Missão Belém: obra de evangelização que restaura vidas

Em missa presidida por Dom Odilo, 64 leigos emitiram promessas como membros dessa associação de fiéis, que tem grupos de evangelização e realiza o apostolado nas ruas

Cardeal Odilo Pedro Scherer agradece aos missionários, voluntários e benfeitores da Missão Belém, em missa na Catedral Metropolitana, dia 16
Luciney Martins/O SÃO PAULO

A Catedral da Sé ficou lotada na tarde do domingo, 16, para a missa em que foi aberta a assembleia anual da comunidade Missão Belém. Na Eucaristia, presidida pelo Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo Metropolitano de São Paulo, 64 leigos emitiram suas promessas como membro da associação de fiéis que se dedica à evangelização e ao cuidado das pessoas em situação de rua e dependentes químicos.

Nesse grupo, havia homens e mulheres, casados e solteiros, que conheceram o trabalho da Missão Belém por meio dos diversos grupos de evangelização ou pelo apostolado nas ruas. “São leigos que auxiliam no trabalho nas casas de acolhida e nos grupos de evangelização. É uma forma de aprofundarem a vocação batismal por meio do serviço aos mais pobres”, explicou ao O SÃO PAULO o Padre Gianpietro Carraro, Fundador da Missão Belém.

Muitos desses membros, inclusive, foram um dia tirados das ruas pela comunidade e, hoje, dedicam sua vida ao apostolado, como é o caso de Emanuel Messias Guedes do Nascimento, 46. Natural da Paraíba, ele está em São Paulo há 25 anos. Devido à dependência do álcool e drogas, viveu na rua por cinco anos, até encontrar os missionários da Missão Belém, que o convidaram para fazer uma experiência em uma de suas casas, em Jarinu (SP).

“A princípio, eu não queria ir, porque já estava acostumado com a rua, e pensava que não conseguiria mais vencer as drogas e acabaria morrendo ali mesmo. Mas o Padre Gianpietro e a Irmã Cacilda [da Silva Leste, cofundadora da Missão Belém] tiveram um carinho tão grande comigo, chegando a dormir conosco na rua e por isso decidi ir”, relatou o homem que, depois dessa experiência, nunca mais quis voltar para a rua, a não ser para evangelizar e ajudar os antigos companheiros a também terem suas vidas restauradas.

“Eu perdi minha família, perdi tudo por causa das drogas, mas, hoje, encontrei uma família e muito mais na Missão Belém, onde fui acolhido há 17 anos e onde quero servir a Deus e aos irmãos”, completou Emanuel Nascimento.

EM FAMÍLIA

Tatiane Barreto dos Santos, 36, e Rodrigo Aparecido Pereira de Paula, 37, são casados há 11 anos e têm dois filhos. Há 13 anos, ela foi convidada para um retiro da comunidade. Pouco tempo depois, Rodrigo participou com ela de um retiro para casais e se identificaram com o carisma e a espiritualidade da Missão Belém.

Atualmente, o casal concilia a vida profissional, doméstica e familiar com as atividades missionárias. Tatiane é membro do conselho internacional da comunidade. Com o esposo, acompanha 16 grupos de evangelização da comunidade.

“Desejamos doar a nossa vida para Jesus por meio do carisma da evangelização dos pobres”, destacou Tatiane, ao explicar o motivo de fazer a promessa na comunidade. “Esse é o nosso modo de dizer ‘sim’ para Deus na Igreja, a partir do nosso estado de vida”, completou Rodrigo.

A MISSÃO

Fundada em 2005, a Missão Belém é uma associação de fiéis que nasceu com o objetivo de reviver o mistério de Belém: “Jesus que nasce pobre no meio dos pobres, numa mísera gruta, acolhido com carinho por Maria e José”.

Em quase 18 anos, mais de 80 mil pessoas foram acolhidas e grande parte se deve aos próprios ex-irmãos de rua restaurados e que se tornaram missionários. Hoje, a Missão abriga 2,3 mil pessoas acolhidas em suas casas, 600 das quais são doentes crônicos.

A Missão Belém é também responsável pelo Projeto Vida Nova, inaugurado em 2018, como gesto concreto da Arquidiocese de São Paulo no Jubileu Extraordinário da Misericórdia. No Edifício Nazaré, na Praça da Sé, pessoas que desejam deixar as ruas ou a dependência química recebem a primeira acolhida até serem encaminhadas a uma das casas da associação.

Desde 2010, a comunidade atua no Haiti, após o terremoto que devastou o país. Em um dos bairros mais pobres da capital, Porto Príncipe, os missionários abriram um centro educativo que atende cerca de 3 mil crianças e adolescentes de até 15 anos de idade, desenvolve atividades e projetos na área da educação, saúde e profissionalização para os jovens. Há um centro nutricional e um pequeno centro hospitalar.

Em março passado, foram iniciadas as obras de construção da sede do Projeto Nova Guadalupe da Missão Belém. Localizado no bairro do Belenzinho, na Zona Leste de São Paulo, o terreno de 1,2 mil metros quadrados irá abrigar um edifício de 19 andares, dos quais sete serão dedicados a abrigar os doentes mais graves entre as pessoas em situação de rua acolhidas pela comunidade.

“Tudo isso acontece graças à doação de centenas de irmãos que saíram das ruas, foram restaurados na Missão, frequentaram o curso de cuidadores e hoje se entregam à acolhida desses doentes”, afirmou Irmã Cacilda, recordando, ainda, os muitos médicos e demais profissionais da saúde que ajudam no cuidado dos acolhidos.

EVANGELIZAÇÃO

“Esta é uma obra de evangelização”, afirmou Dom Odilo, ao se referir à Missão Belém. O Arcebispo ressaltou que a evangelização, antes de tudo, atinge as pessoas, transforma suas vidas.

“Gosto quando vocês dizem que a pessoa acolhida na comunidade é restaurada. Não é apenas recuperar ou tirar de um vício, mas, sim, restaurar uma vida, uma dignidade, a alegria de viver. É tratar das feridas do corpo e da alma. É isso que o Evangelho faz: restaura a nossa vida”, completou o Arcebispo.

O Cardeal Scherer agradeceu aos missionários, voluntários e benfeitores da Missão Belém e os incentivou a continuarem esse serviço. Recordando o Evangelho do dia, que narra a parábola do semeador, Dom Odilo os exortou a continuarem a fazer com que “a semente caia em terra boa e produza frutos abundantes”.

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Priscila Lourenço de mello
Priscila Lourenço de mello
7 meses atrás

Ser missão Belém mudou minha vida iníciei na casa de acolhida e hoje 6 anos em restauração faço parte da evangelização