Capela Santa Catarina: espaço para o encontro com Deus na Avenida Paulista

Templo centenário é sinal da atenção da Igreja aos enfermos em uma das principais vias da metrópole

(Fotos: Comunicação Hospital Santa Catarina)

Na Avenida Paulista do começo dos anos 1920, predominavam os casarões das famílias dos aristocratas do café, dos grandes comerciantes e proprietários das indústrias. Nas ruas do entorno também viviam outros trabalhadores, muitos deles imigrantes que chegaram ao Brasil no começo do século XX. Assim, desde seus primórdios, a mais famosa via paulistana é um lugar plural, característica que se intensificou ainda mais a partir da década de 1950, quando passou a ser permitida a construção de prédios e a instalação de conjuntos comerciais e escritórios, que hoje são maioria na região.

Neste cenário múltiplo, em 1906, a Congregação das Irmãs de Santa Catarina inaugurou o Sanatório Santa Catarina, para dar continuidade aos atendimentos a enfermos que fazia na cidade desde o início daquela década, especialmente após a chegada da Irmã Beata Heinrich, que viabilizou a construção do hospital, com o apoio de Dom Miguel Kruse, Abade​ do Mosteiro de São Bento, e do médico Walter Seng.

Inicialmente, o hospital era voltado a pacientes com doenças infectocontagiosas, e, desde sempre, há o compromisso de prestar uma assistência integralizada, com cuidado técnico e espiritual. Assim, também no Brasil, as irmãs da Congregação, que surgiu em 1571, na Alemanha, se mantiveram fiéis ao carisma da fundadora, a Madre Regina Protmann (1552-1613): a identificação com o mistério da Paixão de Jesus, a partir de uma vida de ascese, penitência e de serviço aos pobres.

Uma capela centenária

Com o passar dos anos, foi idealizada a construção de uma capela nas dependências do hospital, sendo a pedra fundamental do templo depositada em 25 de novembro de 1919, na memória litúrgica de Santa Catarina de Alexandria (287-305); a inauguração ocorreria meses depois, em 6 de setembro de 1920, com missa presidida por Dom Duarte Leopoldo e Silva, então Arcebispo de São Paulo.

Fachada do Sanatório Santa Catarina nos primeiros anos de atividades

Em ação de graças pelo centenário, o Padre Alexandre Massariol, Capelão, presidiu missa na tarde do domingo, 6, durante a qual lembrou que na Capela é possível fazer a experiência do amor de Deus e que, ao longo destes cem anos, as irmãs de Santa Catarina ali realizaram sua profissão religiosa, muitos foram pedir a misericórdia de Deus por alguém hospitalizado ou agradecer por aqueles que se recuperaram, famílias e amigos velaram falecidos e os profissionais e colaboradores do hospital encontraram forças para continuar com os trabalhos.

Atrativo cultural e religioso

“Desde o início, a Capela tem a vocação de receber a todos, tanto que sua entrada não é dentro do hospital, ou seja, é bastante acessível. De maneira muito particular, porém, atende a comunidade do hospital. Todas as quintas-feiras, por exemplo, temos um momento de oração com os funcionários”, detalhou Padre Alexandre ao O SÃO PAULO.

Antes da pandemia de COVID-19, as missas aconteciam diariamente às 18h. Agora, ocorrem nesse mesmo horário apenas às quartas-feiras, sábados e domingos. O Sacerdote afirmou que o fluxo de pessoas no templo aumentou após a reforma da parte externa, em 2017. “A grande novidade foi a iluminação permanente de toda a frente da Capela. Além de ser um espaço de oração, de encontro com Deus, há uma beleza tanto do lado interno quanto do lado externo, de modo que mesmo as pessoas que não professam a fé católica vêm à igreja para conhecer a sua arquitetura. É, sem dúvida, um atrativo cultural e religioso”, comentou.

Itinerário catequético

O visitante mais atento tem a oportunidade de contemplar os sinais da fé cristã na arquitetura de estilo neogótico, de modo especial nos vitrais. Um deles representa a obra da Criação, com a Trindade Santa simbolizada em um triângulo. Outro é alusivo ao mistério pascal de Cristo. Há, ainda, vitrais representativos da vinda do Espírito Santo em Pentecostes, do sacramento da Eucaristia, da Virgem Maria e do ministério sacerdotal

Ao fundo do presbitério, a imagem de Santa Catarina de Alexandria é ladeada por dois vitrais: um alusivo a Santa Valburga (710-779) – religiosa alemã que ajudou a fundar mosteiros e escolas para populações recém-convertidas ao Cristianismo – e outro com a representação de Santa Elizabeth (1207-1231) – que se dedicou aos menos favorecidos do seu reino e, ao ficar viúva, ingressou em uma comunidade religiosa e financiou a construção de um hospital na Alemanha.

Ainda no interior do templo, há uma pintura de Madre Regina Protmann, de autoria do artista sacro Claudio Pastro, falecido em 2016; e na fachada estão cinco afrescos pintados em 1998 por Marco Ulgheri, que retratam momentos marcantes da vida de Santa Catarina.

Exposição virtual

Estes e outros detalhes estão apresentados em uma exposição virtual que pode ser vista no site do hospital e em suas plataformas digitais: Instagram (@hosp.santacatarina), Facebook (@hospitalsantacatarina) e YouTube (Hospital Santa Catarina Oficial).

Estão ainda expostas 12 peças litúrgicas que fizeram parte da rotina de celebrações da Capela, como o cálice e a patena usados em 1920; o Missal das Exéquias (de 1921); as ampolas para os santos óleos (de 1925); o Missal Romano em latim (de 1926); um genuflexório (1928); a cadeira episcopal, um crucifixo e um castiçal (todos de 1940), além de um baldaquino para o ostensório (de 1950). Um dos destaques é um instrumento musical de teclas, chamado de harmônio, de 1890, que era tocado pelas irmãs nas celebrações litúrgicas e funciona igual a um órgão sem tubos, produzindo o som parecido com o de um acordeom.

Administração

O Hospital Santa Catarina – referência em neurologia, cardiologia, oncologia, cirurgia-geral, ortopedia e pediatria – é um dos 22 locais administrados pela Associação Congregação de Santa Catarina (ACSC), nos segmentos da Saúde, Educação e Assistência Social.

Criada em 1922, a ACSC tem atividades em seis estados brasileiros, com cerca de 14 mil colaboradores, em um modelo de negócio no qual a totalidade do superavit, após satisfeitas as necessidades de investimentos e segurança financeira, é destinada a obras sociais. Apenas nas unidades de Saúde que administra, realiza, anualmente, 132 mil internações, 4,7 mil atendimentos ambulatoriais e 7,4 mil exames. Mais de 71% de seus atendimentos são a usuários do Sistema Único de Saúde (SUS).

(Colaborou na reportagem: Jenniffer Silva)

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