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Análise sobre Leão XIV na Espanha: primeiro o amor, depois a técnica

Visita de Leão XIV à Espanha foi marcada por forte defesa da dignidade humana, com seu ápice na inauguração da torre de Jesus na Basílica Sagrada Família

Análise sobre Leão XIV na Espanha: primeiro o amor, depois a técnica - Jornal O São Paulo
Vatican News

Uma catedral não se constrói de um dia para o outro. No caso da Basílica da Sagrada Família, ícone da Igreja em Barcelona e, agora, a igreja mais alta do mundo, isso já se sabia desde o início. O arquiteto que a idealizou, Antoni Gaudí, cujo processo de beatificação está aberto, costumava dizer: “Primeiro o amor, depois a técnica”.

Nessa frase, que foi estampada no céu de Barcelona por drones iluminados na noite de inaugura­ção da Torre de Jesus, abençoada pelo Papa Leão XIV, Gaudí afirmava que, por mais complexa que seja uma obra das mãos humanas, ela nunca terá sentido se não partir da experiência viva, da relação.

O espetáculo que marcou o centenário da morte de Gaudí – o primeiro motivo para que o Pontí­fice fosse à Espanha neste momento – ocorre em um mundo em que, de formas novas, a técnica volta a ameaçar a dignidade humana. A inteligência artificial e as guerras praticadas a distância, mas que acabam com vidas reais, são talvez o elemento mais visível atualmente.

Toda a visita apostólica do Papa Leão XIV à Espanha, entre os dias 6 e 12, começando por Madri, passando por Barcelona e terminando nas Ilhas Canárias, foi uma defesa da dignidade humana. Ele repercutiu em gestos e palavras os ensinamentos da sua primeira encíclica, Magnifica humanitas, que aprecia a vida humana em toda e qualquer circunstância.

TODOS SOMOS AMADOS POR DEUS

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“A dignidade precede a utilidade”, declarou o Papa no Parlamento espanhol. “A dignidade, a jus­tiça e o bem comum sejam o critério das relações sociais, tanto em nível nacional quanto internacio­nal”, exortou. “Toda sociedade verdadeiramente justa se constrói no reconhecimento da dignidade inviolável da pessoa humana.”

No Centro Penitenciário “Brians 1”, de Barcelona, ele reiterou que “todo o ser humano é digno pelo simples fato de ter sido querido, criado e amado por Deus”. Nenhum erro, portanto, é capaz de eliminar o amor de Deus. “Não há nenhuma situação que faça com que o Senhor desvie de nós o seu olhar. É uma verdade consoladora que nos acompanha a cada momento e que nos lembra como o seu amor misericordioso está sempre acima de todo o bem ou mal que tenhamos feito”, disse, aos presos.

A DIGNIDADE NÃO TEM PASSAPORTE

Princípio central da Doutrina Social da Igreja, a dignidade humana é ameaçada por muitas si­tuações de sofrimento concreto. A fase final da visita do Papa marcou encontros com pessoas que tiveram a sua dignidade ferida. Em Gran Canaria e Tenerife, o Pontífice pediu à comunidade inter­nacional que volte a dedicar a atenção necessária à questão da mobilidade humana.

O direito de migrar deve ser equivalente ao direito de permanecer na própria terra – disse às au­toridades públicas. Ele afirmou que a história julgará aqueles que reagirem com indiferença perante o sofrimento e a morte de milhares de pessoas que morreram no Mar Mediterrâneo, em viagens inseguras rumo à Europa, e depositou uma coroa de flores na água.

Em uma mensagem clara, declarou: “A dignidade humana não tem passaporte e não perde o seu valor ao atravessar uma fronteira.”

O Papa também denunciou a exploração da migração ilegal para fins econômicos e, com palavras parecidas às que São João Paulo II dedicou a membros da máfia italiana, exclamou aos traficantes de pessoas: “Arrependam-se! Convertam-se!”; e agradeceu àqueles que, com amor, trabalham na acolhida e integração dos migrantes.

Na missa celebrada no Estádio de Gran Canaria, o Papa falou da expressão maior de amor, o que vem de Deus, que deve ser acolhido e praticado entre nós. A generosidade do Coração de Cristo, disse ele, “vai mais além, comprometendo-se a ajudar cada um não só a sobreviver, mas também a recuperar a confiança e a retomar o caminho, para crescer e florescer plenamente na sua singulari­dade, para o bem de todos”.

OLHAR PARA O ALTO

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Tema de toda a viagem à Espanha, “Levantai os olhos” (Jo 4,35), refere-se ao olhar que se dirige aos céus, ao amor que vem de Deus e orienta a vida na Terra. A bênção e inauguração da torre da catedral mais alta do mundo, com uma cruz apontando para o céu, simboliza a mensagem central que o Papa Leão XIV transmitiu no país.

Um edifício feito de pedras, é verdade, mas também de vidas humanas. “A Basílica da Sagrada Família continua até hoje uma obra em andamento, o que nos lembra de que a vida cristã é sempre um caminho, pois se trata de um projeto que Deus está realizando”, recordou.

Aos jovens, em um estádio em Barcelona, ele fez o convite para continuar olhando para o alto e apontando para o céu. “É preciso cultivar essa inquietação saudável. Em nossas sociedades, de fato, a idolatria do lucro e do rendimento, a ânsia de ter que produzir sempre e ser vencedores, bem como o culto à própria imagem, não passam de anestésicos para adormecer nossa consciência e adaptá-la a uma certa ideia de sociedade”, afirmou.

“Quando as pessoas aprendem a fazer uma pausa, a valorizar as coisas importantes, a apreciar o tempo de uma nova maneira e a refletir sobre a própria vida, deixando-se iluminar pelo Evangelho, elas também desenvolvem um pensamento crítico em relação a um sistema social que não coloca a pessoa no centro e provoca situações de injustiça e pobreza existenciais em diversos níveis”, disse, ainda.

“É por isso que a inquietação assusta, assim como a descoberta da interioridade, da espiritualida­de e, mais ainda, do Evangelho”, ensinou o Santo Padre.

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