerca de 30 moradores ajudam no cuidado com os doentes, grande parte recuperados.

Emanuel Messias Guedes do Nascimento, 42, é o coordenador da casa. Paraibano, ele chegou a São Paulo com 17 anos, trabalhou, fez alguns cursos, mas acabou se entregando ao vício das drogas e morou durante cinco anos na rua. Em 2007, se surpreendeu quando, no local onde dormia, encontrou o Padre Gianpietro, Irmã Cacilda e os missionários da Missão Belém, que passaram aquela noite com ele e os demais companheiros em situação de rua. Aquela atitude mexeu muito com Nascimento, que resolveu passar um período no Sítio de Jarinu. Já são 13 anos de caminhada com a Missão Belém.

“Na rua tudo é descontrolado e aqui tem uma pessoa e acomunidade às quais devo obediência; diante das pessoas queme acompanham, tenho que fazer as coisas da maneira certa. Isso faz com que eu me torne uma pessoa melhor, me faz saber que o irmão aqui de casa depende de mim”, comentou Nascimento.

MISSÃO NO HAITI

Padre Gianpietro foi ao Haiti em 2010, logo após o terremoto que devastou o país. Com a Irmã Cacilda, iniciou no país um projeto que atende 1,8 mil crianças e adolescentes de 0 a 15 anos durante dez horas diárias.

O Centro Zanj Makenson desenvolve atividades e projetos na área da educação, saúde e profissionalização para os jovens. Além da Catequese diária, os alunos têm atividades pedagógicas, esportivas e lúdicas, incluindo cinco refeições.

Também há um centro nutricional e uma enfermaria que acompanham cerca de 60 crianças com desnutrição. Há um projeto de construção de um centro-escola: o objetivo é atender 3 mil crianças e adolescentes nos próximos anos.

(Sob supervisão de Daniel Gomes)

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