O cenário da evangelização global, os frutos do recente Ano Jubilar e os desafios éticos impostos pelas novas tecnologias, especialmente a Inteligência Artificial, foram os temas centrais de encontros no Vaticano. O jornalista Silvonei José recebeu nos estúdios da Rádio Vaticano – Vatican News, o arcebispo de São Paulo, cardeal Odilo Pedro Scherer, que partilhou os detalhes da sua participação na plenária do Dicastério para a Evangelização e analisou a nova encíclica do Papa Leão XIV.

O encontro, que reuniu nos dias passados no Vaticano (se concluiu nesta quinta-feira) membros do Dicastério para a Evangelização na Sala Nova do Sínodo, concentrou-se na avaliação da caminhada eclesial e, de modo especial, no impacto do Jubileu de 2025, cujo tema foi a Esperança.
No seu discurso aos participante n a manhã desta quinta-feira (28/05) o Papa destacou que levar a mensagem de Jesus ao mundo, significa hoje se confrontar com dinâmicas profundamente alteradas em relação às gerações passadas, a ponto de se interromper a própria transmissão da fé em algumas regiões do mundo:
“As causas dessa situação são conhecidas e múltiplas; o que resulta disso, porém, nas jovens gerações, é uma ‘pobreza’ espiritual, uma carência de motivações e de instrumentos para poder amadurecer em plena liberdade aquela adesão à fé que dá sentido à vida.”
Para contrariar essa deriva, há as “numerosas e variadas” expressões da vida da comunidade cristã, que escutam e dialogam com as novas gerações, afirma o Papa:
“O clima cultural predominante nas sociedades hipermidiáticas e consumistas reduz a capacidade de aprender com paciência e de trilhar, com esforço, um caminho de busca pessoal da verdade, com perseverança e senso crítico. Toda mensagem corre o risco de ser percebida como apenas mais uma opinião entre tantas.”
Na conversa com a Rádio Vaticano – Vatican News e falando sobre a Plenária do Dicastério para a Evangelização o cardeal Scherer destacou o tema da avaliação geral do Ano Santo, dizendo que o Jubileu foi extremamente positivo, superando as expectativas iniciais de afluência de peregrinos a Roma, além de ter sido amplamente celebrado e acolhido nas diversas conferências episcopais e dioceses pelo mundo.
“O tema da esperança despertou uma atenção e um interesse especial. A cultura atual é carente de esperança, e a Igreja tem motivos para apresentá-la. Isso teve uma ressonância muito positiva e reaproximou muitas pessoas da Igreja”, destacou o Cardeal.
A Nova Evangelização e o desafio da transmissão da fé
Os trabalhos da assembleia, que decorreram ao longo da semana com sessões intensas de manhã e à tarde, focaram-se na urgência de encontrar novos métodos para a transmissão da fé na sociedade contemporânea. Entre os pontos discutidos, destacam-se:
Iniciação à vida cristã e catequese de adultos: diante do crescente número de adultos que procuram a conversão e o contacto com a Igreja, sublinhou-se a necessidade de um acompanhamento próprio e de metodologias renovadas para acolhê-los. Dom Odilo recordou que esta preocupação já está integrada nas novas diretrizes gerais da ação evangelizadora da Igreja no Brasil, aprovadas na última Assembleia Geral da CNBB.
Evangelização da Juventude: foi manifestada uma forte preocupação com o distanciamento de adolescentes e jovens após a catequese inicial (Primeira Eucaristia e Crisma). O Dicastério estuda novas formas de inserção e itinerários que evitem o abandono desses jovens no caminho da fé.
Magnificas humanitas
Outro marco fundamental da semana foi a publicação da encíclica Magnifica humanitas, a primeira do Papa Leão XIV, que aborda diretamente o avanço tecnológico e os desafios do mundo digital.
Embora tenha classificado a sua primeira leitura como rápida devido aos compromissos em Roma, dom Odilo Scherer ressaltou que o documento pontifício oferece orientações seguras e proféticas para a atualidade. O cardeal sintetizou as diretrizes da encíclica em quatro eixos fundamentais:
Compreender sem temer: a Igreja não deve ter medo da internet ou da Inteligência Artificial, mas sim buscar compreender este fenômeno que permeia toda a sociedade.
Uso responsável: trata-se de uma tecnologia “prodigiosa” que deve ser canalizada para o bem comum e para a otimização da ação pastoral.
Atenção aos riscos éticos: Embora a tecnologia em si seja neutra, o seu controle não o é, encontrando-se frequentemente concentrado em mãos poderosas que orientam as ferramentas segundo intenções particulares.
A primazia da pessoa humana: o Papa recorda que nenhum meio de comunicação ou inteligência artificial é mais importante do que o ser humano. A tecnologia deve servir à pessoa, e não o contrário.
“O Papa aponta para o que precisa ser tido sempre: a pessoa humana está sempre em primeiro lugar. Não é a mídia ou a tecnologia que é mais importante, mas sim quem a cria e a recebe”, concluiu o arcebispo de São Paulo.
Fonte: Vatican News




