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As boas ações não tiram férias

Doar sangue, distribuir refeições, fortalecer os laços familiares e dedicar tempo ao próximo são algumas das formas encontradas para viver a caridade

As boas ações não tiram férias - Jornal O São Paulo

Enquanto muitos aproveitam as férias para descansar ou viajar, outros encontram uma oportunidade de servir. Seja preparando refeições para pessoas em situação de rua, doando sangue, dedicando mais tempo para a família e descobrindo que o descanso também pode ser vivido como expressão da caridade. 

A FOME NÃO TIRA FÉRIAS

Há 12 anos, após um inverno rigoroso, nasceu a Organização Não Governamental (ONG) Anjos da Sopa, iniciativa que hoje distribui mais de 10 mil refeições por mês e atende centenas de famílias em situação de vulnerabilidade. Gisele Capelli, fundadora, é a responsável por coordenar as ações desenvolvidas pela entidade. “A ONG começou com a entrega de sopa à população em situação de rua. Começamos ajudando a população de rua e continuamos até hoje, ampliando cada vez mais esse trabalho que é realizado de segunda a sexta-feira. A missão conta também com a entrega de 230 cestas básicas mensais para famílias em situação de vulnerabilidade nos municípios de São Bernardo do Campo, Santo André, São Caetano do Sul e Mauá”, explica.

Durante o período de férias escolares, Gisele relata que, além dos voluntários levarem seus filhos para participar das ações solidárias, muitas crianças em situação de pobreza passam a depender da sopa distribuída pela ONG devido à suspensão da merenda escolar. “A fila da população de rua se mistura com crianças que, durante o período letivo, se alimentam na escola. Quando as aulas param, muitas delas ficam sem a merenda e vêm buscar a sopa para conseguir se alimentar. Por isso, a nossa demanda aumenta bastante”, disse.

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Gisele faz questão de envolver os próprios filhos nas ações e acredita que esse contato direto com a realidade das pessoas em situação de vulnerabilidade contribui para formar cidadãos mais sensíveis e comprometidos com o próximo. “Os voluntários aproveitam as férias para trazer os filhos. É uma forma de mostrar, na prática, a importância da caridade. No meu caso, meus filhos Ravi, 8, Victória, 9, Ian, 13, sempre participam das entregas de sopa quando estão de férias. Uma oportunidade para meus filhos já desenvolverem um olhar atento às necessidades das pessoas que encontram nas ruas”, contou. 

O incentivo à solidariedade não acontece apenas nas férias. Ao longo de todo o ano, a ONG mantém parcerias com escolas públicas e particulares, promovendo campanhas de arrecadação de agasalhos, alimentos e potes reutilizáveis para a distribuição das refeições. “Fazemos um trabalho muito forte com as escolas. Incentivamos as crianças a participarem das campanhas e entenderem a importância de ajudar quem mais precisa. Nas férias esse trabalho apenas se intensifica”, mencionou a fundadora, recordando que, atualmente, a ONG reúne 204 voluntários.

Ian, 13, contou que “fazer parte das ações de entrega de sopa e de roupas às pessoas carentes me faz bem, me sinto uma pessoa melhor. Fico triste em ver que há pessoas em condições difíceis. Gosto de participar e fazer o bem a quem mais precisa”, disse.

PEQUENOS GESTOS CONTAM

Alice dos Santos, 7, aluna do 2º ano do ensino fundamental na Escola Paulista, vive as férias como um tempo de diversão, convivência familiar e descobertas. “Vou à praia, brinco na areia e também entro no mar”, conta, com entusiasmo.

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Além das brincadeiras ao ar livre, Alice também reserva um espaço para a leitura durante o período de descanso escolar. “Gosto de frequentar a biblioteca e um de meus livros preferidos é o Chapeuzinho Vermelho”, afirma.

As férias também são uma oportunidade para fortalecer os laços com a família. “Eu gosto de ir à casa da minha avó Suzana, que tem 73 anos. Ela faz cosquinhas, é um momento de muito amor”, conta, sorrindo.

AMIGOS EM AÇÃO

Desde 2020, um grupo de amigos tem transformado os sábados em dias de serviço ao próximo. O grupo Amizade Fraterna mantém um trabalho contínuo de assistência a pessoas em situação de rua. Juarez Marco da Silva, 60, é um dos 25 voluntários. “O projeto surgiu da união de pessoas movidas pelos mesmos valores, com o desejo de ajudar os irmãos em vulnerabilidade. Estamos juntos desde a pandemia. Começamos com a distribuição de cerca de 25 lanches, atualmente a equipe distribui aproximadamente 150 lanches, acompanhados de cerca de 10 litros de café com leite ou suco, conforme a época do ano, além de 60 a 70 garrafas de água mineral. Entregamos roupas, calçados, kits de higiene e este mês já distribuímos cerca de 100 cobertores”, afirmou.

“Esse trabalho tem tudo a ver com a mensagem de Jesus: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Nós nos colocamos no lugar dessas pessoas e pensamos em como gostaríamos de ser tratados se estivéssemos vivendo essa realidade. É um exercício de caridade, humildade e fraternidade e também de aprendizado”, disse, ressaltando: “Nosso trabalho é apenas uma gota de água, mas, como dizia Irmã Dulce, sem essa gota o oceano seria diferente”. 

GOTAS DE ESPERANÇA

Michele Gavazzi, 34, assistente financeira e paroquiana da Paróquia Nossa Senhora da Assunção, em Pirituba, transformou a doação de sangue em um compromisso de solidariedade, especialmente durante seus períodos de férias. “Tudo começou em 2019, quando vi a campanha promovida pela comunidade paroquial que reunia pessoas para ir ao Hemocentro. Achei interessante e participei. Em 2021, minha avó ficou um longo período internada e via nos corredores cartazes e pensei: já que estou aqui, vou doar, e desde então, faço a doação duas vezes ao ano, aproveitando justamente os períodos de férias do trabalho, em janeiro e entre julho e agosto”, recorda.

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“Doar sangue é um gesto simples, mas capaz de produzir um impacto imenso na vida de outras pessoas. É um ato de solidariedade. É um esforço tão pequeno da nossa parte para um bem tão grande. Aquece o coração saber que você pode ajudar alguém, mesmo sem conhecer essa pessoa”, afirma, ressaltando: “É uma forma concreta de viver o Evangelho, de ajudar o próximo”. 

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