Bento XVI nega ter acobertado abusos na Alemanha

Em relatório publicado esta semana, Papa Emérito afirma que não tinha conhecimento de denúncias contra padre acolhido na Arquidiocese de Munique na década de 1980

(Atualizado em 24/01/2022, às 11:55)

Bento XVI nega ter acobertado abusos na Alemanha
Papa Emérito Bento XVI (Foto: Arquivo/Vatican Media)

O Papa Emérito Bento XVI reiterou que não acobertou sacerdotes acusados de abusos sexuais contra menores no período em que foi Arcebispo na Alemanha. Essa declaração consta no “Relatório sobre o abuso sexual de menores e adultos vulneráveis ​​por clérigos, bem como [outros] colaboradores, na Arquidiocese de Munique e Freising de 1945 a 2019”, encomendado por essa mesma Arquidiocese ao escritório de advocacia Westpfahl Spilker Wastl em fevereiro de 2020 e apresentado na quinta-feira, 20.

Em um documento de 82 páginas incluso no relatório, conforme informou o jornal alemão Bild, Bento XVI explica que não tinha conhecimento da denúncia de abuso contra um menor cometido por um sacerdote da Diocese de Essen em 1979 que, no ano seguinte, foi acolhido para ser submetido a um tratamento terapêutico na Arquidiocese de Munique, da qual o então Cardeal Joseph Ratzinger esteve à frente entre 1977 e 1982. Esse mesmo Padre, no entanto, foi considerado culpado por molestar menores em uma paróquia da mesma Arquidiocese em 1986.

Embora o documento do Papa Emérito alegando sua a inocência conste no relatório, os relatores o contestam. O secretário Particular Bento XVI, Dom Georg Gänswein, declarou ao jornal alemão Die Zeit que a afirmação de que o então Arcebispo tinha conhecimento das alegações de abuso sexual no momento da decisão de admitir o referido sacerdote na Arquidiocese é errada. “Ele não tinha conhecimento de sua história anterior”, reforçou.

Em um comunicado divulgado pelo Vatican News, Dom Georg afirmou que, nos próximos dias, Bento XVI examinará o relatório de mais de mil páginas com a atenção necessária. “O Papa Emérito, como já repetiu várias vezes durante os anos do seu pontificado, exprime sua perturbação e vergonha perante os abusos de menores cometidos por clérigos, e expressa a sua proximidade pessoal e a sua oração por todas as vítimas, algumas das quais ele encontrou por ocasião das suas viagens apostólicas”, acrescentou.

Entenda o caso

O recente relatório dedica 350 páginas para tratar do caso do Padre Peter Hullermann – mencionado do documento apenas como “Padre H.” – e revelado pela primeira vez em março de 2010 pelo jornal Süddeutsche Zeitung, de Munique.

Na época, a Arquidiocese de Munique divulgou um comunicado no qual seu ex-Vigário Geral, Monsenhor Gerhard Gruber, assumiu “total responsabilidade” por não impedir o Padre Hullermann de exercer o ministério pastoral.

A Arquidiocese apresentou um relato detalhado do caso, dizendo que a Diocese de Essen solicitou à Arquidiocese de Munique e Freising que aceitasse o referido Padre como capelão em janeiro de 1980, para que o clérigo pudesse se submeter à terapia.

Hullermann foi acomodado em uma casa paroquial para poder participar de sessões de terapia. “O Arcebispo da época [Ratzinger] participou dessa decisão”, disse a arquidiocese. “Ao contrário desta decisão, no entanto, o Sacerdote foi então designado sem quaisquer restrições à assistência pastoral em uma paróquia de Munique pelo então vigário geral”, disse o comunicado.

Na declaração da época, Monsenhor Gruber já reconhecia que sua decisão de autorizá-lo a exercer o cuidado pastoral paroquial foi um erro grave. “Assumo total responsabilidade por isso”, afirmou.

Após a denúncia, Hullermann foi suspenso de seu cargo na cidade bávara de Bad Tölz, para onde havia sido transferido em 2008. Segundo a agência CNA Deutsch, acredita-se que o Padre, agora com 74 anos, esteja morando na Diocese de Essen desde o primeiro semestre de 2021.

Nova declaração

Em um comunicado publicado no semanário católico alemão Die Tagepost na segunda-feira, 24, o Papa Emérito, por meio de seu Secretário, confirmou que participou da reunião ordinária realizada em 15 de janeiro de 1980, na qual foi tratada a trasnferência do Padre Peter Hullermann da Diocese de Essen para a Arquidiocese de Munique. Dom Goerg Gänswein reforçou que, na referida reunião, foi acordado que o Sacerdote deveria receber acomodação em Munique enquanto fazia terapia e reiterou que nenhuma decisão foi tomada sobre uma atribuição pastoral do Padre. “Pelo contrário, apenas o pedido de acomodação durante seu tratamento terapêutico em Munique foi concedido”, frisou.

“Mesmo se esforçando para ler o relatório rapidamente, ele [Papa Emérito] pede sua compreensão de que levará algum tempo para lê-lo na íntegra devido à sua idade e saúde, mas também por seu grande volume”, acrescentou o Secretário, informando que em breve haverá uma declaração sobre seu conteúdo.

O que diz a Santa Sé

Em 2010, a Santa Sé se manifestou apontando que a declaração da Arquidiocese de Munique confirma a posição de que o então Arcebispo, Cardeal Ratzinger, não tinha conhecimento da decisão de transferir o Padre H. para atividades pastorais em uma paróquia.

Após a publicação do relatório, o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Matteo Bruni, disse aos jornalistas que a Santa Sé considera que deve ser dada a devida atenção ao documento. “Ao reiterar o sentimento de vergonha e remorso pelo abuso de menores cometido por clérigos, a Santa Sé assegura a proximidade a todas as vítimas e confirma o caminho tomado para proteger os mais pequeninos, garantindo-lhes ambientes seguros”, ressalta o comunicado.

Ratzinger e o combate à pedofilia

Bento XVI nega ter acobertado abusos na Alemanha
Cardeal Ratzinger, então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (reprodução da internet)

No período em que foi Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (1981-2005), o então Cardeal Ratinzger sempre se empenhou na atualização das normas para o combate aos abusos de menores por membros da Igreja. Especialmente após a publicação do novo código de Direito Canônico, em 1983.

Na década de 1990, a Santa Sé concedeu algumas normas específicas para as conferências dos bispos dos Estados Unidos e da Irlanda para enfrentar as graves denúncias que estavam surgindo de delitos cometidos por clérigos contra menores de idade. Nessa ocasião, foi indicado explicitamente aos Bispos que realizassem os processos canônicos nas Dioceses. Os apelos foram reservados à Rota Romana, os recursos administrativos à Congregação para o Clero.

Nos anos 2000, foram dados passos significativos, após a publicação do Motu Proprio Sacramentorum sanctitatis tutela, de São João Paulo II, em 2001. Logo em seguida, a Congregação para a Doutrina da Fé, publicou Normas Sobre os Delitos Mais Graves.  

Papa Bento XVI

Após assumir o pontificado, em 2005, o Papa Bento XVI, solicitou a revisão das normas substanciais e processuais do Motu Proprio Sacramentorum sanctitatis tutela visando, sobretudo para tornar mais rápidos os procedimentos em vista do julgamento e esclarecimento das denúncias e da aplicação da pena nos casos de comprovado delito. Esse texto obteve a aprovação do então Pontífice em dia 21 de maio de 2010.

Houve, por exemplo, a tipificação do delito de “pedopornografia”, isto é, a aquisição, detenção ou a divulgação, de qualquer modo e com qualquer meio, de imagens pornográficas que têm como objeto menores com idade inferior a 14 anos. Houve a equiparação com o menor de idade também os maiores que “habitualmente têm uso imperfeito da razão”. Também aumentou o período de prescrição dos delitos relacionados a abusos para 20 anos a contar do momento que a vítima completa 18 anos. Foi introduzida a possibilidade de adotar as medidas cautelares também durante a fase de averiguação prévia da denúncia e outras mudanças.   

Durante a sua visita ad limina dos bispos irlandeses a Roma em 2006, logo após o surgimento de escândalos de abusos por parte de clérigos daquele país, o Bento XVI os exortou a “estabelecer a verdade de quanto aconteceu no passado, a tomar todas as medidas adequadas para evitar que se volte a repetir no futuro, a garantir que os princípios de justiça sejam plenamente respeitados e, sobretudo, curar as vítimas e quantos são atingidos por estes crimes abnormes”.

Pontífice encontrou vítimas em várias ocasiões, ouvindo seus sofrimentos, rezando com elas e por elas. Em fevereiro de 2010, convocou a Roma os bispos irlandeses novamente para examinar com eles as medidas que tomadas para sanar o problema, com particular referência aos procedimentos e aos protocolos em vigor na época para garantirem a tutela dos jovens nos ambientes eclesiais e para responder com rapidez e com justiça às denúncias de abusos. Em março do mesmo ano, escreveu uma carta pastoral aos católicos a Irlanda, em que expressou sua consternação com as notícias de abusos.

“Não posso deixar de partilhar o pavor e a sensação de traição que muitos de vós experimentastes ao tomar conhecimento destes atos pecaminosos e criminais e do modo como as autoridades da Igreja na Irlanda os enfrentaram”, afirmou, reiterando o compromisso da Santa Sé em enfrentar com rigor tais situações, determinando a realização de uma visita apostólica às dioceses e congregações irlandesas para investigar as denúncias.

Resposta da Igreja

As normas para o combate aos abusos foram recentemente atualizadas pelo Papa Francisco, mantendo, contudo, em grande parte, a essência da legislação de seu predecessor.

No portal da Santa Sé, há uma seção intitulada “Abuso de Menores. A Resposta da Igreja”, que reúne diversos documentos relacionados ao tema.  

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