Papa: sinodalidade não é um slogan, significa ‘caminhar juntos’

A Igreja de Roma iniciou no sábado, 18, a fase diocesana do caminho sinodal, tendo um encontro com o Papa Francisco. Ao acolher o Pontífice, o Vigário de Roma, Cardeal Angelo De Donatis felicitou o Papa por encontrá-lo em boa saúde e expressou a alegria de poder tê-lo novamente entre eles.

Sinodalidade é caminhar juntos

Foto: Vatican Media/Arquivo

“Ter ouvidos, escutar, é o primeiro compromisso. Trata-se de ouvir a voz de Deus, perceber a sua presença”. Em seu pronunciamento, o Papa Francisco indica aquele que é o primeiro compromisso de um processo sinodal pensado “como dinamismo de escuta recíproca, conduzido em todos os níveis da Igreja, envolvendo todo o povo de Deus”, na escuta do Espírito Santo.

E explica o que significa colocar-se em escuta, o que significa sinodalidade, isto é,” caminhar juntos”. Fala do protagonismo do Espírito, das suas novidades e surpresas, da “sua liberdade que não conhece fronteiras”, e também do conceito de “povo de Deus”, e do sensum fidei que lhe pertence, da Tradição e da necessidade de a Igreja estar em constante movimento.

Em primeiro lugar, o Papa Francisco quer dirimir qualquer dúvida possível sobre aquele “caminhar juntos” que a palavra ‘sínodo’ significa. E afirma:

O tema da sinodalidade não é o capítulo de um tratado de eclesiologia, muito menos uma moda, um slogan ou o novo termo a ser usado ou instrumentalizado em nossos encontros. Não! A sinodalidade expressa a natureza da Igreja, a sua forma, o seu estilo, a sua missão. E por isso falamos de Igreja sinodal, evitando, no entanto, considerar que seja um título entre outros, um modo de pensá-la que prevê alternativas. Não digo isto com base em uma opinião teológica, nem mesmo como pensamento pessoal, mas seguindo o que podemos considerar o primeiro e mais importante “manual” de eclesiologia, que é o livro dos Atos dos Apóstolos.

O exemplo dos apóstolos Pedro e Paulo

Este livro, continua o Papa, é a história de um caminho onde “todos são protagonistas”, em que os ministérios estavam a serviço e “a autoridade nascia da escuta da voz de Deus e das pessoas”. Uma história que “expressa uma contínua inquietação interior”. O Papa toma então em consideração as figuras de Pedro e Paulo, duas personalidades muito diferentes. Sobre eles, diz:

Pedro e Paulo não são apenas duas pessoas com seu caráter próprio, são visões inseridas em horizontes maiores do que eles próprios, capazes de se repensar em relação ao que acontece, testemunhas de um impulso que os coloca em crise, que os impele a ousar, perguntar, interrogar-se, errar e aprender com os erros, sobretudo o de ter esperança não obstante as dificuldades. São discípulos do Espírito Santo, que os faz descobrir a geografia da salvação divina, abrindo portas e janelas, derrubando muros, rompendo correntes, libertando fronteiras. Então pode ser necessário partir, mudar de direção, superar convicções que bloqueiam e nos impedem de andar juntos.

Dois episódios aos quais o Papa Francisco se refere para falar da ação do Espírito Santo na Igreja primitiva: o primeiro é o encontro de Pedro com Cornélio, um oficial romano simpatizante do judaísmo, mas que “ainda não era suficiente para ser totalmente judeu ou cristão: nenhuma ‘aduana’ religiosa o teria permitido passar”. Mas Deus havia escutado suas orações. O Papa então acrescenta:

O encontro entre Pedro e Cornélio resolveu um problema, favoreceu a decisão de se sentirem livres para pregar diretamente aos pagãos, na convicção – nas palavras de Pedro – “que Deus não faz distinção de  pessoas”. Em nome de Deus não se pode discriminar. E vejam, não podemos entender a “catolicidade” sem nos referir a este campo grande e hospitaleiro, que nunca marca os limites. Ser Igreja é um caminho para entrar nesta amplitude de Deus.

Não ter medo do debate

O Papa observa que também hoje pode haver debates entre pensamentos diversos e até confrontos, mas que isso não deve causar medo e cita o segundo episódio referente a Paulo e Barnabé, enviados a Jerusalém para resolver a questão mesmo que para os pagãos, que não observavam a Lei, poderia existir salvação.

Não foi fácil: as posições pareciam inconciliáveis, eram longamente discutidas. Tratava-se de reconhecer a liberdade de ação de Deus e de que não havia obstáculos que pudessem os impedir de chegar ao coração das pessoas, qualquer que fosse a condição de proveniência, moral ou religiosa. A desbloquear a situação foi a adesão à evidência de que ‘Deus, que conhece os corações’, Ele mesmo apoiava a causa em favor da possibilidade de que os pagãos pudessem ser admitidos à salvação, ‘concedendo-lhes também o Espírito Santo, como nós’.

O amor incondicional de Deus

O Papa se concentra nas palavras “O Espírito Santo e nós” para dizer que a Igreja é, como diz a Lumen gentium, “o sinal e o instrumento da união íntima com Deus e da unidade de todo o gênero humano”, mesmo que sempre exista a tentação de seguir sozinho.

Nesta frase, que recolhe o testemunho do Concílio de Jerusalém, existe o desmentido de quem insiste em tomar o lugar de Deus, pretendendo modelar a Igreja a partir de suas próprias convicções culturais e históricas, forçando-a a fronteiras armadas, a aduanas incriminadoras, à espiritualidades que blasfemam a gratuidade da ação envolvente de Deus. Quando a Igreja é testemunha, em palavras e fatos, do amor incondicional de Deus, da sua amplitude hospitaleira, exprime verdadeiramente a sua própria catolicidade. E é impelida, interna e externamente, a atravessar os espaços e os tempos.

Sempre haverá discussões, alerta Francisco, mas as soluções devem ser buscadas “dando a palavra a Deus”. A Tradição, afirma, “é uma massa fermentada, uma realidade em fermentação onde podemos reconhecer o crescimento”.

A horizontalidade da Igreja

O Papa Francisco volta então ao processo sinodal e sublinha a importância da fase diocesana “porque realiza a escuta da totalidade dos batizados, sujeito do infalível sensus fidei infalível in credendo”. E revela que “são muitas as resistências à superar a imagem de uma Igreja rigidamente distinta entre dirigentes e subordinados”, enquanto “caminhar juntos descobre a horizontalidade e não a verticalidade como linha”. O sensus fidei, sublinha ele, confere a todos “a dignidade da função profética de Jesus Cristo, para poder discernir quais são os caminhos do Evangelho no presente”. E ele explica que existem duas dimensões que contribuem para esse talento: uma pessoal e outra comunitária. Não há sensum fidei, diz ele, se não há o sentir com a Igreja:

O exercício do sensus fidei não pode ser reduzido à comunicação e comparação de opiniões que possamos ter sobre este ou aquele assunto, àquele único aspecto da doutrina, ou àquela regra de disciplina. E a ideia de distinguir maiorias e minorias não poderia prevalecer. Quantas vezes o “desperdício” se tornou “pedra angular”, o ‘longe’ se tornou ‘próximo’. Os marginalizados, os pobres, os desesperados foram eleitos como sacramento de Cristo.

O dom de ser parte do povo de Deus

É preciso sentir-se parte de “um único grande povo destinatário das promessas divinas”, prossegue o Papa e especifica que mesmo sobre o conceito de “povo de Deus” “podem ​​haver uma hermenêuticas rígidas e antagônicas” ligadas a um conceito de eleição, corrigido pelos profetas.

Não se trata de um privilégio, mas de um dom que alguém recebe por todos, que recebemos para os outros, de uma responsabilidade. A responsabilidade de testemunhar com obras e não apenas com palavras as maravilhas de Deus que, se conhecidas, ajudam as pessoas a descobrir a sua existência e a acolher a sua salvação. A vontade salvífica universal de Deus é oferecida à história, a toda a humanidade por meio da encarnação do Filho, para que todos, por meio da mediação da Igreja, possam se tornar seus filhos e irmãos e irmãs entre si.

Existe uma “reconciliação universal entre Deus e a humanidade”, afirma o Papa, e a Igreja “deve sentir-se em relação com esta eleição universal e, por isso, cumprir a sua missão”. Este é o espírito da Fratelli tutti, diz ainda e adverte: “pode haver um ‘faro sem cidadania’, mas não menos eficaz”, porque o Espírito Santo não conhece limites.

Se a paróquia é a casa de todos no bairro, não um clube exclusivo, recomendo: deixem abertas as portas e janelas, não se limitem a levar em consideração apenas quem frequenta ou pensa como vocês. Permitam que todos entrem … Permitam a vocês próprios saírem ao encontro e se deixar questionar, que as perguntas deles sejam as suas, permitam caminhar juntos: o Espírito os conduzirá. Não tenham medo de entrar em diálogo e se deixem envolver pelo diálogo: é o diálogo da salvação.

Não deixem ninguém para trás

Por fim, o Papa Francisco dirige palavras de encorajamento à Igreja de Roma, convidando-a a preparar-se para as surpresas e assegurando-lhe que o Espírito “fará ouvir sempre a sua voz” e também corrigir os eventuais erros: “Escutai-o, ouvindo-vos. Não deixem ninguém fora ou para trás”. E conclui: fará bem à Diocese de Roma e a toda a Igreja redescobrir “ser um povo que quer caminhar junto, entre nós e com a humanidade”.

Fonte: Vatican News

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