Missa em Ação de Graças, presidida pelo Cardeal Scherer, também recordou o 44º aniversário do reconhecimento pontifício deste movimento eclesial e os 21 anos do falecimento do fundador, o Padre Luigi Giussani

Há 50 anos, Dom Paulo Evaristo Arns, então Arcebispo Metropolitano de São Paulo, enviava dois missionários do movimento Comunhão e Libertação (CL), iniciado pelo sacerdote italiano Luigi Giussani (1922-2005), para recomeçarem a Pastoral Universitária na Arquidiocese de São Paulo: o Padre João Carlos Petrini, hoje Bispo Emérito de Camaçari (BA), que já trabalhava com as Comunidades Eclesiais de Base na periferia da cidade, e o até então leigo Vando Valentini, que seria ordenado sacerdote em 1983.
“Desde o seu início, em fevereiro de 1976, Dom Paulo acompanhava de perto o desenvolvimento dessa experiência e sempre enfatizava a necessidade de uma proximidade com o povo, o que se realizava com a ‘Semana da Periferia’, quando os universitários deixavam as suas atividades para morar na periferia junto a uma Comunidade Eclesial de Base (CEBs)”, recordou, ao O SÃO PAULO, Olívio Pereira, um dos pioneiros de Comunhão e Libertação na cidade. Era o início dos trabalhos das Comunidades Universitárias de Base (CUBs), que rapidamente cativaram dezenas de universitários.
Na tarde do domingo, 22, uma missa em ação de graças pelos 50 anos da presença de Comunhão e Libertação em São Paulo foi presidida pelo Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo Metropolitano, na Paróquia Santo Agostinho, na Aclimação, Região Sé, na qual também foram recordados o 44º aniversário do reconhecimento pontifício desta Fraternidade e os 21 anos do falecimento de Dom Giussani, como era mais conhecido o fundador da CL.
MÉTODO EDUCATIVO PARA A FÉ
Ordenado sacerdote em 1945, Luigi Giovanni Giussani logo percebeu em sua atuação pastoral na Arquidiocese de Milão que os jovens estavam se afastando do testemunho da fé, mesmo conhecendo a doutrina e o dogma da Igreja. Com autorização de seus superiores, passou a ensinar religião em uma escola de ensino médio e, em 1954, no Liceu clássico Berchet de Milão, onde se consolidou a comunidade de jovens Gioventù Studentesca (GS), dando início ao movimento Comunhão e Libertação, que teria este nome a partir de 1969.
Segundo Alexandre Ferraro, responsável nacional de Comunhão e Libertação, o carisma do movimento “é um método educativo para a fé de jovens e adultos. Ele parte do fato de que o Cristianismo não é primeiramente uma doutrina, um rito, uma moral, mas o encontro com o homem-Deus, Jesus Cristo, por meio de presenças humanas, comunidades (comunhão). Esse encontro torna a vida mais plena e cheia de significado (o cêntuplo) e gera um sujeito novo que, naturalmente, se torna uma presença propositiva (missão) onde quer que viva, sinal de uma vida nova em meio às atuais circunstâncias históricas (libertação). Só essa vida nova pode chegar, no tempo e se Deus quiser, a construir estruturas sociais novas. Sempre repetimos ‘aquilo que move o coração é a mesma coisa que muda o mundo’”.
Ao longo dos anos 1970, CL se difundiu em universidades, colégios e entre adultos, principalmente na Itália. Nas duas décadas seguintes, a convite de São João Paulo II, o movimento se expandiu pelo mundo, estando atualmente em cerca de 90 países. Em 11 de fevereiro de 1982, a Igreja reconheceu a Fraternidade de Comunhão e Libertação como associação universal de fiéis.
O TESTEMUNHO TRADUZIDO EM OBRAS

Francesco Tremolada, responsável diocesano por Comunhão e Libertação em São Paulo, explicou à reportagem que as principais ações do movimento não nascem de projetos ou para dar respostas a problemas pontuais: “Antes de tudo, são iniciativas que ajudam ao amadurecimento da fé”. Ele detalhou os três passos essenciais aos que participam da Fraternidade: a formação nas Escolas de Comunidade, com a leitura e meditação de textos de Dom Giussani e a troca de experiências sobre a vida de fé e sua capacidade de incidir na realidade; a promoção de iniciativas caritativas (voluntariado); e a missão de testemunhar a fé no cotidiano.
Ele explicou que, atualmente, em São Paulo, há cerca de 300 membros de Comunhão e Libertação, de variadas idades, profissões e classes sociais.
Alexandre Ferraro lembrou que a CL contribui com a Igreja, especialmente nos âmbitos da cultura e da educação: “No Brasil, as circunstâncias sociais suscitaram respostas concretas nascidas do encontro com necessidades reais das pessoas. Assim, surgiram iniciativas de acolhida a imi-grantes, experiências de apoio a famílias e presos, e formas de promoção humana em periferias urbanas. Não são projetos planejados a partir de uma estratégia, mas obras que brotam da caridade vivida e do desejo de compartilhar o bem encontrado”.
A ATUALIDADE DO PENSAMENTO DE DOM GIUSSANI

Na homilia da missa, o Cardeal Scherer enfatizou que, a exemplo de Jesus nos 40 dias de jejum no deserto, todo ser humano deve resistir às tentações de se preocupar apenas com a satisfação dos próprios prazeres, da pretensão de querer mandar no Senhor ou de substituir Deus pelo diabo para conseguir poder. O Arcebispo lembrou, ainda, que ao ser batizado e nas ocasiões de renovação da promessas batismais, como na Vigília Pascal, cada cristão renuncia ao pecado, ao demônio e à desunião com Deus, e que a Quaresma é tempo oportuno para o fortalecimento dessa união com o Senhor.
“Padre Giussani traz muitos ensinamentos nesse sentido da escolha de Deus e da fidelidade a essa escolha ao longo da vida, e sobre as maneiras que nós precisamos adotar se queremos perseverar nessa escolha para que o tentador não se insira no meio de nossa vida e dela tome conta”, afirmou Dom Odilo.
Na quinta-feira, 19, Dom Mario Delpini, Arcebispo de Milão, anunciou que em 14 de maio será celebrada a conclusão da fase diocesana do processo de beatificação e canonização de Dom Giussani, iniciada em 2012. Ele referiu-se ao Sacerdote como um “apaixonado pela nossa Igreja, a quem desejou servir com o ardor da sua alma e o seu zelo. Na sua vida e ministério, demonstrou os frutos de um amor intenso por Deus: a fecundidade que pôde dar origem a algo que o Espírito de Deus tornou precioso para toda a Igreja”, disse, aludindo à Fraternidade de Comunhão e Libertação.
Na avaliação de Francesco Tremolada, Comunhão e Libertação se mantém atual pois “propõe, de forma fascinante, o núcleo essencial da fé cristã, não inventa coisas especiais, mas repropõe os elementos elementares da vida cristã”. Para Alexandre Ferraro, os ensinamentos de Dom Giussani muito podem contribuir no agir evangelizador da Igreja, especialmente com os mais jovens. “A questão com as novas gerações não é um problema de conhecimento (melhores catequeses), nem de moral (chamados mais persuasivos às virtudes), mas um problema humano. A alienação de si mesmo, das próprias perguntas últimas, torna a resposta, que é Cristo, como que não percebida. Ajudar as pessoas a prestarem atenção na própria experiência humana, a ver na arte, na literatura, no cinema e nas inquietações contemporâneas essas perguntas, leva ao despertar da espera que tem em Cristo sua resposta total. O abismo da inquietação humana, porém, só pode ser encarado dentro de uma companhia de pessoas conscientes de terem sido chamadas juntas por Cristo”.
Conheça mais sobre Comunhão e Libertação
https://cl.org.br
(Colaborou: Patrícia Molina)





