Brasil, terra de santos

O jovem Fabio Rodrigues dos Santos, 28, sempre se interessou pelas histórias dos santos da Igreja. No entanto, não tinha conhecimento da existência de brasileiros que haviam sido elevados à honra dos altares. Até que, em 5 de novembro de 2006, ele participou da missa de beatificação do Padre Mariano de La Mata, na Catedral da Sé, em São Paulo. A partir daí, começou a ir em busca de pessoas que viveram a santidade no Brasil. Ele anotava esses nomes em sua agenda e, aos poucos, essa lista foi crescendo.

Fábio, então, descobriu que entre santos, beatos, veneráveis e servos de Deus são 181 homens e mulheres que testemunharam a santidade no Brasil. Desses, 37 já foram canonizados e 14 beatificados.

Em julho de 2020, durante uma conversa com a amiga Lívia Miranda de Paulo, 32, surgiu a ideia de fazer algo estruturado, voltado para a promoção dos santos, beatos e daqueles brasileiros cujos processos de beatificação e canonização estavam em andamento. Logo, percebeu-se que as histórias dessas pessoas estavam dispersas e não havia um canal que reunisse todas as informações. À Lívia e ao Fábio somaram- -se Renato Adelino de Oliveira, 34, Diego Moreno Gomes, 40, e Anne Caroline Silva Kawagoi Machado, 25.

Assim, nasceu o projeto “Brasil Terra de Santos”, que conta com um perfil no Instagram e uma página no Facebook (@brasil.terradesantos) que apresentam as biografias desses santos e pessoas em processo para o reconhecimento da Igreja, orações e reflexões. Há também um canal no YouTube (https://tinyurl.com/ye6f5wld) que apresenta vídeos de entrevistas com postuladores, vice-postuladores e até pessoas que conviveram com esses santos.

Critérios

O critério do levantamento e divulgação do “Brasil Terra de Santos” considera todos aqueles que tiveram a bem-aventurança e santidade reconhecidas oficialmente pela Igreja ou que estão com os processos de beatificação e canonização abertos. Entre esses, estão brasileiros natos, como Santo Antônio de Sant’Anna Galvão e Santa Dulce dos Pobres; estrangeiros que viveram e morreram no Brasil, como Santa Paulina e São José de Anchieta; e aqueles cuja santidade teve alguma relação direta com o Brasil, como é o caso dos 40 jovens jesuítas mortos, mártires, lançados ao mar enquanto viajavam em missão da Europa para o Brasil, em 1570.

Outra preocupação do grupo é quanto à fidelidade à biografia oficial dessas pessoas que, muitas vezes, são envoltas em lendas ou relatos de tradição popular que carecem de confirmação histórica. Lívia acrescentou que, de igual modo, há um grande cuidado em relação às graças e milagres atribuídos a esses personagens, que embora só possam ser considerados oficialmente após a verificação e o reconhecimento, que, assim, aprovam a beatificação ou canonização dos servos de Deus.

“Nosso maior objetivo é também destacar a humanidade dessas pessoas e aproximar o público de suas vidas, para que percebam que a santidade é possível a todos”, salientou Fábio, explicando o cuidado do grupo em não dar ênfase aos dons extraordinários relacionados aos santos que, muitas vezes, são propagados como “superpoderes” que ofuscam o fato de que a santidade desses homens e mulheres consiste muito mais na maneira como davam o sentido sobrenatural às coisas mais comuns de suas vidas. “Tentamos mostrar as dúvidas que tiveram, as escolhas que fizeram, a fé que os moveu”, completou.

Exemplos a serem seguidos

Nesse sentido, os jovens recordaram que, antes de ser declarado bem-aventurado e santo, o servo de Deus deve ter suas virtudes heroicas reconhecidas, tornando-se, assim, venerável. Em outras palavras, a santidade passa necessariamente pelo testemunho da vivência da fé, esperança e caridade de maneira heroica.

“Hoje em dia, parece que os santos são vistos como super-heróis, com superdons e milagres que os fazem inalcançáveis. Nós buscamos fazer com que os brasileiros se identifiquem e até se reconheçam nessas pessoas que viveram a santidade, e se sintam chamados a serem santos nos lugares ondem vivem”, afirmou Gomes.

Um exemplo pouco conhecido é o da Venerável Irmã Serafina Cinque (1913- 1988), religiosa que viveu o testemunho da caridade e da misericórdia especialmente das gestantes e refugiados impactados pelas obras da rodovia Transamazônica, na região de Altamira (PA).

“Quando publicamos o vídeo sobre a Irmã Serafina, recebemos um comentário de uma pessoa que escreveu: ‘Moro em Corari (AM) e soube que ela passou um tempo aqui. É muito bom saber que até aqui no Amazonas podemos ser santos’”, contou Anne, confirmando o propósito que dá nome ao projeto “Brasil Terra de Santos”.

História de um povo

Ao entrar no perfil do projeto no Instagram, é possível ver um verdadeiro mosaico de diferentes rostos que expressam a santidade vivida na diversidade própria do povo brasileiro.

“Nós podemos estudar a história do Brasil, mas, quando temos contato com essas histórias, nós relemos a história do País de forma completamente diferente”, enfatizou Fábio, acrescentando que, quando os acontecimentos e diferentes períodos da sociedade brasileira são vistos a partir da perspectiva daqueles que viveram a santidade nessas diferentes épocas, contextos e estados de vida, tudo ganha um novo sentido.

“O Brasil é terra de santos porque esses santos ajudaram a escrever a história do nosso povo. Diante deles, somos chamados a nos perguntar o que podemos fazer concretamente no lugar onde vivemos e contribuir para tornar o nosso País e o mundo melhores”, completou o jovem.

São José de Anchieta (1534-1597)

Sacerdote jesuíta espanhol, considerado o Apóstolo do Brasil, fundador de várias cidades, entre as quais São Paulo.

Imagens: Divulgação/Reprodução

Santo André de Soveral e companheiros (1645)

Protomártires do Brasil – 25 homens e cinco mulheres mortos em Cunhaú e Uruaçu (RN).

Santa Dulce dos Pobres (1914-1992)

O ‘Anjo bom da Bahia’ andava por Salvador (BA) em busca de doações para os menos favorecidos e conseguiu que fossem construídos um albergue e um hospital

Serva de Deus Maria de Lourdes Fontão (1931-1988)

Leiga que se dedicou à catequese, oração e atividade pastoral em São José do Rio Pardo (SP).

Beata Albertina Berkenbrock (1919-1931)

Adolescente martirizada em Imaruí (SC) em defesa de sua pureza durante uma tentativa de estupro.

Beata Assunta Marchetti (1871-1948)

Religiosa nascida na Itália, da Congregação das Irmãs Missionárias de São Carlos Borromeo, que se dedicou ao cuidado dos órfãos, pobres e migrantes em São Paulo.

Beato Mariano de La Mata Aparício (1905-1983)

Sacerdote agostiniano espanhol que dedicou boa parte de sua vida ao pastoreio dos fiéis em São Paulo.

Servo de Deus Sepé Tiaraju (1723-1756)

Leigo indígena que viveu em São Gabriel (RS), é considerado o “herói guarani missioneiro” dos Sete Povos das Missões, foi morto durante a chamada “Guerra Guaranítica”.

Servo de Deus Franz de Castro Holzwarth (1942-1981)

Leigo e advogado atuante na Pastoral Carcerária. Foi morto enquanto mediava uma rebelião em São José dos Campos (SP).

Venerável Serafina Cinque (1913-1988)

Religiosa que dedicou a vida ao socorro material e espiritual de gestantes e refugiados na região da rodovia Transamazônica, em Altamira (PA).

Beatos Manuel Gomez Gonzalez (1877-1924) e Adílio Daronch (1908-1924)

Sacerdote e coroinha martirizados em Nonoai (RS).

Santa Paulina (1865-1942)

Religiosa italiana que viveu em São Paulo e foi fundadora da Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição.

Servo de Deus João Pozzobon (1904-1985)

Diácono Permanente propagador da devoção à Mãe e Rainha Três Vezes Admirável de Schoenstatt, em Santa Maria (RS).

Beato Francisco de Paula Victor (1827-1905)

Foi escravizado e, depois, tornou-se sacerdote, com uma vida marcada pelo zelo apostólico e a cura das almas em Três Pontas (MG), para onde acorriam fiéis de todo o País.

Servo de Deus Antoninho da Rocha Marmo (1918 – 1930)

O menino paulistano, que morreu aos 12 anos de idade vítima de tuberculose, desejava ser padre e brincava de presidir missa, mas o fazia com tanta piedade que este momento era acompanhado por crianças e outros adultos. Antes de falecer, idealizou a construção de um hospital para crianças em São José dos Campos (SP)

Santo Antônio de Sant’Anna Galvão (1739 – 1822)

Ele ingressou na Ordem dos Frades Menores aos 21 anos de idade e depois de ordenado sacerdote, em 1762, no Rio de Janeiro, foi enviado para o Convento de São Francisco, em São Paulo. Em 1770, foi designado confessor do Recolhimento Santa Teresa. Quatro anos depois, fundou o Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição da Divina Providência, atual Mosteiro da Luz, cujas instalações foram por ele ampliadas durante intenso trabalho ao longo de 14 anos.

Beata Francisca de Paula de Jesus – Nhá Chica (1808-1895)

Leiga, neta de escravos, reconhecida por seu testemunho de fé, esperança e caridade, além de profunda devoção a Nossa Senhora, na cidade Baependi (MG).

Comentários

  1. Bonito trabalho. Também não encontrei a Serva de Deus Ginetta Calliari, a qual sempre recorro em minhas orações.

  2. Olá! Faltou falar sobre o Servo de Deus D. Tomás Vaquero, bispo da diocese de São João da Boa Vista. Amissíssimo de dona Lurdinha Fontão, foi ele que presidiu a missa de corpo presente dela.

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