Prepare-se para a Missa da Ceia do Senhor com a ajuda dos papas

O SÃO PAULO destaca trechos de homilias dos papas Francisco, Bento XVI e João Paulo II nas missas da Quinta-feira Santa ao longo dos anos

Nesta Quinta-feira Santa, 1º, os católicos do mundo todo iniciam a celebração do Tríduo Pascal com a Missa da Ceia do Senhor, que faz memória da instituição da Eucaristia e do sacerdócio. Nessa celebração também são recordados o novo mandamento dado por Jesus e o seu gesto de lavar os pés dos apóstolos.

Assim como no ano passado, a maioria dos fiéis acompanhará esses ritos de suas casas, pelos meios de comunicação, devido às medidas de isolamento social para conter o avanço da pandemia de COVID-19. Para ajudar a vivência do mistério celebrado, O SÃO PAULO destacou alguns trechos de homilias dos três últimos papas que auxiliam o aprofundamento do sentido dessa celebração.

‘AMOU-OS ATÉ O FIM’

Na homilia de 12 de abril de 1979, no primeiro Tríduo Pascal de seu pontificado, São João Paulo II ressaltou que a última ceia é precisamente o testemunho daquele amor com que Cristo, o Cordeiro de Deus, amou a humanidade até o fim.

Nas palavras do Santo Padre, o amor de Jesus até o fim significa:

“Até àquela realização que devia verificar-se no dia de amanhã, Sexta-feira Santa. Naquele dia devia manifestar-se quanto Deus amou o mundo, e como naquele amor tinha chegado ao limite extremo da doação isto é, ao ponto de dar o seu Filho único (Jo 3, 16). Naquele dia Cristo demonstrou que não há maior amor do que dar a vida pelos seus amigos (Jo 15, 13). O amor do Pai revelou-se na doação do Filho. Na doação mediante a morte”.

Ainda segundo o Pontífice polonês, a Quinta-feira Santa é, em certo sentido, o prólogo daquela doação; é a última preparação.

“De fato, pensamos justamente que amar até ao fim significa até à morte, até ao último suspiro. Todavia, a Última Ceia mostra-nos que, para Jesus, «até ao fim» significa ainda além do último suspiro. Além da morte”.

E acrescenta:

“É este, precisamente, o significado da Eucaristia. A morte não é o seu fim, mas o seu início. A Eucaristia tem início na morte, como ensina São Paulo: Sempre que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciais a morte do Senhor até que Ele venha (Cor 11, 26. 6)”.

São João Paulo II (Arquivo/Vatican Media)

EUCARISTIA

Na Missa da Ceia do Senhor de 21 de abril de 2011, o hoje Papa Emérito Bento XVI enfatizou: “Com a Eucaristia nasce a Igreja”.

“Todos nós comemos o mesmo pão, recebemos o mesmo corpo do Senhor, e isto significa: Ele abre cada um de nós para além de si mesmo. Torna-nos todos um só. A Eucaristia é o mistério da proximidade e comunhão íntima de cada indivíduo com o Senhor. E, ao mesmo tempo, é a união visível entre todos”.

O Pontífice alemão acrescentou que a Eucaristia é o sacramento da unidade:

“Ela chega até ao mistério trinitário, e assim cria, ao mesmo tempo, a unidade visível. Digamo-lo uma vez mais: a Eucaristia é o encontro pessoalíssimo com o Senhor, e no entanto não é jamais apenas um ato de devoção individual; celebramo-la necessariamente juntos. Em cada comunidade, o Senhor está presente de modo total; mas Ele é um só em todas as comunidades”.

Dois anos antes, na Quinta-feira Santa de 2009, em 9 de abril, Bento XVI afirmou que, no pão repartido, o Senhor distribui-se a si próprio.

“O gesto de partir alude misteriosamente também à sua morte, ao amor até à morte. Ele distribui-Se a Si mesmo, verdadeiro ‘pão para a vida do mundo’ (cf. Jo 6, 51). O alimento de que o homem, no mais fundo de si mesmo, tem necessidade é a comunhão com o próprio Deus. Dando graças e abençoando, Jesus transforma o pão: já não dá pão terreno, mas a comunhão consigo mesmo. Esta transformação, porém, quer ser o início da transformação do mundo, para que se torne um mundo de ressurreição, um mundo de Deus. Sim, trata-se de transformação: do homem novo e do mundo novo que têm início no pão consagrado, transformado, transubstanciado”.

NOVA ALIANÇA

O Papa emérito continua a reflexão ressaltando que aquilo que é designado por Nova Aliança não é um ato acordado entre duas partes iguais, “mas dom meramente de Deus que nos deixa em herança o seu amor, nos deixa a si mesmo”.

“Através da encarnação de Jesus, através do seu sangue derramado, fomos atraídos para dentro de uma consanguinidade muito real com Jesus e, consequentemente, com o próprio Deus. O sangue de Jesus é o seu amor, no qual a vida divina e a humana se tornaram uma só. Peçamos ao Senhor para compreendermos cada vez mais a grandeza deste mistério, a fim de que o mesmo desenvolva de tal modo a sua força transformadora no nosso íntimo que nos tornemos verdadeiramente consanguíneos de Jesus, permeados pela sua paz e desta maneira também em comunhão uns com os outros”.

SACERDÓCIO

Ainda na homilia de 1979, São João Paulo II destaca que, com a instituição da Eucaristia, Jesus comunica aos Apóstolos a participação ministerial no seu sacerdócio, “o sacerdócio da Aliança nova e eterna, em virtude da qual ele, e somente ele, é sempre e em toda a parte artífice e ministro da Eucaristia”.

“Os Apóstolos tornaram-se, por sua vez, ministros deste excelso mistério da fé, destinado a perpetuar-se até ao fim do mundo. Tornaram-se contemporaneamente servidores de todos aqueles que vierem a participar em tão grande dom e mistério”.

Em 8 de abril de 2004, o mesmo Pontífice novamente salientou a relação entre Eucaristia e sacerdócio:

“Só uma Igreja enamorada da Eucaristia gera, por sua vez, vocações sacerdotais santas e numerosas. E faz isto através da oração e do testemunho da santidade, oferecida de modo especial às novas gerações”.

Papa Francisco, em rito do lava-pés (Foto: Arquivo/Vatican Media)

LAVA-PÉS

O gesto de lavar os pés dos discípulos na última ceia também foi destacado pelos Pontífices, sobretudo o Papa Francisco, que desde o início do seu pontificado, tem o costume de realizar esse rito em cárceres e centros de ressocialização de menores.

Na missa de 28 de março de 2013, o Santo Padre explicou aos menores do Cárcere “Casa del Marmo”, em Roma, que lavar os pés significa “eu estou ao teu serviço”.

“E também nós, entre nós, não é que isto signifique de devamos lavar os pés todos os dias uns dos outros, mas qual é o seu significado? Significa que devemos nos ajudar, uns aos outros. Às vezes, fico com raiva de alguém, de um, de uma… mas deixa para lá, deixa para lá, e se essa pessoa te pede um favor, fá-lo. Ajudar-nos uns aos outros: é isto que Jesus nos ensina e é isto que eu faço, e o faço de coração, porque é o meu dever. Como sacerdote e como Bispo, devo estar ao vosso serviço. Mas é um dever que me vem do coração: amo-o. Amo-o e amo fazê-lo porque o Senhor assim me ensinou”.

GESTO DE FRATERNIDADE

Em 24 de março de 2016, Francisco lavou os pés de doze imigrantes e refugiados de diferentes tradições culturais e religiões. Ele contrapôs o gesto de Jesus ao de Judas, que “vendeu” o mestre por 30 moedas. 

“Hoje, neste momento, quando eu fizer o mesmo gesto de Jesus de lavar os pés a vós doze, todos nós estamos a fazer o gesto da fraternidade, e todos nós dizemos: ‘Somos diversos, somos diferentes, temos culturas e religiões diversas, mas somos irmãos e desejamos viver em paz’. E este é o gesto que eu faço convosco. Cada um de nós tem uma história de vida, cada um de vós carrega uma história consigo: tantas cruzes, tantos sofrimentos, mas também tem um coração aberto que deseja a fraternidade. Cada um, na sua língua religiosa, reze ao Senhor para que esta fraternidade contagie o mundo, para que não haja as 30 moedas para matar o irmão, para que haja sempre a fraternidade e a bondade. Assim seja”.

SERVIÇO

São João Paulo II, na homilia de 20 de abril de 2000, ano do grande Jubileu, recorda que Pedro se recusa a ter os pés lavados pelo Mestre que, por sua vez, o convence.

“Logo depois, porém, retomando as vestes e tendo-se posto de novo à mesa, Jesus explica o sentido deste seu gesto: ‘Vós chamais-Me Mestre e Senhor, e dizeis bem, visto que o sou. Ora, se Eu vos lavei os pés, sendo Senhor e Mestre, também vós deveis lavar os pés uns aos outros’ (Jo 13, 12-14). São palavras que, unindo o mistério eucarístico ao serviço do amor, podem ser consideradas preliminares à instituição do Sacerdócio ministerial.”

Papa Bento XVI, em rito do lava-pés (foto: Arquivo/Vatican Media)

PURIFICAÇÃO

Na sua primeira Quinta-feira Santa como Pontífice, em 13 de abril de 2006, Bento XVI afirmou que, pelo gesto do lava-pés, é possível perceber que a santidade de Deus não é só um poder incandescente, “é poder de amor e por isso é poder que purifica e restabelece”.

“Deus desce e torna-se escravo, lava-nos os pés para que possamos estar na sua mesa. Exprime-se nisto todo o mistério de Jesus Cristo. Nisto se torna visível o que significa redenção. O banho no qual nos lava é o seu amor pronto para enfrentar a morte. Só o amor tem aquela força purificadora que nos tira a nossa impureza e nos eleva às alturas de Deus. O banho que nos purifica é Ele mesmo que se doa totalmente a nós até às profundidades do seu sofrimento e da sua morte”.

E continua, refletindo sobre o que significa concretamente lavar os pés uns dos outros:

“Eis que, qualquer obra de bondade pelo outro especialmente por quem sofre e por quantos são pouco estimados é um serviço de lava-pés. Para isto nos chama o Senhor: descer, aprender a humildade e a coragem da bondade e também a disponibilidade de aceitar a recusa e contudo confiar na bondade e perseverar nela”.

Na homilia de 18 de abril de 2019, o Papa Francisco reforça a dimensão do serviço e da humildade ao recordar a recomendação de Jesus,  que diz: “Prestai atenção: os chefes das Nações dominam, mas entre vós não deve ser assim. O maior deve servir o mais pequenino. Quem se sente o maior, deve ser o servidor”.

“Também todos nós devemos ser servidores. É verdade que na vida existem problemas: discutimos entre nós… mas isto deve ser algo que passa, algo passageiro, porque no nosso coração deve existir este amor de serviço ao próximo, de estar ao serviço do outro”.

(Texto publicado originalmente em 9 de abril de 2020)

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