Padroeira da paróquia centenária é celebrada neste mês com programação religiosa e tradicional festejo italiano

Fotos: Pascom e Midia Achiropita
Entre o aroma da fogazza recém-saída do forno, a macarronada, a polenta e tantas delícias, o Bixiga celebra muito mais do que uma tradição gastronômica italiana. Por trás dos sabores que há décadas tomam as ruas do bairro está uma história centenária de fé, devoção e solidariedade, construída por gerações de famílias italianas e seus descendentes.
No sábado, 8, no terceiro dia da novena em honra a Nossa Senhora Achiropita, o Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo Metropolitano de São Paulo, presidiu a missa, concelebrada pelos Padres Adilson Rodrigues dos Santos, Pároco; Altamir Gabriel Jonas da Silva, Vigário Paroquial, e outros sacerdotes da Congregação da Pequena Obra da Divina Providência (Orionitas), que estão à frente da Paróquia desde o início.

MADONA ACHIROPITA
A devoção a Nossa Senhora Achiropita surgiu em Rossano, na região da Calábria, no Sul da Itália. Segundo a tradição, no século VI, o imperador Maurício enfrentou uma forte tempestade durante uma viagem pelo mar. Ao recorrer à proteção de Maria e conseguir chegar em segurança a terra firme, prometeu construir-lhe um santuário.
Durante a pintura da imagem de Nossa Senhora, um fato extraordinário aconteceu. Tudo o que os artistas pintavam durante o dia desaparecia misteriosamente à noite. O fato se repetiu até que, certa ocasião, uma mulher acompanhada de uma criança pediu para entrar no santuário e rezar.

Quando o vigilante retornou, encontrou a imagem da mulher e do menino estampada no lugar da pintura.
Foi, então, que Nossa Senhora recebeu o título de Achiropita, palavra de origem grega que significa “não pintada por mãos humanas”. Essa devoção foi trazida pelos imigrantes italianos ao Brasil no final do século XIX e permanece viva na Paróquia Nossa Senhora Achiropita, no Bixiga, região central da capital.
UM SÉCULO: TRADIÇÃO E CARIDADE
Padre Adilson recordou a história da devoção: “O bairro nasce de um quilombo, o Quilombo Saracura. Chegam os imigrantes de algumas partes da Itália e começam aqui a viver a sua fé, a sua devoção. Surge, então, a Paróquia”.
No início, “a comunidade era conhecida como Paróquia de São José do Bixiga. Ao mesmo tempo, duas devoções marianas estavam presentes entre os imigrantes italianos: Nossa Senhora da Ripalta e Nossa Senhora Achiropita. Mais tarde, criou-se a capela com uma imagem de Nossa Senhora Achiropita que, depois, tornou-se a Paróquia Nossa Senhora Achiropita”, explica o Pároco.

A tradicional Festa de Nossa Senhora Achiropita é um dos principais símbolos da Paróquia e uma importante fonte de recursos para as ações sociais desenvolvidas pela comunidade, entre as quais a Creche Mãe Achiropita (CEI); o Centro Educacional Dom Orione, que atende crianças no contraturno escolar; o Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos (Mova), voltado à educação de adultos; o Núcleo de Convivência da Pessoa Idosa (NCI); o Núcleo de Atendimento de Acolhida (NCA), destinado a pessoas em situação de rua; o Centro de Atendimento Jurídico Dom Orione; a Casa de Acolhida Rainha da Paz, que acolhe homens em processo de recuperação de dependência química; e o Memorial Achiropita, dedicado à preservação da memória da comunidade e da presença Orionita no Bixiga.

O Pároco recordou ainda a assistência às famílias que é realizada por meio da Conferência dos Vicentinos: “Eles visitam as famílias, conversam, rezam e vão vendo as necessidades. Atualmente, são distribuídas cerca de 80 cestas básicas por mês”.
Na avaliação do Padre Adilson, celebrar os 100 anos da Paróquia é, sobretudo, reconhecer a participação de toda a comunidade. “O centenário é o momento para dizer: ‘Obrigado, Senhor, por este trabalho bonito feito a várias mãos’. Depois de um século, a Paróquia continua como um ponto de encontro entre memória, imigração, religiosidade e ação social, uma história construída por diferentes povos e, sobretudo, por muitas mãos”, frisou.
MÃE DE JESUS E NOSSA
Durante a missa, Dom Odilo manifestou a alegria em celebrar os 100 anos da Paróquia, um momento, “para agradecer a Deus pela presença constante de sua Mãe, aqui com o título de Nossa Senhora Achiropita, e em outras paróquias com tantos outros títulos, mas é sempre a mesma Nossa Senhora, a Mãe de Jesus e nossa”.

“É sempre importante celebrarmos a devoção a Nossa Senhora. Todos os títulos com os quais o povo cristão invoca e celebra são maneiras de honrar Nossa Senhora ou de invocá-la em alguma situação de particular devoção ou necessidade”, recordou.
O Purpurado exortou a comunidade paroquial a lembrar a própria história, as origens dessa devoção mariana, bem como pensar maneiras de como hoje “o povo pode continuar a ter a devoção a Nossa Senhora com o título de Achiropita, o significado para as suas vidas e para a vida da Igreja nos nossos dias. Há muitos títulos de Nossa Senhora aqui em nossa Arquidiocese e muitos deles foram trazidos pelos imigrantes, que, junto com estes títulos, trazem a sua história, as suas origens, muitas vezes os seus sofrimentos, ligados a essa devoção, e que continuam muito ligados ao seu povo”, mencionou.

DEVOÇÃO QUE ATRAVESSA GERAÇÕES
Maria Emília Conte Moitinho, voluntária na festa, é herdeira da tradição que atravessa gerações: “Meus avós, os quatro italianos, vieram para o Bixiga. Meus pais trabalharam muito aqui na Achiropita. Conheci meu marido aqui. Meus filhos estão trabalhando na comunidade. A Achiropita é parte da nossa vida, é nossa segunda família.”
“Celebrar o centenário é, sobretudo, olhar para a trajetória daqueles imigrantes que chegaram ao bairro e construíram, com dificuldades, uma comunidade que permanece viva. A antiga capela cresceu e depois tornou-se Paróquia. As festas, por sua vez, passaram a contribuir para a manutenção das obras sociais”, destacou.

“Somos uma comunidade muito acolhedora, feliz, que abraça a todos. Somos 1,3 mil voluntários que, unidos, fazem a festa acontecer. Mais do que uma festa, é o momento de celebrar a Madona Achiropita e celebrar a unidade, a família, a fé”, disse.
Camille Oliveira Covo, 27, do ministério da Música, participa da Paróquia há 10 anos. “Quando conheci, fiquei apaixonada. Aos poucos, fui me introduzindo no ministério e passei a cantar a fé. Cantar para Nossa Senhora é voltar os olhos e o coração para Deus”, disse, ressaltando que a celebração do centenário é momento de gratidão ao Selhor e, sobretudo, “da confirmação mariana que conduz a comunidade e as famílias ao seu Filho Jesus”.
Para saber todos os detalhes da 100ª Festa de Nossa Senhora Achiropita, acesse o Instagram @achiropitaoficial




