
Os 111 anos do genocídio armênio foram recordados com uma sessão solene realizada na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), na sexta-feira, 24. Por iniciativa dos deputados estaduais Danilo Balas e Gil Diniz, o ato reuniu autoridades civis, lideranças religiosas e representantes da comunidade armênia em um momento de memória, reflexão e compromisso com a dignidade humana.
Entre as lideranças religiosas participaram o Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo de São Paulo e recentemente nomeado Administrador Apostólico para os fiéis católicos armênios no Brasil. Também esteve Dom Nareg Berberian, Primaz Ortodoxo da Igreja Apostólica.

NÃO ESQUECER
Em seu discurso, Dom Odilo manifestou profunda solidariedade ao povo armênio, destacando a dimensão humana e espiritual da recordação. “Manter viva a memória desta tragédia é também preservar a identidade, a cultura e as raízes de um povo”, afirmou, sublinhando que a lembrança das vítimas deve inspirar coragem, perseverança e unidade às gerações atuais.
O Cardeal também advertiu para os riscos contemporâneos que podem conduzir a novas formas de violência coletiva. Segundo ele, “os genocídios não acontecem de um momento para o outro”, mas são precedidos de processos de disseminação do ódio e da intolerância. Nesse sentido, chamou a atenção para o papel das sociedades atuais diante do agravamento de discursos que incentivam a exclusão e a hostilidade, especialmente nas mídias digitais. “A cultura do ódio não constrói, ela destrói”, sublinhou, conclamando à promoção de uma cultura de paz, respeito e solidariedade.

O Arcebispo destacou ainda que a recordação do genocídio armênio deve suscitar um exame de consciência coletivo, capaz de despertar responsabilidades no presente. “Devemos construir pontes em vez de levantar muros”, disse, reforçando que a memória histórica tem também uma dimensão pedagógica, orientada à prevenção de novas tragédias.
As homenagens prosseguiram no domingo, 26, com um ato público na Praça Armênia, no bairro do Bom Retiro, que contou novamente com a presença de Dom Odilo. A iniciativa reforçou o compromisso da comunidade local com a memória das vítimas e com a promoção da paz entre os povos.

MASSACRE
O genocídio armênio ocorreu no contexto da 1ª Guerra Mundial, quando o então Império Otomano promoveu perseguições sistemáticas contra a população armênia, majoritariamente cristã e presente na região há séculos. A partir de abril de 1915, lideranças comunitárias foram presas e executadas, dando início a um processo organizado de deportações em massa. Centenas de milhares de armênios foram forçados a deixar suas casas e submetidos a longas marchas em direção a regiões desérticas, frequentemente sem acesso a água, alimento ou abrigo.
Esse processo de deslocamento forçado foi acompanhado por massacres, fome e exaustão, resultando na morte de aproximadamente 1,5 milhão de pessoas. O episódio é amplamente reconhecido por historiadores como uma das primeiras grandes tragédias humanitárias do século passado. Em 2015, por ocasião do centenário, o Papa Francisco referiu-se aos acontecimentos como “o primeiro genocídio do século XX”, ressaltando a gravidade histórica dos fatos e a necessidade de preservar a memória como caminho para a construção de um futuro mais justo e fraterno.




