A Igreja e a farmácia estão mais próximas do que você imagina

Ao longo da história do Brasil, sacerdotes e religiosas cultivaram plantas e produziram medicamentos para aliviar os males de saúde das pessoas

Na Idade Média, por exemplo, as boticas mais famosas eram mantidas por congregações religiosas, que desenvolviam fármacos a partir de plantas (foto: Nataliya Vaitkevich/Pexels)

Ao longo dos séculos, o desenvolvimento da medicina e, consequentemente, da farmácia, foi essencial para que a humanidade superasse doenças graves, epidemias e todo tipo de enfermidade e para que se buscasse, sempre mais, qualidade de vida para todos.

A pandemia de COVID-19 mostrou como esse progresso é essencial para a resolução de situações difíceis que colocam a vida humana em risco, como é o caso do coronavírus.

A Igreja Católica, desde os seus primórdios, contribui para o desenvolvimento da Medicina, da farmácia e de medicamentos. No Brasil, por exemplo, os sacerdotes da Companhia de Jesus – os Jesuítas – foram os primeiros boticários, ou seja, aqueles que produziam, a partir das plantas, medicamentos para aliviar os males da saúde do povo.

Em entrevista ao O SÃO PAULO, Letícia Sarturi Pereira, farmacêutica, mestra em Imunologia pela Universidade de São Paulo (USP) e doutora em Biociências e Fisiopatologia pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), além de membro da União Pró-Vacina e professora universitária, retomou alguns fatos históricos que demonstram a atuação da Igreja Católica em diferentes áreas da medicina.

Pela cura corporal

Letícia recordou que as histórias dos medicamentos e da farmácia estão ligadas às religiões – e a Igreja Católica teve um papel importante para a profissão do farmacêutico –, à criação de medicamentos e, de forma geral, à preservação da saúde humana.

“O termo boticário foi usado pela primeira vez pelo Papa Pelágio II, referindo-se a monges do século VI, e só foi aplicado a leigos por volta do século XIII. Os boticários em algumas cidades atuavam, inclusive, como médicos. Eles tinham jardins para cultivar plantas, laboratórios e locais próprios para produzir os medicamentos e entregá-los às pessoas que os procuravam. Na Idade Média, as boticas mais famosas eram dos Cônegos de Santo Agostinho, dos Dominicanos e da Companhia de Jesus”, explicou.

No Brasil, por sua vez, os Jesuítas tiveram papel de destaque na manipulação das plantas nativas para produzir medicamentos.

“São José de Anchieta, entre 1560 e 1570, detalhou as plantas comestíveis e medicinais do Brasil para o seu Superior-Geral da Companhia de Jesus. Ele falou muito, por exemplo, da hortelã-pimenta, utilizada contra indigestão, para aliviar nevralgia – que são dores nos nervos –, reumatismo e doenças nervosas. Exaltou as qualidades do capim-rei, do ruibarbo-do-brejo, da ipecacuanha-preta, que servia como purgativo, do bálsamo de copaíba, usado para curar feridas, e da cabreúva-vermelha. Foi um padre importante para descrever os medicamentos, falar das riquezas das plantas medicinais e dos seus usos”, descreveu Letícia, que é roteirista e apresentadora do podcast “Escuta a Ciência!”.

Sob a orientação dos padres, muitas boticas foram instaladas no Brasil. “Várias delas na Bahia, em Olinda (PE), no Recife (PE), Maranhão, Rio de Janeiro e em São Paulo. A mais importante foi a da Bahia, que se tornou um centro de distribuição para outras províncias. Podemos dizer que os primeiros boticários brasileiros foram padres e religiosos. Os Jesuítas, em suas casas e colégios, criavam boticas para ajudar o povo a aliviar e curar as doenças à época”, continuou.

Letícia salientou o fato de que o papel da Igreja no conhecimento científico da área da Saúde é muito marcado na história. Lembrou, também, que nos conventos e mosteiros, tanto femininos quanto masculinos, não era diferente: monges, padres e monjas estudavam sobre as doenças e suas curas e contribuíam com o desenvolvimento da farmácia.

“Muitas plantas, utilizadas para a produção de medicamentos e até mesmo para a alimentação, podiam ser encontradas nos mosteiros. As mais conhecidas por nós, alfazema, tomilho, alecrim e valeriana, eram cultivadas nesses lugares, que também mantinham farmácias e hospitais e eram referência para o restabelecimento da saúde, sobretudo na Idade Média. Além disso, nas universidades, os cursos de Farmácia e Medicina eram, em sua maioria, vinculados à Igreja Católica. Medicamentos foram manipulados pela primeira vez por padres; e, ao longo da história, muitos outros fatos associados à saúde humana estavam ligados aos mosteiros”, afirmou.

Ela recordou, ainda, que Mendel (Gregor Mendel, nascido em Heizendorf, na Áustria, no ano de 1822, considerado hoje o pai da genética por ter sido o primeiro cientista a descobrir os mecanismos básicos da hereditariedade), fez todos os seus experimentos dentro dos mosteiros.

“No Brasil, temos o própolis, que é uma mistura complexa, formada por uma resina e um bálsamo coletado pelas abelhas a partir de ramos e flores, e cuja existência só foi possível por meio da inserção de uma espécie de abelha trazida de Portugal para o Brasil pelo Padre Antonio Carneiro, a Apis mellifera. Foi assim que conseguimos ter a espécie que forma a colônia e da qual se tornou possível extrair o própolis. Ainda hoje, essa é a espécie de abelha predominante no Brasil”, continuou Letícia.

Ontem e hoje

Os padres ajudaram não somente na abertura das escolas e universidades de Farmácia e Medicina, ou como boticários e médicos, mas, também, como cientistas e pioneiros em pesquisas. “Ao longo do tempo, vimos a Igreja Católica envolvida em ações que apoiam o conhecimento científico e ajudam o ser humano a ter uma melhor qualidade de vida, prevenir doenças e manter a saúde física”, disse Letícia.

Ela apontou pastorais como a Pastoral da Criança e a Pastoral da Saúde, que são exemplos de órgãos eclesiais preocupados com a saúde de crianças e adultos. “Sem contar o apoio da Igreja para conter epidemias, como no caso da H1N1 e, hoje, a pandemia da COVID-19. Afinal, Deus quer o nosso bem-estar e a Igreja tem feito o papel de propagar e promover a saúde e o conhecimento científico que salva vidas”, concluiu Letícia.

No caminho certo

Andressa da Costa Valadares, 29, é farmacêutica e trabalha em uma farmácia de uma grande rede na zona Sul de São Paulo.

“Fiquei muito contente quando, ainda na faculdade, descobri o quanto a Igreja Católica tinha sido importante no desenvolvimento da farmácia. Nasci e cresci em uma família católica, e minha mãe colocava o copo d’água perto do rádio para que a água fosse abençoada e nos curássemos de todo mal. Mas, para além disso, saber o quanto a Igreja teve um papel essencial na área que escolhi me deu muita inspiração para seguir o caminho”, disse Andressa.

A jovem salientou também o fato de que a religião e a espiritualidade que ela busca cultivar ajudam em momentos difíceis. “Quando as pessoas chegam muito nervosas à farmácia e preciso acalmá-las ou quando fico em dúvida acerca de um aconselhamento, por exemplo, sempre recorro à fé. É claro que o conhecimento técnico é muito importante, mas, sem dúvida, a fé é um aliado para a recuperação e o restabelecimento da saúde, sobretudo quando se trata de casos graves”, continuou.

CARTA DE SÃO JOSÉ DE ANCHIETA

“Há diversas árvores de frutos excelentes para comer-se, muitos de suavíssimo cheiro, e de mui deleitável sabor. Úteis á Medicina não ha só muitas árvores, como raízes de plantas; direi, porém, alguma cousa, máxime das que são proveitosas como purgantes. Há uma certa árvore, de cuja casca cortada com faca, ou do galho quebrado, corre um líquido branco como leite, porém mais denso, o qual, se beber em pequena porção, relaxa o ventre e limpa o estômago por violentos vômitos: por pouco, porém que exceda na dose, mata. Deve-se, enfim, tomar dele tanto quanto caiba em uma unha e isso mesmo diluído em muita água; se não se fizer assim, incomoda extraordinariamente, queima a garganta e mata. Há uma certa raiz, abundante nos campos, utilíssima para o mesmo fim; raspa-se e bebe-se misturada com água; esta, se bem que provoque o vômito com bastante violência, todavia bebe-se sem perigo de vida. Há, também outra, chamada vulgarmente marareçó; as suas folhas parecem as do bordo, a raiz pequena e redonda, que se come assada ou bebe-se esmoida com água, exposta por uma noite ao sereno. Descobriu-se ultimamente outra, que é tida em grande estima e com razão. Esta é oblonga e delgada, contundida e deixada de infusão em água pelo espaço de uma noite, bebe-se de manhã sem dificuldade, não causa náusea, nem produz fastio; desembaraça, porém, o ventre com abundante fluxo, que cessa logo que se tome algum alimento, o que é comum ás de que falei há pouco.”

Trecho da carta de São José de Anchieta, disponível em Carta de São Vicente

A HISTÓRIA DA FARMÁCIA

Acervo do Centro de Memória da Farmácia

A história da farmácia acompanha a da humanidade. Antes de 1550 a.C., o Papiro Ebers foi um dos primeiros tratados médicos de que se têm notícia; e a primeira farmácia, chamada botica, surgiu no atual Iraque, em 754 a.C.

Porém, foi Galeno (Galeno ou Claude Galien – 129/130 d.C. a199/200 d.C. – o médico mais célebre da Antiguidade depois de Hipócrates de Cós. É considerado o Pai da Farmácia e criou o primeiro sistema terapêutico racional) que propôs o termo farmácia para tratamento das doenças, por meio de produtos com propriedades opostas às causas das doenças.

O termo farmácia, por sua vez, vem do grego pharmakon, que significa “medicamento” (veneno); isso porque todo farmacêutico sabe que o mesmo medicamento que cura, se ingerido numa dose inadequada, pode também matar.

É importante lembrar que, já na Antiguidade, o homem buscava na natureza e por meio de rituais preparar produtos que pudessem curar as doenças e os ferimentos. No Brasil, antes do Descobrimento, havia entre os povos indígenas a produção de medicamentos a partir das plantas e de rituais.

Já no Brasil colônia, boticas vendiam produtos a partir de plantas medicinais e eram geridas por leigos. Sem a existência de faculdades no Brasil ou um sistema público de saúde, as boticas se tornaram muito importantes, até que, em 1808, as primeiras faculdades foram inauguradas, nos estados do Rio de Janeiro e da Bahia. Só em 1932, contudo, tiveram início os primeiros cursos de Farmácia no Brasil e com o tempo os boticários foram sendo substituídos pelas farmácias.

Com o surgimento das escolas de Farmácia, desenvolveram-se as primeiras leis de regulamentação dos locais e da profissão do farmacêutico, embora os boticários tenham continuado atuando. Até hoje existe o farmacêutico que manipula medicamentos, porém de forma totalmente controlada.

O surgimento das indústrias farmacêuticas foi essencial para a fabricação de medicamentos. As primeiras indústrias estrangeiras vieram para o Brasil na década de 1940.

(Informações obtidas a partir da entrevista com Letícia Sarturi)

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