Como é a formação dos futuros padres?

Seminaristas da Arquidiocese, em missa na Catedral da Sé (foto: Luciney Martins/O SÃO PAULO)

Os seminaristas da Arquidiocese de São Paulo que receberam os ministérios de leitor e acólito no domingo, 1º, percorrem o caminho formativo do Seminário Arquidiocesano Imaculada Conceição, constituído de três casas de formação: Seminário Propedêutico Nossa Senhora da Assunção, Seminário de Filosofia Santo Cura d’Ars e Seminário de Teologia Bom Pastor.

A Arquidiocese também conta com o Seminário Missionário Internacional Redemptoris Mater São Paulo Apóstolo, aos cuidados do Caminho Neocatecumenal, destinado à formação de padres diocesanos para as missões.

Atualmente, essas quatro casas de formação somam 80 seminaristas, sendo quatro diáconos.

Comunidade eclesial

Em entrevista ao O SÃO PAULO, Padre Cícero Alves de França, Reitor do Seminário de Teologia Bom Pastor, ressaltou que mais do que um lugar físico, o seminário é uma comunidade eclesial que tem como missão a formação dos futuros sacerdotes.

O Formador sublinhou que a formação deve ser entendida como um tempo ou um processo gradual de preparação e discernimento para um ministério, a partir do chamado divino que cada rapaz recebeu.

Nesse sentido, as atuais diretrizes da formação sacerdotal da Santa Sé contidas na Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis, documento publicado em 2016, acentua que a formação dos futuros sacerdotes não consiste apenas no âmbito acadêmico, mas, sim, num processo integral, constituído das dimensões humana, espiritual, pastoral, intelectual e missionária.

“O seminário deve formar o homem intelectual, mas também o homem espiritual, pastor, relacional, na sua integralidade”, afirmou Padre Cícero, explicando que as diferentes dimensões se articulam e se complementam entre si.

Etapas

As novas diretrizes também se refletem na mudança da nomenclatura das diferentes etapas formativas, que antes reforçavam a dimensão acadêmica e, agora, enfatizam o processo vocacional.

O processo formativo na Arquidiocese inicia-se com o Propedêutico. Nesse período, os candidatos residem em uma casa de formação e participam de aulas e atividades que os introduzem nos cursos superiores seguintes e na vida comunitária e espiritual próprias do seminário.

A etapa seguinte é a do Discipulado, período em que o candidato cursa os três anos da faculdade de Filosofia, formação acadêmica de base para os estudos teológicos e fase na qual o seminarista aprofunda a dimensão do padre como discípulo de Cristo.

A última etapa é da Configuração, em que os seminaristas aprofundam a dimensão da identidade sacerdotal de Cristo, própria da vocação do padre. Nesse período, o candidato cursa os quatro anos da faculdade de Teologia.

Após se formar em Teologia, o candidato é ordenado diácono, e dedica-se por pelo menos um ano a um estágio pastoral mais intenso nas paróquias e outros organismos eclesiais, além de um período de atividade missionária em dioceses do interior do Norte ou Nordeste do País.

Formação intelectual

A dimensão intelectual ocupa boa parte do processo formativo. Além de cursarem Filosofia e Teologia, os candidatos recebem formações que aprofundam aspectos próprios da etapa em que estão.

No período da Configuração, por exemplo, a formação é voltada para a relação do padre com a Palavra de Deus, com a Eucaristia e com a missão. No último ano, após a ordenação diaconal, os futuros padres aprofundam a prática sacramental, litúrgica e a direção espiritual.

(Foto: Seminário de Teologia Bom Pastor)

Dimensão espiritual

Em cada casa de formação, há pelo menos um diretor espiritual, que, semanalmente, reúne-se com os grupos para momentos formativos. Além disso, cada seminarista possui um diretor espiritual que o acompanha individualmente, pelo menos uma vez por mês. Os seminários também contam com visitas frequentes de sacerdotes para o atendimento de confissões.

A vida espiritual do seminário tem como ponto central a Eucaristia diária, seguida dos momentos diários de oração comunitária da Liturgia das Horas, da Lectio Divina (leitura orante da Bíblia) e da adoração eucarística semanais.

Além disso, as comunidades formativas valorizam as práticas da piedade cristã, como a oração do Terço, da Via-Sacra e outras devoções. Os seminaristas também são incentivados a realizar pelo menos meia hora diária de adoração eucarística individualmente, sem contar as práticas pessoais de piedade de cada um.

Pastoral

A dimensão pastoral é desenvolvida por meio dos estágios pastorais realizados em paróquias ou organismos da Arquidiocese aos fins de semana. Essas atividades são organizadas a partir dos eixos próprios de cada etapa da formação, seguindo um plano de pastoral, sendo acompanhados por um dos formadores. Os seminaristas do primeiro ano do Discipulado, por exemplo, realizam a chamada Pastoral da Misericórdia em hospitais e realidades de vulnerabilidade social.

Nas paróquias, os seminaristas atuam na Catequese, no serviço litúrgico, na formação de lideranças, no acompanhamento de jovens, famílias e no serviço da caridade, também conforme o período específico da caminhada formativa.

Durante a primeira semana das férias de julho, os candidatos participam de atividades missionárias em paróquias, visitas às casas, hospitais, presídios, com a população em situação de rua e outras frentes de missão da cidade.

Formadores

Padre Cícero enfatizou que o seminário é uma “casa educativa” que possui uma pedagogia própria proposta pela Igreja, por meio de suas normas e diretrizes. “Quem forma não é o reitor individualmente, mas é a Igreja, por meio dos formadores”, sublinhou o Reitor, lembrando que o bispo é o primeiro responsável pela formação sacerdotal em uma diocese.

Além dos reitores e vice-reitores, os seminários contam com sacerdotes responsáveis pelas formações internas, diretores espirituais, confessores, padres que acolhem os seminaristas nos estágios pastorais, professores e demais profissionais, como, por exemplo, psicólogos, fonoaudiólogos, entre outros, que auxiliam no processo formativo.

Critérios

Padre Cícero salientou que, entre os critérios essenciais para o sacerdócio, a Igreja indica que o candidato deve possuir idoneidade moral e psíquica, maturidade afetiva, consciência da sua vocação, capacidade de relacionamento humano. “O seminarista precisa, sobretudo, ter fé e ser uma pessoa de piedade”, completou o Formador.

Padre Cícero sublinhou que, para identificar esses elementos, o formador deve estar presente na caminhada do seminarista, “não como alguém que o vigia, mas como quem o acompanha e o ajuda a identificar suas dificuldades e a superá-las”. Ele salientou a importância das conversas individuais com os seminaristas.

Nesse sentido, a vida comunitária tem um papel fundamental no seminário, como lugar onde são estabelecidas relações interpessoais sadias, maduras, onde são desenvolvidas a capacidade de trabalhar em equipe, lidar com os conflitos, cultivar o diálogo, do exercício do perdão, da fraternidade.

Seminaristas em semana missionária durante as férias (foto: Luciney Martins/O SÃO PAULO/Arquivo)

Caminho de conversão

“O seminário é o lugar onde se cultiva a semente plantada em pessoas que fizeram um encontro pessoal com Jesus Cristo e mudaram de vida… Deus não chama anjos para o sacerdócio, mas seres humanos e, por isso, oferece os meios necessários para que a pessoa corresponda a esse chamado”, destacou Padre Cícero, reforçando que sem conversão não há formação.

O Formador acrescentou que não basta a conclusão das etapas acadêmicas para ser ordenado. “Em alguns casos, a pessoa conclui a faculdade, mas ainda não está preparada para ser ordenada. Às vezes, precisam ser trabalhadas outras dimensões”, disse.

Pode haver circunstâncias em que os formadores, após constante diálogo com o candidato, identifiquem que este não possui os elementos essenciais para o sacerdócio. Nessas situações, chega-se à conclusão de que a pessoa não está apta a ser ordenada ou não é vocacionada ao sacerdócio.

Obra do Espírito

O Reitor frisou, ainda, que também os formadores devem ter o devido preparo, uma profunda vida de oração e buscar sempre a assistência do Espírito Santo na missão de acompanhar os candidatos ao sacerdócio e discernir bem sobre as decisões a serem tomadas.

Por fim, Padre Cícero afirmou que formar não significa colocar a pessoa em uma fôrma, mas ajudar o candidato a se configurar a Cristo, a partir de sua realidade própria. “O sacerdote de ontem, de hoje e de amanhã tem um único rosto: o de Jesus Cristo”, afirmou, concluindo que, “por mais que haja todos os critérios humanos, a formação é um trabalho espiritual por excelência”.

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