
Sob forte chuva, detentos da Prisão de Bata dançaram e cantaram “Liberdade!” durante a visita do Papa Leão XIV à Guiné Equatorial, único país de língua espanhola na África. “Ninguém está excluído do amor de Deus”, disse ele, em um dos momentos mais emblemáticos de sua visita apostólica de pouco mais de dois dias, de 21 a 23 de abril.
“Cada um de nós, com sua história, seus erros e seus sofrimentos, continua sendo valioso aos olhos do Senhor. Podemos afirmar isso com certeza, pois Jesus nos revelou isso em cada encontro, em cada gesto e em cada palavra”, disse o Santo Padre. “Mesmo quando foi preso, condenado e levado à morte sem ter cometido nenhuma culpa, Ele nos amou até o extremo, demonstrando que acredita na possibilidade de que o amor transforme até mesmo o coração mais endurecido.”

CONSOLAÇÃO E ESPERANÇA
O Papa Leão XIV foi recebido com enorme festa na Guiné Equatorial: ele nitidamente falava o espanhol com naturalidade – já que viveu grande parte de sua vida como missionário no Peru – e o país tem uma maioria de mais de 70% de católicos em uma população de quase 2 milhões de pessoas. Em todos os encontros que teve com autoridades civis, jovens e doentes, as cerimônias foram tratadas com grande solenidade e alegria. Uma universidade nacional deu o nome “Papa Leão XIV” a seu campus, marcando a visita histórica.
Por outro lado, trata-se de um dos países mais fechados do mundo, no qual o poder político está totalmente concentrado nas mãos do presidente Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, há 46 anos no poder, e de sua família e clã. Na Guiné Equatorial, o turismo é extremamente restrito e, segundo organizações de direitos humanos, a liberdade é ameaçada constantemente. A Prisão de Bata, que o Pontífice visitou, é conhecida por abrigar dezenas de prisioneiros políticos. O sistema judiciário do país nem sempre lhes dá o devido direito de defesa.

Nesse contexto, o Papa foi ao encontro do seu povo com uma palavra de esperança e de consolo. Diferentemente dos outros países em que passou anteriormente, em sua longa jornada no continente africano, iniciada no dia 13 – Argélia, Camarões e Angola –, na Guiné Equatorial a mensagem foi mais direta e uniforme. Em discurso às autoridades civis, disse: “É fundamental que se perceba a diferença entre o que perdura e o que passa, mantendo-se livre da riqueza ilícita e da ilusão do domínio.”
O Pontífice afirmou que parte do papel da Igreja é “formar consciências”, algo que ela vai continuar a fazer como anúncio do Evangelho, em especial nas situações mais delicadas. “O objetivo da Doutrina Social é educar para enfrentar os problemas, que são sempre diferentes, já que cada geração é nova, com novos desafios, novos sonhos e novas questões”, declarou.
Na missa de encerramento de sua visita ao país e à África, o Papa fez menção ao assassinato recente de um sacerdote, o Monsenhor Fortunato Nsue Esono, cujas circunstâncias pediu que sejam investigadas. Citando Santo Ambrósio, ele rezou durante a homilia: “Se estás oprimido pela injustiça, Ele é a justiça; se precisas de ajuda, Ele é a força; se tens medo da morte, Ele é a vida; se desejas o céu, Ele é o caminho; se estás nas trevas, Ele é a luz” (De Virginitate, 16,99).

‘É preciso promover um novo comportamento: a cultura da paz’
O Papa Leão XIV dedicou cerca de 20 minutos para falar e responder a perguntas de jornalistas no voo de volta a Roma, a partir de Malabo, na Guiné Equatorial. Na quinta-feira, 23, ele declarou que a longa viagem à África, na qual visitou quatro países deve ser lida “sobretudo como uma expressão da vontade de anunciar o Evangelho, de proclamar a mensagem de Jesus Cristo”, e não somente em chave política.
Nesse sentido, afirmou que hoje é preciso “promover um novo comportamento, a cultura da paz” para responder aos problemas do mundo. “Muitas vezes, quando avaliamos certas situações, a resposta imediata é: ‘é preciso intervir com violência, com guerra, atacando’”, alertou. Entretanto, é necessário continuar buscando o diálogo como resposta primária. O Santo Padre disse carregar consigo uma foto de um menino muçulmano que, no Líbano, segurava um cartaz dizendo “Bem-vindo, Papa Leão!”, mas que foi assassinado após sua viagem ao país.

“Existem muitas situações humanas, e acredito que devemos ter a capacidade de pensar dessa forma. Como Igreja, reitero, na qualidade de pastor: não posso ser a favor da guerra, e gostaria de encorajar a todos a se empenharem em buscar respostas que venham de uma cultura de paz, e não de ódio e divisão”, acrescentou.
O Papa falou, ainda, do tema da imigração, de questões morais e de possíveis divisões no corpo da Igreja, e do fato de que a Santa Sé mantém relações diplomáticas com muitos países. Sobre este ponto, explicou o porquê de ter que dialogar inclusive com líderes de regimes políticos autoritários.
“Há um trabalho enorme que se realiza nos bastidores para promover a justiça, para promover causas humanitárias, para identificar – por vezes – situações em que possa haver presos políticos e encontrar uma maneira de libertá-los”, explicou o Pontífice. “Situações de fome, de doença etc. Assim, a Santa Sé, ao manter, por assim dizer, uma neutralidade e ao buscar maneiras de continuar nossa relação diplomática positiva com tantos países diferentes, estamos, na verdade, tentando encontrar uma maneira de aplicar o Evangelho a situações concretas, para que a vida das pessoas possa ser melhorada.”



