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Ausência de paz e pluralismo religioso são apontados por bispos como desafios centrais no Brasil

A coletiva de imprensa no terceiro dia da 62ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, na sexta-feira, 17, no Centro de Eventos Padre Vítor Coelho de Almeida, em Aparecida (SP), contou com a participação de Dom Francisco Lima, Bispo de Carolina (MA) e coordenador do Grupo de Análise de Conjuntura Social; e de Dom Joel Portella Amado, Bispo de Petrópolis (RJ) e presidente da Comissão para a Doutrina da Fé da CNBB.

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Adielson Agrelos – Comunicação 62ª AG CNBB

A BUSCA POR PAZ

Dom Francisco destacou que a falta de paz tem marcado profundamente o cenário contemporâneo, sendo um dos principais eixos da análise de 2026. “A análise de conjuntura social deste ano fez menção ao que o mundo moderno, ou dito pós-moderno, tem provocado no coração da humanidade: a ausência de paz. Como em períodos da Antiguidade e da Idade Média, hoje recorrentemente encontramos essa ausência”, afirmou.

Ele ressaltou que o estudo também abordou temas como meio ambiente, violência nas grandes cidades e o papel do cristão diante dessa realidade, reiterando que “a guerra não pode ser a solução, nem fazer com que a humanidade volte a um estado de todos contra todos”, disse.

Ao responder sobre o fenômeno das guerras na atualidade, Dom Francisco apontou para uma crise da racionalidade moderna. “A ciência e a tecnologia, que vieram para ser instrumentos de construção do futuro, tornaram-se, em certa medida, instrumentos de sua destruição. O ser humano não conseguiu elaborar critérios para viver em paz”, disse.

Segundo o prelado, fatores econômicos e geopolíticos intensificam esse cenário, gerando medo global e polarizações. “Hoje, os países vivem sob a égide do medo, e blocos de poder acabam influenciando até mesmo as micro realidades”, completou, reforçando que a missão da Igreja é promover a reconciliação, o perdão e a paz.

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Jaison Alves/CNBB

AS REDES SOCIAIS NÃO SUBSTITUEM A VIDA COMUNITÁRIA

Apresentando a análise de conjuntura eclesial, Dom explicou que “a análise teve uma finalidade muito concreta: ajudar a entender por que as diretrizes são como são e por que fazemos determinadas opções pastorais”.

Ele destacou que o Brasil não se tornou menos religioso, como se previa, mas “tornou-se pluralmente religioso”, com múltiplas expressões de fé e grande mobilidade entre elas. “As pessoas circulam entre religiões e vão compondo suas próprias experiências religiosas, em um contexto de altíssima individualização”, acrescentou.

Ao abordar a evangelização no ambiente digital, Dom Joel reconheceu a relevância do ciberespaço, mas fez um alerta: “Não há como negar o espaço digital, mas a fé precisa se fazer presença: o Verbo se fez carne, Cristo se fez convívio”, disse.

De acordo com ele, as redes sociais podem suscitar identidade e comunicação, mas não substituem a vida comunitária. “É preciso ir à comunidade, viver a Palavra de Deus, conviver com os irmãos e fazer o discernimento do Espírito, aprendendo o jeito de Jesus ser”, afirmou, destacando que o desafio é evitar uma fé superficial.

Dom Joel também chamou atenção para a atual “policrise” vivida pela sociedade, especialmente no campo das relações humanas. “Vivemos uma crise de vínculos, de afetos e de fraternidade. Em um mundo marcado pela individualização, o enfraquecimento desses laços pode levar ao desespero”, afirmou.

Ele ressaltou que o fortalecimento da experiência comunitária é essencial para enfrentar tanto a desinformação quanto as crises existenciais, destacando ainda a realidade dos jovens que creem em Deus, mas sem vínculo eclesial: “não basta esperar que venham; é preciso ir ao encontro deles”.

No encerramento, os bispos convergiram ao apontar o papel da Igreja diante dos desafios contemporâneos. Dom Francisco reafirmou a missão de promover a paz e superar polarizações, enquanto dom Joel destacou a necessidade de uma Igreja que, inserida em um mundo plural, mantenha sua identidade e saiba dialogar. Ambos reforçaram a esperança de que, mesmo em meio às crises, seja possível construir caminhos de comunhão, fé madura e compromisso com o Evangelho.

Neste sábado, 18 de abril, as sessões continuam no Centro de Eventos Padre Vítor Coelho de Almeida depois da Santa Missa no Santuário Nacional.

Fonte: CNBB

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