
Vivemos hoje uma nova encruzilhada e, como sinalizava o Papa Leão XIII, autor da famosa encíclica Rerum Novarum, “a Igreja não pode ficar distante” das realidades do mundo. Assim refletiu o Papa Leão XIV durante a apresentação da sua nova encíclica, Magnifica humanitas, na segunda-feira, 25.
“A inteligência artificial deve ser desarmada, libertada das lógicas que a transformam em um instrumento de dominação, exclusão e morte”, afirmou o Pontífice, com firmeza. “Tal como a energia nuclear, deve estar a serviço de todos e do bem comum. As decisões relativas à tecnologia nunca devem ser separadas da consciência e da responsabilidade.”
Este foi um evento sem precedentes na história do Vaticano: o próprio Pontífice veio a público, acompanhado de outros palestrantes, para apresentar e promulgar o seu novo documento magisterial, diante de integrantes do corpo diplomático, membros da Cúria Romana e alguns representantes da imprensa internacional. “Não podemos ser negligentes no uso dos nossos instrumentos técnicos mais poderosos”, exortou.

Se há 135 anos a Igreja percebeu que a Revolução Industrial transformaria o mundo, hoje vivemos uma situação parecida, disse o Papa Leão XIV. “Estamos perante uma transformação de dimensões semelhantes, com consequências talvez ainda maiores”, refletiu. “A inteligência artificial já abrange muitos âmbitos da nossa vida, influenciando decisões que modelam a coexistência humana. Altera-se também de maneira dramática o modo de travar a guerra.”
Mais do que simplesmente falar de temor ou cautela, é preciso construir algo novo, com o propósito correto. “A paz não é apenas a ausência de guerra, mas é a justiça em ação. No entanto, quando a tecnologia debilita o nosso sentido crítico, a própria paz está em risco”, disse ele.
A experiência do Papa como missionário no Peru o ensinou que “reconstruir não significa simplesmente substituir o que foi destruído. Significa reparar laços, restabelecer a confiança e reavivar a esperança no futuro. Além disso, ninguém reconstrói sozinho”, comentou, ainda, ao falar da Magnifica humanitas.

Uma encíclica que, nas palavras do Santo Padre, é resultado da escuta de especialistas, profissionais da tecnologia e membros das comunidades mais afetadas pela IA. Ele disse que a Igreja está aberta a continuar ouvindo e tem o “compromisso de permanecer vigilante”, para enfrentar os desafios atuais “com coragem” e “cooperar na construção de uma sociedade mais humana e fraterna”.
Durante a apresentação do documento, quatro palestrantes refletiram sobre o texto: o Cardeal Michael Czerny, Prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral; o Cardeal Victor Manuel Fernández, Prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé; a professora Anna Rowlands, especialista em Doutrina Social da Igreja, da Universidade de Durham, na Inglaterra; a professora Léocadie Lushombo, consagrada e professora de Ética Teológica na Santa Clara University, nos Estados Unidos; e Christopher Olah, cofundador da empresa de Inteligência Artificial Anthropic.

IA: UM ‘CANTEIRO DE OBRAS’
Os desafios que enfrentamos com a inteligência artificial são enormes, mas devem ser vistos à luz da engenhosidade humana, que é um dom de Deus. No entendimento do Cardeal Michael Czerny, um dos articuladores que auxiliaram o Papa na elaboração da nova encíclica, a IA é ainda um projeto em construção e pode ser bem direcionado, mas é preciso tomar as rédeas imediatamente.
“O que está sendo construído é aberto e ainda não está concluído, é um lugar em formação. Isso exige competências diversas, coordenação e, acima de tudo, uma visão comum. Ninguém constrói sozinho; as escolhas de cada um afetam todo o projeto”, disse, referindo-se à IA como um “canteiro de obras”.
“O canteiro de obras digital e o canteiro de obras da nossa casa comum convergem para a mesma questão: que tipo de mundo estamos construindo e que lugar a pessoa humana ocupa nele?”, afirmou, em menção ao texto. “Esta é, talvez, a contribuição mais original que a fé cristã traz ao debate sobre a inteligência artificial: a convicção de que os seres humanos sempre transcendem a soma de suas realizações”, disse, citando Gaudium et spes, 24.

VERDADEIROS INCENTIVOS
Uma das presenças mais esperadas no evento, Christopher Olah, da Anthropic, afirmou receber com alegria o documento do Papa, pois o mundo da tecnologia precisa de pressões externas. Ele reconheceu que as empresas e indivíduos operam na base de “incentivos” e que o financeiro é o principal. Eles precisam lidar com “a pressão para se manterem comercialmente viáveis e permanecerem na vanguarda da pesquisa, a pressão geopolítica, e as pressões mais antigas e evidentes do orgulho e da ambição”, admitiu. “Por mais sinceramente que qualquer um de nós pretenda fazer a coisa certa – e acredito que muitos de nós o façamos –, sempre seremos influenciados por esses incentivos.”
Por isso, ele notou que é importante que outras organizações pressionem na direção certa: a proteção dos que estão às margens das decisões. “O desenvolvimento da IA está concentrado em um punhado de países ricos. Como podemos garantir que os benefícios da IA sejam compartilhados globalmente?”
Nessa direção foi a reflexão da professora Léocadie Lushombo. Ela recordou que o ser humano aprende melhor quando vive uma experiência completa e comunitária, e não só por meio da difusão de informações: “Aprendemos melhor quando somos amados e incentivados a ter confiança em nossas habilidades. Não podemos desenvolver nossas capacidades cognitivas sem o amor dos outros”.




