Dom Jorge Pierozan celebra 2 anos de episcopado e aponta as prioridades pastorais para 2022

Nascido em Vanini, no Rio Grande do Sul, ele tem 57 anos. Já foi circense, conviveu com ciganos, é sargento da reserva do Exército Brasileiro e um gremista apaixonado

Edmilson Fernandes

Em 28 de setembro, Dom Jorge Pierozan, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de São Paulo na Região Santana, celebrou dois anos de ordenação episcopal.

Nascido em Vanini, no Rio Grande do Sul, ele tem 57 anos. Já foi circense, conviveu com ciganos, é sargento da reserva do Exército Brasileiro e um gremista apaixonado. Desde 29 de setembro de 2019, Dom Jorge, que era conhecido como “Padre Rocha”, lidera as 66 paróquias e quase cem capelas da Região Santana. Com seu estilo simples e direto, superou as barreiras impostas pela pandemia e foi ao encontro das ovelhas nessa imensa área da zona Norte de São Paulo.

Nesta entrevista à Pascom Regional, o Bispo aponta os desafios pastorais e reforça a mensagem de esperança para quem enfrenta o drama financeiro, emocional ou espiritual provocado pelos 20 meses de pandemia até aqui.

Pascom Santana – Após ficar 22 anos como padre, o que mudou na sua vida após a nomeação como bispo?

Dom Jorge Pierozan – Mudou tudo. Eu amava o meu trabalho como pároco. Trabalhei em duas paróquias. Fui nomeado bispo, perdi os amigos da convivência desses anos todos. Perdi até o apelido, “Padre Rocha”, que me acompanhou por 40 anos, desde os 15. Demorei a me acostumar. Eu tinha um funcionário na paróquia. Agora temos 14. São 133 padres, 34 diáconos permanentes e dois diáconos seminaristas. Foi duro no começo, porque ninguém se prepara para ser bispo.

Por não ter uma paróquia, o bispo tem uma vida solitária?

Quando vou celebrar em uma paróquia, no fim das missas, normalmente fico para cumprimentar as pessoas, tirar fotos. Esses momentos são muito importantes para mim. Fico disponível para conversar com quem quiser. Às vezes, é alguma reclamação, alguém que puxa a túnica, entrega uma cartinha. Muitas vezes, janto com as pessoas, quando o padre convida… Eu vou com alegria! Isso me põe um pouquinho em contato com o povo.

A convivência com circenses e com ciganos o ajuda agora como bispo?

Ajuda-me em tudo porque os conheço. Eles demoram uma semana para entender o que a gente quer ali, mas quando descobrem que é por amor a eles, vão na frente da bala para morrer no nosso lugar se for preciso. Demoram a dar confiança, mas quando confiam, é para a vida toda.

E continuo fazendo a mesma coisa que fazia. Uma noite dessas, fui à Ponte do Piqueri com o Diácono Permanente Nilo Carvalho, a mulher e a filha, cuidar dos ciganos. Levamos chocolate e brinquedo para as crianças e cesta básica para todas as famílias. Faço isso sozinho também. Estou lutando para conseguir documentos para que todos os ciganos que vivem perto do Terminal Rodoviário do Tietê sejam vacinados.

Na quinta-feira da semana passada, fui levar cesta básica ao Circo Mix, no Jaçanã. É um circo muito pequeno, muito pobre, está num lugar complicado. Eram 11 horas da noite e ‘quebrei a cara’. Estava fechado porque não teve espetáculo naquele dia. Aí, deixei as cestas lá na entrada. Quando voltei para tirar uma foto, estavam pegando e até se esconderam. Sou vice-presidente da Pastoral dos Nômades do Brasil. Estou procurando preencher uma lacuna que existe na Região. Por dever, por aquilo que vivi com eles.

A maior parte do seu ministério coincidiu com a pandemia. Como o seu trabalho foi impactado pelas restrições?

A Igreja Católica cumpriu, como poucas instituições neste País, a sua parte para o fim da pandemia ou para evitar a disseminação do vírus. Pagamos o preço por isso. Hoje, existem paróquias com muitas dificuldades financeiras, padres com risco de depressão… Durante o período mais duro, eu ligava para alguns padres e diáconos. Para alguns, liguei só uma vez. Outros, cinco vezes. A gente tem que sentir quem está precisando de mais apoio. São seres humanos que também estão à mercê das fragilidades e precisam estar animados para conduzir o povo. Li uma vez que “o padre é aquele que cura a ferida quando ele mesmo está sangrando”. Isso também vale para o bispo. Às vezes, gostaria de estar junto com um irmão bispo, ir pescar, contar uns “causos”, mas a pandemia tirou isso.

Depois de conhecer a realidade das 66 paróquias, quais são as suas prioridades para o próximo ano?

A primeira é fortalecer a Pastoral Vocacional. Há padres findando as forças para continuar na paróquia e não temos quem colocar no lugar. A Arquidiocese deveria ordenar uns 20 padres por ano para dar conta da demanda, mas ordena apenas uns dois ou três.

Qual o motivo?

Acredito que um dos motivos seja essa diversidade de informação. A facilidade que o mundo oferece, de alguém que não tem mais projeto de longo prazo. Tudo é “o agora”. As relações são muito líquidas, muito diluídas. Há uma geração muito frágil. Crianças de 8 anos com depressão! Há muito suicídio na adolescência! A segunda prioridade é a Pastoral da Criança. E o terceiro desafio é melhorar a Catequese. O Papa Francisco elevou a função do catequista à de ministro. Precisamos valorizar e cuidar da formação dos agentes.

Nas visitas às paróquias, o senhor adora tirar fotos para postar na internet…

Na verdade, nem gosto de tirar fotos. É uma forma de me aproximar das pessoas. Quando tiram fotos comigo, as pessoas ficam à vontade; pedem uma bênção, comentam encontros anteriores… Há uma interação natural.

O senhor acha que a Igreja usa bem as redes sociais?

A pandemia obrigou as equipes da Pascom a encontrar formas de chegar ao povo de Deus. Mas é preciso melhorar. A tecnologia é um desafio, mas precisamos aproveitar essas ferramentas para atingir mais corações e mais fiéis.

Qual a mensagem que o senhor deixaria às milhares de pessoas que perderam um ente querido ou que estão desesperadas porque não têm mais emprego nem renda?

A pandemia fez estragos financeiros, emocionais, psicológicos e espirituais no povo de Deus. Levou gente querida. Levou gente muito mais jovem do que eu (57 anos); gente mais santa do que eu. Mas temos que agir como o tigre ferido na pata, que vai para a toca lambendo a ferida. Um dia, ele vai colocar a patinha pra fora da toca de novo; vai pisar, perceber que ainda dói, mas depois consegue ganhar as pradarias, sair correndo e voltar à vida de antes. Sejamos gratos a Deus por estar aqui. Sejamos gratos porque, por pura bondade, graça e misericórdia de Deus, nós permanecemos aqui. Ele deve ter um plano para nós. Tenhamos esperança. Um poeta escreveu uma vez que quanto mais densas as trevas da madrugada, mais se aproxima o amanhecer. Eu acho que nós vemos a curva já da meia-noite, uma da manhã, três da manhã… Depois começa a luz do amanhecer do novo dia. Então, confiemos nesse novo tempo que chegará para todos nós.

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