“Parto da África com um tesouro inestimável de fé, esperança e caridade: um tesouro feito de histórias, rostos, testemunhos de alegria e de sofrimento que enriquecem grandemente a minha vida e o meu ministério como sucessor de Pedro”, disse Leão XIV ao final da missa que recebeu 30 mil pessoas no Estádio de Malabo, último compromisso público do Papa em terras africanas.

O Papa Leão XIV celebrou a missa, nesta quinta-feira, 23 de abril, no Estádio de Malabo, Guiné Equatorial, último compromisso do Pontífice em terras africanas.
O Estádio Malabo foi inaugurado em 2007. É uma estrutura esportiva polivalente, utilizada como casa da seleção de futebol da Guiné Equatorial. Sediou oito jogos da Copa Africana de Nações de 2012 e dez da Copa Africana de Nações de 2015.
O Papa iniciou sua homilia, falando sobre o diálogo entre o eunuco etíope e Filipe que, ao ouvir o eunuco ler a passagem do Profeta Isaías sobre o servo sofredor, pergunta-lhe se compreende o que está lendo. O eunuco responde imediatamente: «Como poderei compreender, sem alguém que me oriente?»
A pergunta dele “torna-se assim não só um apelo à verdade, mas uma expressão de curiosidade”. “Observemos com atenção quem está falando: é um homem rico, tal como a sua terra, mas escravo. Todos os tesouros que administra não são seus: suas são as canseiras, que beneficiam outros. Este homem tem inteligência e cultura, e demonstra-o tanto no trabalho como na oração, mas não é plenamente livre”, disse ainda o Papa, ressaltando que “este estado está dolorosamente impresso no seu corpo: trata-se, com efeito, de um eunuco. Não pode gerar vida: as suas energias estão todas ao serviço de um poder que o controla e o domina”.

Justamente enquanto está a regressar à sua terra natal, a África, que se tornou para ele um lugar de servidão, o anúncio do Evangelho o liberta. A Palavra de Deus, que tem nas mãos, produz um fruto surpreendente na sua vida: quando encontra Filipe, testemunha de Cristo crucificado e ressuscitado, o eunuco torna-se não apenas um leitor da Bíblia, ou seja, um espectador, mas protagonista de uma narrativa que o envolve, porque diz respeito precisamente a ele. O texto sagrado fala-lhe e suscita a sua busca da verdade.
“É assim que este africano entra na Escritura, acolhedora em relação a todos os leitores que desejam compreender a palavra de Deus. Entra na história da salvação, acolhedora em relação a todos os homens e mulheres, sobretudo em relação aos oprimidos, aos marginalizados e aos últimos”, disse ainda o Papa. “Ao texto escrito corresponde agora o gesto vivido: recebendo o Batismo, ele já não é um estranho, mas torna-se filho de Deus, nosso irmão na fé. Escravo e sem descendência, este homem renasce para uma vida nova e livre em nome do Senhor Jesus: é do seu resgate que ainda hoje falamos, precisamente ao lermos as Escrituras”, sublinhou.
Tal como ele, também nós nos tornamos cristãos através do Batismo, herdando a mesma luz, ou seja, a mesma fé, para ler a Palavra de Deus. Para refletir sobre as profecias, para rezar os salmos, para estudar a Lei e proclamar o Evangelho com a nossa vida. Todos os textos bíblicos, com efeito, revelam na fé o seu verdadeiro sentido, porque na fé foram escritos e transmitidos a nós: por isso, a sua leitura é um ato sempre pessoal e sempre eclesial, não um exercício solitário ou meramente técnico.

“Tal como o eunuco pede, também nós podemos compreender a palavra de Deus graças a alguém que nos oriente no caminho da fé, como foi o diácono Filipe, que «tomando a palavra e partindo daquele trecho da Escritura, anunciou-lhe Jesus», aquele que, através da sua paixão, morte e ressurreição, nos redime do pecado e da morte. Ele é o Verbo feito homem, no qual se cumpre cada palavra de Deus: revela-lhe a intenção originária, o sentido pleno e o fim último”, disse Leão XIV.
“Como afirma Cristo: «Só aquele que vem de Deus viu o Pai» (cf. Jo 6, 46). No Filho, o próprio Pai manifesta a sua glória: Deus deixa-se ver, ouvir e tocar. Através dos gestos de Jesus, o Redentor, Ele dá plenitude ao que sempre fez: dar vida. Ele cria o mundo, salva-o e ama-o para sempre. Aos que o escutam, Jesus recorda um sinal desta constante providência: «Os vossos pais comeram o maná no deserto, mas morreram». O maná é, portanto, uma prova, uma bênção e uma promessa, que Jesus vem realizar”, frisou o Papa, que acrescentou:
A esse antigo sinal sucede agora o sacramento da Aliança nova e eterna: a Eucaristia, pão consagrado por Aquele que desceu do céu para se tornar o nosso alimento. Se aqueles que comeram o maná «morreram», quem come este pão vive para sempre, porque Cristo está vivo! Ele é o Ressuscitado e continua a dar a sua vida por todos.

“Através do êxodo definitivo que é a Páscoa de Jesus, todos os povos são libertados da escravidão do mal. Ao decidir acreditar n’Ele, cada um de nós escolhe entre um desespero certo e uma esperança que Deus torna possível. Assim, a nossa fome de vida e justiça encontra saciedade na palavra de Jesus: «O pão que Eu hei de dar pela vida do mundo é a minha carne»”, frisou Leão XIV.
O Papa disse ainda que “na companhia do Senhor, os nossos problemas não desaparecem, mas são iluminados: assim como toda a cruz encontra redenção em Jesus, também no Evangelho a história da nossa vida encontra sentido. A sua palavra é para nós Evangelho, e nada temos de melhor para anunciar ao mundo.
Como ensinava o Papa Francisco, realmente «a alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus»”.

Ao mesmo tempo, quando partilhamos esta alegria, percebemos ainda melhor o risco duma «tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada. Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus, já não se goza da doce alegria do seu amor». Perante tais fechamentos, é precisamente o amor do Senhor que sustenta o nosso compromisso, sobretudo a serviço da justiça e da solidariedade.
Por fim, o Papa encorajou a todos, “Igreja que vive na Guiné Equatorial, a continuar com alegria a missão dos primeiros discípulos de Jesus. Lendo juntos o Evangelho, sede seus anunciadores entusiastas, tal como o foi o diácono Filipe. Celebrando juntos a Eucaristia, testemunhai com a vossa vida a fé que salva, para que a Palavra de Deus se torne pão bom para todos”.

ÁFRICA: tesouro de histórias e testemunhos de alegria e sofrimento
Em um momento carregado de emoção e fé, além da alegria dos 30 mil fiéis no Estádio de Malabo, ao final da missa desta quinta-feira, 23 de abril, o Papa Leão XIV se despediu do povo da Guiné Equatorial e de toda a África. Durante 10 dias, o Pontífice percorreu quatro países – inclusive a Argélia, Angola e Camarões – para consolidar a fé e encorajar as Igrejas locais para a reconciliação, a paz, a justiça e a fé. Pela duração, a viagem apostólica de Leão XIV foi semelhante àquela realizada à África por João Paulo II, em 1985, quando visitou 7 países em 11 dias. O continente, com a maior quantidade de países – um total de 54 – é o que apresenta os piores indicadores socio-econômicos, a segunda maior população e a terceira maior em extensão do mundo.
“Queridos irmãos e irmãs, chegou o momento de me despedir de vocês, da Guiné Equatorial e também de África, no final da viagem apostólica que Deus me concedeu realizar nestes 10 dias.”

O Pontífice também agradeceu às autoridades civis e eclesiásticas locais, sacerdotes e todo povo de Deus “a caminho nesta terra” desde a chegada dos primeiros evangelizadores que vieram por mar, há 170 anos. Leão XIV cumpriu agenda intensa em apenas três dias na Guiné Equatorial, que teve o lema da viagem recordado pelo Papa nas palavras de despedida, evocando a memória do passado e a confiança em um caminho de fé e esperança rumo ao futuro:
“Cristo, a luz da Guiné Equatorial e vocês são sal da terra e luz do mundo.”
Assim como nos primeiros séculos da Igreja, continuou o Papa Leão XIV ao final da missa no Estádio de Malabo, “a África é chamada hoje a dar uma contribuição decisiva à santidade e ao caráter missionário do povo cristão”. E antes de confiar “de coração” todas as famílias e comunidades dos povos africanos à intercessão de Nossa Senhora, o Pontífice finalizou:
“Parto da África com um tesouro inestimável de fé, esperança e caridade: um tesouro feito de histórias, rostos, testemunhos de alegria e de sofrimento que enriquecem grandemente a minha vida e o meu ministério como sucessor de Pedro.”
Fonte: Vatican News




