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São Carlo Acutis: a santidade para além da internet

São Carlo Acutis: a santidade para além da internet - Jornal O São Paulo
Vatican Media

Quando se fala de São Carlo Acu­tis, duas imagens aparecem quase ime­diatamente: o adolescente apaixonado pela Eucaristia e o jovem que utilizou a internet para divulgar os milagres eucarísticos. Entretanto, Carlo não foi canonizado porque sabia programar computadores nem porque realizou um extraordinário trabalho de evan­gelização pelos meios digitais. A razão é muito mais profunda: a Igreja reco­nheceu que aquele adolescente viveu as virtudes cristãs em grau heroico.

Portanto, para compreender verda­deiramente Carlo Acutis – beatificado em 2020 pelo Papa Francisco e canoni­zado pelo Papa Leão XIV em 7 de se­tembro de 2025 – é preciso olhar além da tela do computador e penetrar na­quilo que acontecia dentro de sua alma.

FÉ: DEUS LEVADO A SÉRIO

A primeira característica de Carlo era uma fé que havia deixado de ser simplesmente uma tradição recebida para tornar-se uma relação pessoal com Cristo. O adolescente participava diariamente da Santa Missa e, quando os compromissos escolares o impe­diam, fazia a comunhão espiritual.

O jesuíta Padre Arturo Elberti destaca os dois grandes pilares sobre os quais Carlo construiu sua vida in­terior: a Eucaristia e Nossa Senhora. Participava diariamente da celebração eucarística, permanecia em adoração diante do Santíssimo Sacramento e re­zava fielmente o Rosário.

A fé de Carlo Acutis, portanto, não consistia apenas em acreditar nas verdades cristãs. Era uma fé que pro­curava a presença de Cristo e desejava viver continuamente diante Dele. “Es­tar sempre perto de Jesus, esse é o meu projeto de vida”, dizia.

ESPERANÇA: A VIDA ORIENTADA PARA O CÉU

A esperança cristã manifesta-se so­bretudo quando o homem é confronta­do com seus próprios limites. Em outu­bro de 2006, aos 15 anos, Carlo recebeu o diagnóstico de uma forma agressiva de leucemia. Em poucos dias, sua saúde deteriorou-se rapidamente, mas ele con­servou a serenidade e a alegria, mesmo nos momentos mais duros da doença. Mais ainda: ofereceu seus sofrimentos pelo Papa e pelo bem da Igreja, manifes­tando sua esperança de chegar ao Céu.

A esperança cristã havia criado nele uma espécie de hierarquia das coisas. A saúde, os estudos, as amizades, a informática e as diversões eram bens verdadeiros, mas não eram o Bem definitivo. Quando chegou a hora de abandoná-los, sua esperança estava colocada em algo maior.

fia oficial de sua canonização afirma que ele estava sempre disposto a ajudar colegas necessitados e que era amigo dos pobres de sua vizinhança, aos quais dava parte de sua mesada. Outros tes­temunhos registram que economizava dinheiro para ajudar necessitados e que se preocupava com moradores de rua.

O Cristo adorado no altar era o mesmo Cristo que Carlo procurava reconhecer nos pobres. A Eucaristia, portanto, não o afastava das necessi­dades humanas; ela educava seu olhar para percebê-las.

PRUDÊNCIA: APRENDER A ESCOLHER O VERDADEIRO BEM

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Arquivo pessoal

A prudência é a virtude que per­mite reconhecer o verdadeiro bem em cada circunstância e escolher os meios adequados para realizá-lo. Carlo inte­ressava-se por informática, estudava, tinha amigos e participava da vida própria de um adolescente. Havia em sua existência, porém, uma orientação fundamental: as coisas deveriam con­duzi-lo a Deus e não o contrário.

Carlo percebeu que até mesmo algo tão fascinante como a tecnologia po­deria ser colocado a serviço de uma finalidade superior. Assim, para ele, o computador deixou de ser simplesmen­te entretenimento e tornou-se também instrumento de evangelização.

JUSTIÇA: DAR A DEUS E AO PRÓXIMO AQUILO QUE LHES É DEVIDO

Carlo reservava espaço real para Deus em sua jornada: a Missa, a ado­ração, a oração e o Rosário não eram atividades ocasionais acrescentadas quando sobrava tempo. Essa justiça para com Deus se prolongava na jus­tiça para com o próximo: o colega ne­cessitado, o pobre, o marginalizado e quem precisava de ajuda encontravam nele atenção concreta.

O Cardeal Marcello Semeraro re­cordou, depois da canonização, que os testemunhos recolhidos no processo canônico destacavam particularmen­te a humildade de Carlo e relaciona­vam essa humildade à sua capacidade de perceber as necessidades dos mais fracos.

FORTALEZA: PREPARADO PELAS PEQUENAS FIDELIDADES

Como um adolescente de 15 anos estava espiritualmente preparado para enfrentar daquela maneira uma doen­ça mortal? A resposta provavelmente está nas pequenas fidelidades anterio­res. Carlo sempre fazia pequenos sa­crifícios, pequenas renúncias.

É bem sabido que a fortaleza não surge repentinamente diante de uma tragédia, mas forma-se lenamente quando aprendemos a suportar pe­quenas contrariedades, cumprir nos­sos deveres, renunciar a nós mesmos e permanecer fiéis ao bem mesmo quando isso é custoso para nós. Quan­do chegou a grande cruz, Carlo já ha­via aprendido, nas pequenas cruzes, a oferecer-se.

PUREZA DE CORAÇÃO

A pureza, no sentido cristão mais profundo, é uma unificação interior da pessoa em torno de Deus. “Bem-a­venturados os puros de coração, por­que verão a Deus” (Mt 5,8).

A vida de Carlo manifesta essa progressiva simplificação interior. Eucaristia, oração, Nossa Senhora, serviço aos pobres, deveres escolares, amizades e apostolado não constituí­am compartimentos separados. Tudo convergia para uma mesma finali­dade: permanecer unido a Cristo. É precisamente isso que dá unidade às virtudes.

SUA VERDADEIRA GRANDEZA

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Arquivo pessoal

Carlo Acutis, portanto, não é sim­plesmente “o Santo da internet”. Tam­pouco é Santo porque organizou uma exposição sobre milagres eucarísticos, ainda que tenha sido uma importan­te obra apostólica. A verdadeira obra aconteceu dentro dele. Foi a transfor­mação progressiva de um adolescente comum pela graça de Deus.

A fé levou-o à Eucaristia. A espe­rança orientou sua vida para o Céu. A caridade levou-o aos pobres. A pru­dência ensinou-lhe a ordenar seus ta­lentos para o bem. A justiça levou-o a dar espaço a Deus e atenção ao próxi­mo. A fortaleza preparou-o para ofe­recer a própria doença. A temperança tornou-o livre diante dos bens mate­riais. A humildade impediu que seus talentos terminassem em si mesmo.

Carlo Acutis era um jovem real. Sua canonização demonstra que a santidade não exige uma vida extra­ordinária, mas sim que a vida ordiná­ria seja progressivamente entregue a Deus de maneira extraordinária.

Talvez seja insuficiente dizer que Carlo evangelizou a internet. Antes disso, o Evangelho evangelizou Carlo. E somente porque Cristo havia con­quistado progressivamente sua inteli­gência, sua vontade, seus afetos, seus talentos e sua liberdade, Carlo pôde depois colocar tudo isso a serviço da evangelização.

Esta é, afinal, a razão profunda pela qual a Igreja o apresenta como Santo: não pelo brilho de uma reali­zação tecnológica, mas pelo heroísmo silencioso das virtudes cristãs vivido na normalidade de uma existência de apenas 15 anos.

A memória litúrgica de São Carlo Acutis é celebrada em 12 de outubro. No Brasil, porém, como neste dia se co­memora a Solenidade de Nossa Senho­ra Aparecida, os bispos reunidos na 62ª Assembleia Geral da CNBB, realizada este ano, decidiram que, no âmbito das dioceses e paróquias, São Carlo Acutis seja celebrado em 13 de outubro.

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