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Em Assis, Papa convida a construir a civilização do amor, e não das contraposições

Após um voo de meia hora, a chegada ao campo esportivo “Migaghelli”, em Santa Maria dos Anjos. Papa Leão XIV então de carro se dirigiu para a Basílica de Santa Maria dos Anjos. Ao chegar ao convento, foi recebido pelos ministros gerais das Ordens franciscanas – Frades Menores, os Conventuais e os Capuchinhos -, os freis Massimo Fusarelli, Carlos Alberto Trovarelli e Roberto Genuin.

Na Piazza Santa Maria dos Anjos, ele encontrou-se com os jovens, que lhe fizeram três perguntas.

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Fotos: Vatican Media

SER AUTÊNTICOS DISCÍPULOS DE CRISTO

A primeira foi de Karolina, de Zagreb que pediu ao Santo Padre, que conselho daria aos jovens que cresceram na espiritualidade franciscana, para poderem continuar a ser autênticos discípulos de Cristo e levar esperança aos jovens sem perder a alegria do Evangelho?

O Santo Padre disse que a própria pergunta já continha parte da resposta, pois testemunhaste – disse – o estilo de simplicidade, fraternidade e proximidade que te convenceu e permitiu amadurecer na fé, inserida numa comunidade, mas aberta a todos. E isto numa região da Europa que, há apenas trinta anos, conheceu a guerra e a perigosa ligação entre confissão religiosa e nacionalismo.

Na verdade – continuou o Papa -, a presença dos franciscanos inspirou, durante séculos, o diálogo e ajudou à convivência pacífica entre católicos, ortodoxos e muçulmanos. Hoje, ser fiel a esta tradição de proximidade significa ir contracorrente. Cada vez mais se pedirá aos cristãos para serem construtores de paz no seio de sociedades tentadas a instrumentalizar a religião no confronto entre identidades. Portanto, ser testemunha de Cristo continua algo fascinante e exigente, porque alarga a mente e o coração além de fronteiras artificiais, ou seja, além dos medos induzidos pela má informação e pelos muros dos preconceitos.

Evitar a cultura do poder e construir a civilização do amor não é algo que se compreenda e aceite de imediato. Com São Francisco, – disse o Papa – aprendei a radicalidade evangélica, que é o oposto do fundamentalismo: não torna cegos nem violentos, mas sensíveis, atentos, sempre no seguimento de Jesus e, por isso, humildes e acolhedores para com todos. Não é fácil, mas dá muita alegria.

Falando da experiência de Francisco que reuniu centenas de jovens irmãos vindos de toda a Europa, todos ocupados em falar sobre Deus, em orações, em lágrimas, em exercícios de caridade; e estavam com tanto silêncio e tanta modéstia que aí não se ouvia nenhum barulho, disse que esse silêncio é o oposto da guerra, com as suas violências, gritos e crueldades. “As esteiras daqueles frades, tal como hoje os vossos sacos de dormir, falam de paz. Eis a Igreja: uma assembleia de irmãos e irmãs, para a qual todos estão convidados”.

Testemunhai – disse o Papa – este estilo em todo o lado, especialmente numa época em que a tecnologia nos desabitua de estar juntos, entre pessoas de carne e osso.

São Francisco intuiu que escolher a pobreza pode aproximar os que estão distantes, encoraja ao encontro e convida à troca de dons. Intuiu, assim, que o Evangelho não é separável das escolhas de Jesus Cristo, que se fez pobre para nos enriquecer: o Evangelho é a sua vida, o seu caminho, a sua confiança inabalável no Pai.

Se nos reunirmos em seu nome, Ele vem estar no meio de nós e a alegria que nos enche o coração é livre e sincera. Mais do que as palavras, esta alegria evangeliza e não se pode esconder.

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TER A CORAGEM DE MANTER O SIM A DEUS

Depois a pergunta de Giovanni, da cidade italiana de Bolonha: num mundo onde reina a cultura do provisório e em que as escolhas de vida definitiva nos assustam, como podemos dizer-Lhe um “sim” total e corajoso, evitando “olhar para trás depois de deitar a mão ao arado”, atribuindo um peso excessivo aos esforços e às renúncias do caminho? O que o ajudou no seu percurso vocacional?

O Papa fala de uma pergunta corajosa, repleta do desejo daquilo que não passa. Hoje em dia, tendemos a falar negativamente do provisório. Outrora, era a Igreja que educava com insistência para o sentido do provisório: este mundo passa, o tempo corre, as coisas terrenas são mutáveis. Só Deus permanece, porque é eterno.

Temos, portanto, de nos perguntar o que mudou, para não estarmos entre aqueles que lamentam o passado e, por isso, não enfrentam o presente nem assumem responsabilidades em relação ao futuro.

Hoje com uma interpretação por vezes confusa da liberdade, iludimo-nos a pensar que a vida nunca se resolve de uma vez para sempre, porque o contexto em que vivemos muda rapidamente e nós próprios também mudamos muito. Com isso, porém, aumentam o medo e a possibilidade de nos perdermos. Neste contexto, a coragem de fazer uma escolha definitiva é talvez o ato mais revolucionário.

“Decidir para sempre não nos aprisiona numa jaula, mas abre-nos a um dinamismo maior. Amar é um êxodo, uma estrada por descobrir, um caminho que Deus percorre conosco, e este é o verdadeiro sentido de toda a vocação”. A Bíblia inspira-nos a viver assim: como quem é chamado a levantar-se, a percorrer a própria história, recebendo como um dom a orientação e o sentido do Senhor, para amar segundo os seus desígnios. A fé, a confiança e a fidelidade revelam aqui o seu indissolúvel entrelaçamento.

Desta forma, na fé, – disse o Papa -, desmascaramos a ilusão de que os problemas se resolvem fugindo, traindo ou tentando dar alguns passos por caminhos sempre diferentes, sem nunca irmos longe. Com efeito, é possível multiplicar experiências, contatos e consumos, permanecendo, no entanto, sempre no mesmo ponto.

“O custo humano é elevado e o vazio interior, profundo. Não raro, chega-se a usar as pessoas e a ser usado por elas. “Para sempre” é, então, uma graça à qual o próprio Deus nos ajuda a responder com a nossa fidelidade, para uma vida em plenitude”.

E o conselho do Papa: “desde a adolescência, é importante aprender a conhecer-se a si mesmo, a decidir e a arriscar – ou seja, a responder ao Senhor que chama – sem deixar de o fazer na idade adulta, no âmbito de decisões já feitas e perante as que ainda estão por tomar. É uma aventura na qual ninguém deve sentir-se sozinho e que, tal como a fé, durará até ao último instante”.

Falando da sua experiência, disse que o “Senhor nunca me deixou sozinho: acompanhou-me sempre, dando-me também pessoas com quem caminhar. Assim, enquanto vocacionado ao sacerdócio, membro da comunidade agostiniana, missionário, encontrei como que uma luz que me guiou até hoje, até quando tive de dizer “sim” a um chamamento muito especial: o de ser Papa”.

O Santo Padre acrescentou dizendo que cada vocação é também um caminho de redenção e cura. O convite de Jesus, que nos chama a segui-Lo, ilumina a nossa dignidade e leva-nos a honrar a dos outros, experimentando e dando confiança: esta dinâmica é tão libertadora que merece toda a nossa paixão.

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O DESEJO DE JESUS PARA SUA IGREJA

A última pergunta foi de Luigi de Paternò, Sicília, um jovem de 22 anos. Falando de Francisco que apesar de viver numa época em que a Igreja era marcada por contradições e dificuldades internas, ele não escolhe o caminho da heresia; não ataca nem julga a Igreja daquele tempo, mas prefere obedecer ao Papa. Hoje em dia, muitos jovens dizem “acreditar, mas não na Igreja” e nós, a partir das nossas comunidades, vemos por vezes uma Igreja com as suas contradições e as suas crises internas; por isso, pergunto-me: como fazer para permanecermos neste Amor reparador? Por que é difícil, hoje, ver a Igreja como uma Mãe que, apesar das suas feridas, está sempre pronta a acolher-nos e a amar-nos?

O Papa fala de uma pergunta muito atual e que nos leva ao cerne da experiência de São Francisco. Abordá-la significa partilhar um desejo: o desejo do Senhor Jesus para a Igreja. Francisco ouviu-o, contemplando o Crucifixo. Devemos sempre voltar a este desejo. Muitas pessoas ao longo da história, e também hoje, não conseguiram fazer a experiência da Igreja tal como Jesus Cristo deseja que ela seja. Isto causa sofrimento, deixa feridas e desilusões e, para alguns, pode até tornar-se um impedimento à fé.

No Evangelho – destacou o Papa -, Jesus alerta para este tipo de tropeço, ou seja, para o escândalo que os seus discípulos podem causar aos outros, especialmente aos pequenos e aos pobres. “O desejo de Jesus – vemo-lo no grupo que, desde o início, se forma à sua volta – é reunir um povo, no qual seja ultrapassado o que, geralmente, divide os seres humanos”. À volta de Jesus, homens e mulheres que, de outra forma, nunca se teriam encontrado nem relacionado, tornam-se irmãos e irmãs.

Se nos reconhecermos irmãos e irmãs, quantas discriminações e desigualdades poderiam acabar num instante, disse!

Há ainda outro aspecto desta unidade revolucionária, continuou o Papa. Jesus diz: “Não deve ser assim entre vós”, ou seja, não deve ser como entre os grandes da Terra e os poderosos do mundo, que procuram visibilidade e dominam sobre os outros. O desejo de Jesus para a Igreja é claro: trata-se de se tornar o seu corpo e manifestar a sua vida, de seguir o seu exemplo e exercer um tipo diferente de força, que não humilha, mas eleva.

A Palavra de Deus, os Sacramentos e a prática do amor fraterno – evidenciou o Papa – são caminhos de transformação para dar forma em nós à imagem de Cristo. Francisco percorreu-os. “Não dominar, mas servir; não se apoderar, mas receber; não reter, mas devolver: é a vida de Deus que repara a Igreja e a torna um povo livre, um lugar onde se respira e se encontra a salvação”.

O Papa Leão XIV disse que temos diferentes responsabilidades e vocações, mas caminhamos juntos, inspirando-nos, ajudando-nos e corrigindo-nos mutuamente.

“É importante fazermos a nossa parte. Então falaremos da Igreja com o carinho com que se fala de uma Mãe, porque reconheceremos que lhe pertencemos. Será uma forma sincera de querer bem àquelas pessoas e àquela história em que Jesus Cristo vem até nós e permanece conosco”. “Por isso, para partilhar o desejo do Senhor, não é preciso mostrarmo-nos melhores do que somos. Há que reconhecer e deixar que Jesus Ressuscitado atue na nossa vida, na história de todos nós”.

Fonte: Vatican News – reportagem de Silvonei José

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