Logo do Jornal O São Paulo Logo do Jornal O São Paulo

Igreja mantém vivo o sonho do metrô na Brasilândia

Após mais de 18 anos de mobilização, a inauguração do primeiro trecho da Linha 6-Laranja evidencia o papel da Igreja Católica, que reuniu a comunidade, articulou lideranças e ajudou a transformar um antigo desejo em realidade

Igreja mantém vivo o sonho do metrô na Brasilândia - Jornal O São Paulo
Arquivo Pessoal

“Um sentimento indescritível”. É assim que o professor João Mota define o que viveu na quinta-feira, 2. Depois de mais de 18 anos de espera, ele finalmente pôde percorrer a Linha 6-Laranja do Metrô, concretizando um sonho que ajudou a construir desde os primeiros passos.

Ao lado do Cônego Noé Rodrigues, então Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Expectação, João esteve entre os idealizadores do Fórum Pró-Metrô, movimento que, durante quase duas décadas, mobilizou a comunidade em favor da construção da linha. Essa caminhada, sustentada especialmente por membros das paróquias da Região Episcopal Brasilândia, colheu seu primeiro grande fruto no último dia 2, com a inauguração de seis das 15 estações que comporão a Linha 6-Laranja. 

Igreja mantém vivo o sonho do metrô na Brasilândia - Jornal O São Paulo

REUNIDOS PELO BEM COMUM

Conhecido por preservar sua arquitetura colonial, concentrada no tradicional Largo da Matriz, o bairro da Freguesia do Ó ainda enfrentava, no início dos anos 2000, os desafios da mobilidade urbana em São Paulo. Foi diante dessa realidade que, em outubro de 2003, João, hoje com 86 anos, procurou o Cônego Noé para conversar sobre os problemas enfrentados pela região. 

A partir disso, começou a ser estruturado um grupo de trabalho para tirar do papel o projeto do metrô para a região. Nascia, então, o Fórum Pró-Metrô. Com reuniões abertas à comunidade, a criação de um jornal informativo e parcerias com entidades da sociedade civil, o movimento ganhou força e foi se consolidando ao longo dos anos.

“Após a terceira reunião com a comunidade, elaborei o pedido oficial da linha de metrô para a região da Freguesia do Ó. Até conseguirmos a aprovação do Governo do Estado, em 2008, percorremos uma longa caminhada, com 123 reuniões com a população e encontros com três governadores diferentes”, recordou João.

Igreja mantém vivo o sonho do metrô na Brasilândia - Jornal O São Paulo

Durante todo o processo de aprovação da Linha 6-Laranja, a Igreja se fez presente em uma mobilização que beneficiaria não apenas a mobilidade urbana, mas também a qualidade de vida dos moradores da região.

Por meio de abaixo-assinados distribuídos em todas as paróquias da Região Episcopal Brasilândia, a iniciativa, segundo João, foi ganhando força.

Para o aposentado, a presença do Cônego Noé foi decisiva, pois, a partir de seu trabalho pastoral, grupos foram sendo formados e reunindo pessoas de diferentes idades em torno da mesma causa.

“A Linha 6-Laranja, que agora é finalmente inaugurada, é o grande legado do Cônego Noé. Foi por meio de seu entusiasmo e apoio que, a partir deste ano, uma população de cerca de 15 mil pessoas poderá contar com o benefício de uma melhor locomoção”, afirmou João.

Igreja mantém vivo o sonho do metrô na Brasilândia - Jornal O São Paulo

A REALIZAÇÃO DE UM SONHO

Quem também esteve ao lado do Cônego Noé e de João foi o Diácono Benedito Camargo, de 82 anos. Ao O SÃO PAULO, ele contou que, muito antes de as escavações da Linha 6-Laranja se tornarem realidade, a luta pela chegada do metrô à região começou a ser construída em salões paroquiais.

Mais do que reivindicar melhorias no transporte público, a comunidade buscava, segundo o Diácono, construir soluções coletivas para problemas que afetavam diretamente a qualidade de vida dos moradores.

Para ele, a maior contribuição da Igreja Católica foi manter viva, durante décadas, uma mobilização sustentada pela esperança, pela participação popular e pelo compromisso com o bem comum.

“Ninguém faz nada sozinho. A Igreja nos ensinou a acreditar e a participar para que o melhor aconteça em favor de todos. Toda pastoral precisa apoiar aquilo que favorece a vida do povo. Aprendemos que não devemos buscar apenas o resultado final. Todo o processo também representa uma conquista”, salientou.

Igreja mantém vivo o sonho do metrô na Brasilândia - Jornal O São Paulo

SOB A INTERCESSÃO DE SANTA BÁRBARA

No mesmo ano em que o Governo do Estado aprovou a criação da Linha 6-Laranja, Leandro Silva passou a integrar o Fórum Pró-Metrô. Além de participar das discussões, também esteve envolvido em uma tradição que passou a acompanhar a construção da linha.

Em janeiro de 2016, um dos operários procurou o Diácono Benedito Camargo, que, na época, atuava na Paróquia Nossa Senhora da Expectação, para solicitar a entronização de uma imagem de Santa Bárbara, padroeira dos trabalhadores em minas e túneis, no canteiro de obras localizado às margens da Marginal Tietê, próximo à Ponte da Freguesia do Ó.

Posteriormente, a iniciativa foi levada para outro canteiro de obras, justamente onde, anos mais tarde, ocorreu o acidente na Marginal Tietê. “Santa Bárbara protegeu todos que estavam ali, pois, apesar da gravidade do acidente, não houve vítimas”, afirmou Leandro.

Outras entronizações foram realizadas na futura Estação Pacaembu, no túnel de acesso ao pátio de manutenção do Morro Grande e na Estação Brasilândia.

“A receptividade sempre foi muito grande. Na maioria das cerimônias, os trabalhadores participavam ativamente e, em algumas ocasiões, as atividades eram interrompidas em sinal de respeito e devoção”, lembrou.

Igreja mantém vivo o sonho do metrô na Brasilândia - Jornal O São Paulo

UMA IGREJA VIVA E PRESENTE

Ao longo de toda essa trajetória, a Igreja também permaneceu presente por meio dos bispos auxiliares que passaram pela região. Leandro frisou que Dom Benedito Simão acompanhou de perto as reuniões e as articulações do movimento. Já com Dom Milton Kenan Júnior, foi possível promover encontros com o então secretário dos Transportes Metropolitanos, Jurandir Fernandes. Dom Devair Araújo da Fonseca esteve ao lado da comunidade durante o início das obras e no processo de desapropriações. Mais recentemente, com Dom Carlos Silva, atual Bispo Auxiliar da Arquidiocese na Região Brasilândia, ao lado do professor João Mota e com o apoio do Cardeal Odilo Scherer, Arcebispo de São Paulo, foi encaminhado um ofício à Secretaria responsável pela obra solicitando a alteração do nome da futura Estação Vila Cardoso para Maristela referenciando sua localização exata.

“Fico muito feliz por ver este primeiro trecho sendo entregue, mas também acredito que precisamos continuar atentos, pois a obra ainda não está concluída. Mesmo assim, para uma obra que ficou paralisada por quatro anos, não há como deixar de celebrar esse momento. É uma conquista para todos que utilizarão a linha, para aqueles que lutaram durante tantos anos e também para os que partiram antes de ver esse sonho se tornar realidade”, celebrou Leandro.

Como forma de reconhecer essa trajetória, o Movimento Pró-Metrô pretende reivindicar a instalação de um busto do Cônego Noé Rodrigues na Estação Freguesia do Ó, como símbolo da mobilização organizada pela Região Episcopal Brasilândia; além disso, continuará acompanhando o avanço das obras para as linhas ainda não entregues e a qualidade do serviço a toda a comunidade. 

Deixe um comentário