Um dia com os moradores da Vila Reencontro

Inspiradas no modelo internacional Housing First (Moradia Primeiro), espaço mantido pela Prefeitura de São Paulo na zona Norte da cidade tem casas modulares para moradia provisória para quem antes vivia nas ruas

Luciney Martins/O SÃO PAULO

Há dois meses, Gilmara Gonçalves, 36, tem como endereço a Vila Reencontro Cruzeiro do Sul, localizada no Canindé, zona Norte da capital paulista. Esta é a residência atual de 102 pessoas, sendo 43 delas crianças de 0 a 12 anos. 

A unidade, primeira Vila a ser inaugurada pela Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS), integra o projeto de moradia provisória do Programa Reencontro que é voltado para pessoas em situação de vulnerabilidade social. 

Essa é a circunstância em que Gilmara se encontra com o marido e as filhas – uma criança de 4 anos e uma bebê de 9 meses. Antes da Vila, a família morou por um ano no Centro Temporário de Acolhimento (CTA) 18 do Canindé.

“Chegamos lá depois que meu marido perdeu o emprego e eu estava grávida”, expôs Gilmara ao O SÃO PAULO

Sentada na entrada da casa modular de 18 m² em que mora, Gilmara lembra o que sentiu quando soube que seria contemplada pelo projeto, que já conta com uma segunda unidade, a Vila Reencontro Anhangabaú, no centro.  

“Quase não acreditei quando soube que minha família viria para cá em dezembro. Foi uma alegria”, relembrou. 

“Aqui é aconchegante e ventilado. Minhas filhas, que são asmáticas, dormem bem. Meu marido está trabalhando e estamos dando andamento nos sonhos e nos planos”, contou, animada.

Gilmara sabe, porém, que se trata de uma residência temporária, em que poderá permanecer por até dois anos. Por isso, ela sempre conversa com a filha primogênita que ali não é a moradia definitiva da família.

“Ela acha que estamos na casa nova e gosta daqui. Por isso, meu marido e eu, temos sempre falado que não ficaremos aqui por muito tempo. Logo, iremos para outra casa que pretendemos alugar”, disse. 

Gilmara Gonçalves, moradora da casa 27 da Vila Reencontro
Luciney Martins/O SÃO PAULO

Por dentro das Vilas

As Vilas são compostas por casas modulares, com paredes e forro feitos de material antichamas com isolamento térmico e acústico, e se destinam a famílias que estejam em situação de rua.

As casas, chamadas de módulos, são identificadas por um número. “Isso faz toda a diferença. Preciso comprovar, por exemplo, meu endereço na creche da minha filha. Aqui moram 40 famílias. É importante poder identificar que moro na casa 27”, pontuou Gilmara. 

O perfil dos acolhidos nas Vilas, dentre outros critérios, tem sido: casais com filhos, famílias monoparentais e outros núcleos familiares que possuem crianças e adolescentes em sua composição. 

Cada módulo pode abrigar até quatro pessoas. O ambiente é dividido entre um quarto, uma minicozinha e um banheiro privativo. 

“Privacidade é muito importante. Posso deixar minha filha mais velha ir tomando banho enquanto separo a roupa dela. No CTA precisava sempre acompanhá-la até o banheiro porque muitas pessoas usavam o mesmo”, lembrou. 

A mobília de cada módulo é de acordo com a composição familiar, por isso podem ter cama de casal ou beliche e berço, além de guarda-roupa, geladeira e fogão com duas bocas. 

Essa estrutura tem proporcionado à Gilmara liberdade de preparar refeições. “Minha bebê está em processo de adaptação com alimentação e no CTA, embora fosse tudo muito bom, não tinha como eu fazer a comida dela. Aqui eu posso”, disse. 

As áreas comuns são compostas por horta, playground, lavanderia, cozinha e refeitório. Espaços que são cuidados pelos próprios acolhidos por meio de coletivos de alimentação, horta e limpeza. Esses grupos são mantidos com a participação voluntária dos moradores.   

Na Cruzeiro do Sul, os espaços comuns estão em construção. “Estamos finalizando as obras da lavanderia. Até o momento, as roupas estavam sendo lavadas por uma empresa contratada”, explicou à reportagem Kátia Ramos, supervisora de cogestão da unidade. 

A proposta é que a cozinha seja comunitária. “Provisoriamente, a comida está sendo fornecida por uma empresa terceirizada. Mas, logo, será feita aqui pelo coletivo”, detalhou Kátia. 

Gestão compartilhada 

A administração das Vilas funciona com cogestão de uma organização social, a Associação Voluntários para o Serviço Internacional (AVSI), junto às famílias. 

Na prática, têm sido feitas reuniões em que são discutidos os regimentos internos estruturais e de convivência. 

“A ideia é que venham da própria comunidade as decisões de quais são as consequências quando uma regra é quebrada”, disse Eliceli Bonan, coordenadora da Vila Cruzeiro do Sul. 

Eliceli menciona que o regimento da unidade está passando por uma revisão: “Estamos trabalhando pontos como se ocorrer uma discussão verbal a consequência é uma. Mas, se for uma violência física que, inclusive, é um crime, como lidar?”. 

São discutidos ainda horários da portaria, das refeições e do uso da lavanderia. “Para que se mantenha uma organização no espaço”, completou a coordenadora.

Sobre o acesso, embora os acolhidos tenham liberdade para entrar e sair do local, é preciso respeitar o horário das 6h até as 22h. Fora desse período, o morador precisa de uma autorização. 

Para Gilmara, o modelo de administração tem funcionado bem, assim como as regras estabelecidas. 

“O ser humano não vive sem regras, têm em todo lugar, só precisamos nos adaptar a elas. Assim, como preciso colocar regras nas minhas filhas para que não se tornem seres humanos desenfreados”, opinou Gilmara. 

Quem concorda com ela é Márcio Rodrigues, 43, outro morador. Desde dezembro passado, ele mora na Vila Cruzeiro do Sul com a esposa e o filho, de apenas 1 ano e três meses. 

“Liberdade precisa de limites. No início, achava ruim a questão do horário da portaria, mas depois fiquei pensando sobre o que eu faria na rua depois das 22h”, comentou Rodrigues, que, antes, morou dois anos com a família em um Hotel Social, no centro. 

Embora o local não esteja imune a situações de desentendimentos entre os moradores e, eventualmente, possam ocorrer discussões acaloradas, para Rodrigues o local proporciona segurança. 

“Eu me sinto tranquilo quando tenho que sair e deixar minha família sozinha. Algo que não era possível quando estávamos na rua, à deriva”, avaliou. 

Desde os 15 anos, Rodrigues gosta de tocar violão. Hobby que ele tem mantido na Vila, graças à doação de um instrumento, que está sendo compartilhado.

“Música contagia a todos. Com ela, ocupo meu dia e minha mente”, afirmou, dedilhando o instrumento sentado à porta de sua casa. 

Assistências

As Vilas também dão suporte para reinserção no mercado de trabalho, a fim de garantir autonomia. 

Uma equipe faz buscas ativas de vagas de emprego e a articulação dos perfis correspondentes entre os acolhidos. 

“A equipe também auxilia na preparação de currículo e dá orientações para as entrevistas”, aclarou Eliceli. 

Se houver contratação, o acolhido passa a receber dicas para o dia a dia de trabalho, com foco em inteligência emocional e educação financeira. 

As famílias aptas a saírem das Vilas serão acompanhadas por uma equipe durante seis meses, e passarão por avaliação. 

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Mauro José Braz
Mauro José Braz
10 meses atrás

É ótima está iniciativa,porém tem que haver um processo de adaptação para quem viveu na rua por longos tempos ou está vivendo.
As regras para estás pessoas são deficeis de aceitarem,não gostam de dar satisfações a ninguém,portanto é necessário que haja um testamento psicológicos para tal se não irá por água a baixo este maravilhoso projeto.
Quero saber também quais as providências que devo tomar para me candidatar a auxiliar de cozinha ok.